25, MAIO, 2016.
LUTO. (CARTA A DAMUEL) prefácio para este retorno ao poema. 25/05/2022.
Tio me representou a percepção, pois me via para além de sua expectativa sobre mim e o mundo. Tio sempre me convidava, chamava, dizia; me recebia com o tipo de olhar, sorriso e afeto que transbordava em uma genuidade rara. Me sentia submerso em seu amor, mesmo eu sendo um fantasma de aparições raras; mas o mágico estava contido aí, ele sabia. Desculpa não ter estado mais e ido mais, essa memória me rasga o âmago, pois me escancara o real sólido de alguém que parte e o símbolo transformativo da partida no ser, em mim, pelo resto da vida. Lhe amo, amei, na forma espectral e dialética de mim, sempre fui fidedigno a quem me percebe. O amor está aí. Saudade absoluta das formas que nos faltaram e se tornaram étereas em minha memória de ti. O escasso dos encontros se tornou um conceito máximo de percepção e amor ao ser, independente da própria expectativa.
LUTO.
25, MAIO, 2016.
ecoa no espaço, dois nobres laços que se despedem tragos amargos num cigarro minúsculo de ideias robustas vesgos pássaros chocam-se em árvores pálidas e as lágrimas de um céu cansado preenche o solo pisoteia a lama, feito criança que cai do berço as pequenas palavras do terço molham, apagam um primeiro traço de toda a sua mínima causa insignificante uma vontade enorme de entrar num lago novo popular o próprio corpo de mazelas d'outros ser a constelação, iluminar o enterro do desespero de tantos meliantes maltrapilhos, tantos mendigos golpeando portas e janelas, tirando vontades e vidas para que se viva a primeira lua passa e é de sangue, ecoa o rancor agoniza cada curta alma que se preza, mas nega a desgraça se repete em audácia o sagaz golpe da espada, traz consigo toda raiva verdes são os sonhos novos iluminando postes em ruas subjetivas dando calçamento e gente, para praças em espíritos de pura melancolia gasto as primeiras horas no espaço, voando ouvi a tua voz, teu ultimo grito ultrapassar minhas entranhas e a lembrança de tudo que ainda viria, fez-me criança e de lá sorri, mas choro, e coro, pela esperança que já não há aqui oh, o desgosto que tomo pela minha índole egoísta golpeio as minhas pequenas têmporas a catexia do luto me amarra dentro de centenas de pragas e a insolência do magistério, do termo, do eterno me ensurdece quando louco sento e tento desenhar, dedilhar e gritar as traças passeiam pelas veias e gemem o meu peito dão-me neurônios de culpa, mas um amor transborda a essência e com eloquência dou-me um novo forte, feito uma fênix tímida o contexto inteiro me é novo demais ah, preciso de tempo, de tempo meu próprio ser me esmaga, e não acalma quando dos ombros do afeto, se afasta perdão por tanto, e de tanto que não se volta me revolta rendo-me numa causa grave de ardor rendo-me ao princípio humano e a sensibilidade hoje me tortura, pelo saudosismo de um futuro impossível vegeto-me entre as horas, os segundos longos vegeto e sem o aparelho para ser desligado nada que traga consciência a esta desavença sinto-lhe tanto, dando-me os pequenos tapas e os apelidos a distância aleatória deu-me uma glória de efeito para toda causa um aperto duro de cima dum muro vejo o meu próprio peito esfalecer.