CAÓTICO/DELÍRIO/REPITA A SI/OPACO/CULPA/CRIANÇA

21, JUNHO, 2017.

CAÓTICO.

Por quais cantos deste mesmo escombro, soaria mais saudável, menos ácido, existir; diante de nenhuma dor real, ao olhar atento, desatento… a qualquer um! É só um desfeche incompreensível, descascado, refutado por qualquer palavra fútil. O ego infla, desinfla, diante das constelações homogêneas; e lá, ainda detrás do véu, são dois de mim, chorosos e em grito agudo, pedindo clemência -a quem?

Vagar como se o fardo, fosse primitivo, inaudível, suscetível ao delírio de qualquer ópio pífio; numa natureza asquerosa, diante de plantinhas e um gramado enegrecido. Nublam-se passagens, retroativas memórias inconsequentes. Das calçadas, cidades opostas, vontades mesmas num pedido só: Paz!

Fugir, talvez lateralizar-se ou como fazem os ensandecidos, popular o crânio de heterônimos; personas para que possa viver.

Olhar por dentro dos teus olhos, e quem seria tu?

O plano é grotesco na perspectiva desta solidão abusiva, indescritível! Cá devo merecer, mesmo sem ter havido desgraça anterior, cá deveria ser deste mesmo jeito; por não haver nenhum outro!

Ser-me tem sido dar vida a um grito sufocado pelo labirinto, que é me ser, também.

Se assusto-o ou digo-lhe muito, vai ver lhe dependa, lhe tenha como fato, dentro do acaso!

Os sofisticados, eruditos, nascidos bem vividos e que se escondem detrás dos mortos, me procurem, talvez os odeie!

Solitário, na literalidade, na realidade… quem é?

Desgraça, que calor, que crio, que choro longo… Saudades ser menos eu.

DELÍRIO -LUÍS.

??, ??, 2018.

 Os rostos nascem semiconscientes nas pequenas multidões que me atravessam o olhar, os observo com asco e me contorço; guardo este remorso cerrando os dentes, acertando a face com um tapa forte; em um estalo destes me percebo insatisfeito, porém nada faço além de me estapear. Desde cedo me tive capaz de associar um desconforto a um fato subjetivo, a realidade se distorce nos entraves simbólicos de cada ser -ser aqui sem distância literal, puramente pífio e de gente, ser como ser gente, ser humano. Esta tarde é idêntica àquela, como fora a anterior a esta e assim será por um ciclo ridículo, arrodeado de características corruptíveis em sua volúpia usurpadora; o ato de roubar um desejo, qualquer inclinação oposta, o ciclo tem este prazer; insano é notar ou associar isto enquanto folheio as páginas de um jornal velhaco, sobre uma mesinha de vidro enquanto espero a minha vez de cortar o cabelo.

Sempre me descrevi como um homem. Não passo da palavra, pois de fato não há em outro lugar melhor palavra para me ter, sou um homem. Detestei os dias, aqueles que me faziam observar o espelho e procurar algo além do opaco, dos órgãos funcionais e o choro, a angústia do desgosto de um remorso manipulado -vontade de ultrapassar a palavra ‘homem’, acordando entre pesadelos nebulosos, com criaturas ululantes e verdejantes saídas para casualidades do dia a dia; eu me deitava na espera daquele suor que salpicava as costas, da córnea giratória, a cama que se refazia penhasco e me atirava ao ar por alguns milésimos, fantásticos milésimos eram. Mentiria se escapasse de contar a saudade daquele medo.

 Sentei na mesa do bar acho que eram 20h, sempre fui péssimo com horários. Aguardava uma moça bonita, eu costumo dizer que aguardo pessoas bonitas; não precisam necessariamente ser, pois enquanto observo um rosto, vejo-o transmutar de formas incalculáveis, uma mistura distorcida em prejuízo, atenção, desatenção e vontade; e a cada novo rosto que me vem eu percebo que são renascentes, surpreendem-me ao passo que me refaço ordinário; uma leitura pode fazer mudar uma peça, se é possível mirar um corpo e dizê-lo que é peça.

