20, JUNHO, 2017.
ABUSO.
Dizimar a situação Dar fim, descolar Desgrudar Detestar. Visite-o Visite-me Seja-me Converta-me. Vasculhe-o Rasgue-o Disseque-o Despeje-o . Cuspa-me Odeie-me Assole-me Corrompa-me. Lhe-é Lhe-ser Ter-lhe Viver-lhe. Nem que Haja ódio Nem que Seja horrível.
20, JUNHO, 2016.
OS DOIS PASSOS.
Cansei de bolar vidas num papel branco Imaginar os próprios sentimentos de desgraça Em praças populadas pela desesperança impossível Em caçambas cheias de afeto desperdiçado, construindo prédios de desilusões E nesta singularidade específica, despeço-me todos os dias Dos personagens anteriores, nunca mortos ou enterrados Feito fantasmas psicóticos, golpeando as paredes de um labirinto Com paredes infinitas, invisíveis, dos gritos eufóricos que dou em vida! Ébrio fico ao teu lado, e num compasso perfeito, danço o teu dançar Da calma que ergue o copo, segura feito lembrança suave Sinto o teu desejo, e em histeria óbvia, sou tu agora Vejo a lentidão dos segundos, enquanto trago o gosto azedo Sopro ao vento de lá, um resquício de agonia antiga Três pequenos degraus, para um altar, o cálice que salvaria Faria do meus dias, uma rotina metódica e em glória Usurparia do meu ócio, uns trocados, para ser feliz nos fins dos dias Prego-lhe peças, trancafiando o desprezo no amor Do rancor, um toque de tranquilidade E de insanidade, basta o olhar que se altera E desprega da parede mal pintada, todas as ideais que hão de vir. Segundo passo. É sexta-feira, não há suspiro otário Dois segundos rápidos Salto da janela Sem me despedir Grito para os que me prezam Dei-lhes razão para amar Arquitetei três quartos, cem quartos Lotados de porquês, em quês, para cá estar Feito aspirante a um projeto já feito Dois pequenos trapos verdes Traças que devoram a massa cefálica Devorando os motivos, dando sentido ao ser E sendo este caso aparte Uma máquina giratória Imprescindível a você Mas de partes degradantes a mim E dos cegos que bolam Das vozes ecoantes Neste fim mirabolante Um filme fugitivo Os atores em um roteiro nobre O despencar de um abismo Os platônicos ratos, mastigando as ligas De um corpo entorpecido, pela energia introspectiva Olha-me de novo Vê a profundidade disto Abraça o precipício que será Ter-me e aos poucos me amar.
7, FEVEREIRO, 2021.
A ÁGUA TORNOU-SE CINZA.
Sente o símbolo deste círculo fechado; a brevidade Tantos movimentos bruscos e atípicos Festejados pelos corpos voluntários Os ruídos nascidos do crepitar do mesmo sol Tê-los, é ter-se, viver de si Ponta a ponta, um círculo fechado; Hediondo, não? Hediondo! Falam a mesma língua Repetem os mesmos traços Vergastadas violentas nos expostos Cáusticas gritarias de precipícios opacos Quedas diárias pelo verbo atuante negativo! Nega-se a saída, o escape, o salvar-se Negam-te o recinto, o acolhimento, a saudade Negam-nos tudo, até o mais simples, o mais terno Da distância de alguns centímetros Dos olhos dela, via-me retorcido Caía devagar em mais um delírio Arrastado até um barco, por correntes e gritaria A algazarra das vozes, os bruscos toques no meu corpo O cair vertiginoso no piso fétido da embarcação O céu nublara desde cedo, e agulhas caíam Acertavam minhas vistas, meus pés Junto, pintado e grudado nas costas, uma cruz Comparava-me a cristo, a cada minuto exposto a crueldade Comparava-me feito um imbecil, entorpecido pelo destino A morte chacoalhando minha alma em um pêndulo Uma criatura pôs o barco a seguir rumo A solidez robusta daquela agonia, fez daquele homem Uma entidade maldita, a última parte humana da minha vida Tentava levantar-me, mas a cada brusco movimento Caía, cada tentativa era expurgada pelo eco assombroso Uma tempestade eufórica e divina, era o destino Vi a água tornar-se cinza.
8, FEVEREIRO, 2018.
SER-ISTO, DEFINHAR.
tenho amigos próximos derretendo em suas poltronas familiares exaustos das mesmices explícitas corpulentas bactérias farejando as costas nuas da mãe parasitas mesquinhos mordiscando os lábios finos dos filhos ecoa o choro áspero daquele moleque abandonado pedindo moedas sujas para cheirá-las enquanto sonha o passado ataca seu olhar-expectante, ao notar o nojo n'outro cidadão qualquer, que do pedido devolve-lhe uma lástima as culpas sondam o seu trajeto sem curvas em busca de escombros, casa abandonada um silêncio palpável para reter-se sob o lençol decomposto entre os tateares sistemáticos dos ratos e os arrastares-dubitáveis de baratas ser-isto é terrível em seu espírito raquítico o estômago lateja entre banhos d'ácido sulfúrico arremessados por pequenas moribundas traças rasgando-lhe lentamente o estômago para sufocar sua alma este moleque logo desiste não esquivando-se de um carro e acertado por outro mas simples definhar, nada simbólico suficiente para encravar nas consciências só uma agonia sincera silenciada pelo passear apressado da catraca cada giro é um trovão em seu crânio aberto da ferida antiga entre as lombrigas e os socos surdos as ruas são um submundo ardente, para os pés descalços e a dor de ser-isto é fadigante, até pro que o observa sentir a lentidão da morte para quem a exige entre soluços estúpidos com linguagem rasa para popular o grito com metáforas amargas só despido, enrolado em trajes fétidos esquivando-se das mordidas, das visitas diárias dos urubus e os ratos não há foice que gire e arranque do corpo alma tão estagnada em desgraça a foice procura o belo processo poético, da sinceridade metafísica do capaz, a foice deixa o moleque para o tempo, para a dor de ter sido gente, entre tanta.
14, FEVEREIRO, 2020.
ORDINÁRIO.
Ele pouco tinha a dizer, pouco a fazer Meus pêsames a qualquer um que tenha se encantado Este deitava no colo alheio pelo conforto Fustigado por alguma memória áspera Arrastava as costas pelo calçamento Era o tipo de homem que odiava-se Pedia pausas e desculpas a qualquer um que o ouvisse Pedia calma aos transeuntes ligeiros, para nada os dizer Sabia tanto quanto o mórbido, desencantado Rasgava os livros para não os ler Vegetava, solidificava um tipo pífio de causa Organizava a própria morte, mas a distanciava Contemplava qualquer movimento, invejoso Decrépito no solo agonizado, de própria culpa Viria ao encanto daqueles simplistas, detestáveis Pois de si a si, era o exemplo nítido, do abjeto Deplorável em teus caminhares ríspidos, desorganizados Os postes iluminavam teu rosto decomposto E ao chegar lá, nada fazia Sentava e repetia, as mesmas coisas, todos os dias.
12, ABRIL, 2020.
AMA.
As curvas tentaculares das tuas tardes horríveis Ruas de postes turvos, esverdeados pela sujeira Dos abutres infames, das almas insólitas A culpa habitada, raspando a carne podre deste teu amar Que é idêntico às primeiras dívidas não pagas Das mutilações opacas, rasas Cheias de ódio Dos vivos Amar deste teu jeito, É a infâmia daquele que do defunto Arranca as vestes, os ouros Como que lhe devesse, pagasse enfim