Mergulho pífio em espelho qualquer./amargura/abuso/silêncio.

????, ????, 2018.

Mergulho pífio em espelho qualquer.
1
Observo-me aflito em uma expectativa injustificável
Suponho uma dezena de suplícios, para entorpecer meu rosto;
Rangendo os dentes pro reflexo cadavérico no espelho

Detestando o eco depreciativo na bala perdida
Alveja um qualquer, que antes de cair de face na podridão da calçada
Cuspia em escárnio, o preço amargo do cigarro;

2
Sentinelas farejam o sangue escorregadio destes azarados;
Fazem-se piadas entrecortadas por olhares minuciosos
Acham-se na posição dos amorais, dos capitalizadores perfeccionistas
São estudiosos dos acasos – mortos ordinários;

Traje simples para este enterro estúpido;
“Melhor seria enviá-los todos, pro inferno!”
Fará você arrepiar-se, ouvir o que se diz de qualquer morto-sem-nome
“São meros, de nada serviam! Se morto está, aí, fez por merecer!”
Balas perdidas não caçam presas postas no gatilho – só agarram espíritos

Nome se dá ao digno trabalhador, que um pouco se quer faz
Para girar a catraca das grades, dos carros que buzinam pros porteiros!
E se iram, em qualquer segundo de atraso
Não há ódio maior que aguardar serviço de seres repugnantes!

3
Rejeito empregos ilusórios, fachadas fictícias
Sem-nome é o tal qual nasce no berço da miséria;
Põe tijolo sobre tijolo, para esquivar dos ruidosos pingos de chuva;
Tão pontiagudos carregados das doenças-risórias em diálogos distantes!

Dizer ao filho pequeno, enquanto o mais velho já mergulha no torpor;
Dizê-lo uma ou outra história silenciosa sem desgraça,
Contar sonhos quiméricos, trajetos indigestos e um tipo atípico culpante;
Ter sido isto e não outro, enquanto outro é senão ficção;
Daquele contador de histórias!

4
Ricardo, seu nome era Ricardo;
Conheci-o em um bar de esquina,
Tocava-lhe o ombro várias vezes,
E recebia uns olhares desconexos, irritadiços

Notei vagarosamente, entre gole e outro
Que não cometia desastre, só lhe tocava
Porém pelo seguimento de sua consciência,
Não devia-lhe nada, sequer afeto;

Tive convulsões ruidosas naquela madrugada
Tateei o breu do meu quarto,
A tragédia estava nítida nos meus olhos
Seria-me casual, um outro morto;
Porém tê-lo internalizado foi uma desgraça,
Escamoteei sua alma, sem dizer-lhe

5
A notícia me veio por um jornal desprezível,
Estava tomando uma xícara de café;
Nas telas, palavras comuns ao óbito;
Vi pouco do corpo estático no calçamento!

Ricardo fora alvejado,
Seu rosto desesperado,
Examinava a calçada em busca de algo,
Esvanecia devagar, a lágrima brotou no canto!

Desceu pela bochecha arrepiando a coluna gelatinosa,
Um frio gélido foi soprado na sua testa quadrada;
Ricardo morria.

6
Soube de chofre que meu choro seria inútil,
Lágrimas escorreriam e causaria riso
Espanquei minha consciência naquele instante;
Guardei um choro ácido na corda vocal

… E me retirei daquele banheiro embaçado,
Mijei em um tipo de ira recente, indescritível
Ricardo fora a mim, uma ideia de ser -ser aqui, como homem;
A menosprezável factualidade desta vida cíclica.

 02, MAIO, 2019. 
 
 ABUSO.
Visita o velho sangue, o velho aliado
Rasteja, com os fatos raquíticos mordiscando o pescoço nu
Deleta enquanto divaga, deleta os meros;
Mas precisa ver o sangue, o velho amigo, o aliado
 
A rua era um nevoeiro azulado, de gotas cinzas
Cravadas nas faces alheias; não via nada, além do cinza
Uma mescla colorida, aquecendo o caos;
O aliado esperava-o, fumando um cigarro
 
Uma esquina, um poste banhado pelo nublado
Nublado azul, contínuo, e o cinza das faces
 
Tateava os bolsos enquanto andava, não encontrava;
A lógica simples da causa, o cigarro uma caneta,
A fumaça um tom esbranquiçado naquele inferno azul.
 