Ela atrasou-se. Depois de um horário marcado que passa do limite de sua pausa no espaço eu me ocupo com trivialidades, sei do compasso raso e o acaso transbordante, são milhares cálculos possíveis para isto e eu preferi observar o garçom, o efeito amarelado-claro daquela luz no final do corredor e os gracejos instintivos, a fome do outro ao outro.

??, ??, 2018.

REPITA A SI, IMBECIL.

-repita a si enquanto rejeita a tempestade dubitável, repita aquela merda já dita antes; seja uma ideia qualquer, viva do lixo cósmico, péssimas piadas e entre lágrimas, amargura ou torpor… cuspa! não absorva culpa, culpa é sinônimo para estupidez. estúpido início, estúpido qualquer princípio emanante desta tua conversa fiada, risória.

-que peste tu quer? óbvio que há algo não condensado nesta minha dor, preciso encontrá-lo.

-encontrar por qual motivo? é completo egoísmo teu, achar-se capaz de elaborar a própria situação e desta própria análise, sair da mesma.

-egoismo, que seja, qual dano causará?
-causará obviamente, imagine-se alienado por si mesmo; trafegando por paranoias, complexidades indiscutíveis, pois rastejam pelo teu âmago como certezas absolutas.

-viveria, não? viver é agonia! viver é dor.

-viver é o que tu escolhe, imbecil.

-escolher? tais fantasiando pretensões de autoajuda? quer dizer que nessa tua cabeça de merda, existe bem? 

-óbvio, eu sou rarefeito e crítico.

-diz de si mesmo, como eu digo o que quiser de mim.

-sim, você conta a versão que agrada o ambiente e não você. você é praticamente um transfigurador, um reflexo complexo, atormentado por curvas infernais; estivesse chovendo ou ventando muito, e aquela mesa na distância fosse a nossa, tu estaria conforme a necessidade lá.

-ah, mas tu já falas absurdos!

-absurdo? meu amigo, melhor eu contar-lhe tudo do que daqui há uns cinco anos você se ver deitado, lambendo a cerâmica do seu quarto.

-e tu prevê isso, como pode me ver lá tão decomposto?

-pois cá está, já há marcas e minúsculos rasgos na sua pele.

-só você os enxerga? faz-me rir.

-faço-lhe rir pois teu transtorno já arrodeia tua consciência como cadeado para corrente presa nas pernas, toda tentativa de escape é uma dor sintética no lado do crânio. e vai de ponta a ponta, deixando-te manco, lacrimoso!

-não sou tão patético!

-é pior ainda, enfermo!

-desgraça! preciso sair daqui, ainda hoje vou encontrar com ela.
-ela? 

-sim.

??, ??, 2018.

OPACO.

Este corpo opaco me é detestável em seus centímetros ridículos
Esquiva-se de contatos gélidos, mornos e qualquer pontiaguda forma
Mira de janelas pequenas os passeares indiscretos de máquinas-humanas
Rouba com tentáculos-introspectivos ideias compostas por absurdos simplórios

Equipa-se ao meio-termo satisfazendo volúpias incondicionais
Salivando ao encontro dos formais cemitérios pensantes
Borbulhando características íntimas nas elegantes expressões faciais
Qualquer contato de um estado ao outro é um deslize corrosivo

O opaco-ser não popula o crânio de beldades metafóricas
Suavizando suas memórias indigestas, uma faca para cada gemido puro
Opaco é observar a queda suicida, lá do topo do prédio
Sentir uma brisa fria golpear a testa e ainda gerar um riso sincero

O morto é senão um corpo-opaco desligado de suas atividades idiotas
Ainda que observe-se no espelho peculiaridades magistrais
Recusando a premissa repetitiva dos nasceres dos mesmos
Semelhanças explícitas, ideias que escorrem e molham os dedos

Desligar-se, metrificar uma qualidade simplória, matemática!
A ciência ocupada das diretrizes destas atitudes neurológicas, simplórias!
E opacos que são, sentem fisgadas ácidas tocando almas medrosas!
Ecoando um silêncio torturante, em suas ideias medíocres e surradas!

2.
Varre do piso uma lágrima corpulenta e tragável
Cheira a um mormaço sintomático, ideia esquecida por sua forma absurda
Opaco, deita ao lado e lambe-a, grita ao retorno desta esfera distópica
O absurdo para si, uma nostalgia perpétua

Opaco, recusar o corpo é senão submeter-se ao morfo da razão
Delirar por sobre os instintos, culpar um pensar por sobre o fígado-ardido
Esquecendo as desgraças por vontade, socando paredes por medo-criado
É uma contusão explícita, dependente de feridas constantes

Opaco, fica por esta bolha usurpadora!
Aceita o trajeto das suas melancólicas voltas naturais
Deita tua cabeça quadrada neste travesseiro leve
Adormeça como o animal estúpido que é.

??, ??, 2018.

CULPA.

Frestas de diálogos condescendentes
Suavizando feridas pela perplexidade 
Repetindo simetrias desgastadas 
Ecoando um mormaço ácido

Não há sequer voz
Sequer vontade
Sequer perplexidade 
É completo ínfimo

Descalço pisoteia brasas recentes
Chuta os evangelhos inteiros
Sente saudade do medo
Medo infante, medo verdadeiro

Saia da minha ideia, então!
Saia o mais rápido que puder!
Lá se vai outro resquício
Outra coragem

Vou atrás das enfermidades
Sou completo condenado 
Dos retratos infernais
Destes estados antagônicos

Ordinários competentes penitentes 
Suavizando culpas dementes
Deus, que oscila entre viciado e santo
Salta deste plano magistral

Arrasta a consciência desta opaca forma
Pros infernos quais cria!
Formas e castigos, diabos e demônios típicos 
Reticências ilógicas para diabruras épicas

Saia do inferno, meu bom rapaz!
Volte a casa, para o berço 
Para a família!
Repita o coro do ouro, desta oração arrependida!

Perdoa, então! Perdoa, diabo!
Perdoa o culpado!
Atire-o na culpa!
Perdoa; culpa e castigo, crime e castigo.

01, MARÇO, 2018.

CRIANÇA.

Detestável milimétrica certeza repugnante
Dois ruídos agudos dedilham o torpor da madrugada
Facínoras fantasmagóricos balbuciam palavras ilógicas
Afagam-se ao ouvir os soluços incessantes neste infante raquítico

Infante ergue o pescoço feito réptil e fareja a cerâmica sem mirar o teto
Recusa qualquer contato visível a estas vozes
Recusa feito um homem másculo e destemido, pois ainda acredita nestes
Vê figuras heroicas borbulharem nas paredes, dando-o força!

Intervalo mínimo, intervalo curto, um sorriso desfeito
A inglória razão, hoje fez-te infante novamente
Esse breu arrasta-o pelo oxigênio rarefeito entorpecido pelo pavor
Flutua sobre a caminha de criança, a cama o lembra

“Sou criança, Deus!
Nada mais! Afasta isto, Deus!
Afasta de mim!
Sou criança, Deus, criança!”

As imagens caem do teto, atacam-no!
Gritam-lhe diabruras, enchendo-o de ódio!
Raiva de trincar dentes, tentar rasgar a cabeça pelas unhas!
És uma criança somente, Deus!

Linguagem escassa torna tudo mais risório!
Teus soluços tremeluzentes dão somente raiva nos mais velhos
És senão um temente das ilusões que se dá!
Precisa dos outros, dos outros!

“Levanta-te, moleque
Vai tomar café, logo tens escola
Levanta, levante!
Não acredito, mijas de novo?”

Queria lhe responder que fora,
Mas era choro e baba
Criança esta, tão medrosa
Como podes?

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