Voltaria? Decidira voltar?
Detestaria-se tanto? Seria-se tão banal?
Oscilante como um olhar estupefato, diante da morte;
Não, não deveria, não cederia, visitaria o sangue!
 
Há tragédias singelas, és verdade
Os mortos navegam barcas pequenas e diárias,
Dos recém-nascidos aos idosos, adolescentes,
Vidas que acometem-se da vida, e sucumbem.
 
A forma daquele sangue, aliado, amigo
Fazê-lo transbordar da boca, dos olhos
Uma névoa espessa, azul, contínua!
 
 Ah, mas não desistiria
Pernas que tremiam
E a língua seca junto do estômago áspero
Um refluxo, uma ânsia e um cuspe, uma tosse
 
Chegaria lá,
E como as gotas de sangue,
O parto, o filho,
Pai, mãe... o mesmo giro;
 
Uma catraca disforme
De ansiedades complexas;
 
Vira cinza o mundo,
O azul que coloria o caos,
As faces abatiam a causa, a vida;
Todos lembrariam um homem, um humano
 
Um abuso.

 02, MAIO, 2019.
 
AMARGURA.
Senti um cheiro forte, azedo
Uma mistura amarga, fétida
Sorri ébrio daquele asco, rastejei pela cerâmica
Lambi o corpo estirado;

Detestei o gosto simples, cru
Vi de perto a lágrima escorrer,
Um jovem, era um jovem
Havia alguns dias já, que tentava levantar-se

Previ que fosse sintoma de morte, sempre suponho;
Talvez a morte seja o axioma
De qualquer estado vegetativo da alma;
Os platônicos raros sentimentos, o prazer do nada;

Nada em sua pura simbologia, o inalcançável
Somente palpável no delírio, na saudade
Das hipóteses colossais, abismais
Nada nítidas, físicas!


O corpo exalava um apodrecimento
Dos pés a cabeça, as frestas breves
Acumulavam o suor, os germes, a pele morte;
E nada que eu tocava ali, movia-se

Tive inveja, e pena
Nada de ternura em um ato sombrio,
Pensei acometido por um crime qualquer
Ali eu era o pagão...

Lambi o morto dos pés até os joelhos,
Assumi que estava, de fato, morto.

Não ouvi resposta, queria tocar o efêmero, líquido;
Nada que ousasse mudaria o fato
Ele buscou a morte
E eu só queria senti-la

Incrível, incrível!
A ternura de outrora, sucumbe
Há agora o deletério, pútrido
Respiro da mesma forma, como uma linguagem recente...

Deitei ao lado do defunto, que já não era corpo
Até que o mal cheiro me fez vomitar,
Arrastei-o até a calçada, com um lençol pequeno
E o deixei lá... onde os mortos ficam.
 
30, ABRIL, 2019.
 
silêncio.
rastros inconfundíveis, de uma repetição honesta;
meu corpo é efémero, deletério
ríspido ao silêncio acometido.

deito e observo alguns traços simples
sombras compõem um horizonte mistificado;
há ali algo redutivo, simplista.

acordei cedo, tateei os bolsos
encontrei um silêncio ameno, traguei-o
vi a fumaça desfazer-se em uma neblina densa

um rosto, alguma parte insólita
testei meu corpo ao limite
da decadência espiritual

populei minhas tardes com o silêncio inquieto
um teto esbranquiçado, robusto, macabro
corpulentos delírios iniciavam, rarefeitos

detestei meu olhar,
havia uma certeza simbólica nele.

busquei o criado-mudo tal qual um rato
mordi as beiradas, tentei acelerar o processo;

meus dedos magricelas sentiram o gélido gosto
fitaram-no com a ponta, as digitais grudavam devagar
e enfim um abraço calmo, estava entre os dedos

vi-a encostar a testa, prateada, empoeirada
o som ecoaria, atravessaria os dias;
cravaria lá, a desgraça, cravaria o fato.

"leva-se, peste! reduz-se, misero!
arrasta a culpa, arrasta, és o fardo
viva a agonia, viva!"

ouvia-a dizer, cantarolar mil pragas
não ocupava-me, insistia
e descansei o crânio no travesseiro

2.
um som habitou a tarde
um eco seco
um ruído grave
e algo silenciava.

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