1, JULHO, 2020.
TROÇAS.
Sinto o abismo como algo a crepitar, nas surdinas e tempestuosas horas odiosas; repito comigo das probabilidades, da lógica do arbítrio deste dever-ser conflituoso; o abismo interno, da busca fustigante e vegetativa, de fluir de ponta a ponta, dentro de mim. Deve ser o início de um projeto, como uma epifania extraordinária que rompe as cordas vocais de um lograr, de um requisito indigesto, recente, de chofre e ele que é em si o obrigatório completo, fica rodeando e golpeando com troça minhas costas nuas como se eu o devesse. Devo-o o rompante, nada de fato emana e pulsa sem outrora ter solicitado-se, não vou abdicar desta lógica para o milagre pagão; milagres a título, somente nas histórias.
O abismo é um caminho, quando fecha-se tudo e a consciência navega ordinariamente na calma própria que é em si algo novo, para o eu que assiste-a, mover-se e de lampejos, tropeços em um breu, uma escuridão que é em si abissal -abismo, abyss.
1, JULHO, 2022.
INQUIETO (12).
A luz laranja na distância engole os prédios; as nuvens condensam-se de modo ritualístico. Ouço o choro agudo d’uma criança sentada no colo da mãe, seus ombros lembram espinhos afiados. Minhas pernas me jogam para o alto, sinto-as desprendendo, desmaterializando, o vento atravessa-me feito algo que está se desfazendo e perdendo fisicalidade. O eco odioso d’algum pedido alheio entre transeuntes, nestas tardes lotam calçadas frente às lojas minúsculas; meus olhos os injetam ópio, entorpecem-nos para que a fome não arranque pedaços por algumas horas.
Veloz feito delírios escorregadios, incauto, desesperado. A decomposição de uma ideia, do passado; a memória sendo afastada habilmente por projeções inescrupulosas. Ouço vozes alheias intervindo a calmaria fustigante deste dia a passar enfim, sem perceber-se; dias assim são d’uma raridade cósmica. Olhos alheios são tentáculos espectrais, grudando nas minhas pupilas até o sono apagar-me; cada traço importante ecoa e reverbera pelo sangue por minutos inteiros, inescapáveis. Alveja-me este amor, paixão fortuita; detrás dos negros olhos e máscara.
Questões inadiáveis caminham pelas paredes, varias patas pequeninas, unhas pontiagudas e ásperas; vasculham sem cerimônia alguma toda a mobília, injetando inquietação, indisposição, necessidade d’algo; algo que não se manifesta. Levanto encolerizado, jogando óculos, celular, fone e uma maçã pela metade na parede suja de café. Porém, nada adianta, estas coisinhas continuam ali, soltando ruídos asquerosos, agudos. Meus dedos afundam nos olhos, suspiro habilmente um desprezo singelo àquilo, pois não solucionado volta todos os dias, em horários diferentes. Nada que modifique esta condição.
Os olhos delas são como um lago calmo, melado por luzes cautas d’uma lua alaranjada que se esgueira por entre fresta d’galhos e folhas esverdeadas; os chuviscos de mais cedo projetaram-se e modificaram a cor tênue; a brevidade deste instante não se apaga, infinito na minha memória em que sua voz lentamente manifestava-se junto das ondinhas na beira, e convidava-me para sentir os sons da sua pele. Submerso no absoluto, cada entrelaçar conduzia meu espírito para lugares em que meu corpo enfim não era devorado, engolido; ali sentia enfim, um símbolo metafísico e nítido, na contradição de ser amor a mim, finalmente o meu corpo sentia na própria forma e pele, algo que se manifestava na escassez da estrutura da língua, era algo que devia existir somente ali.
Sobre aquilo, não se traduz d’outra forma senão delírio.
Não tenho nada a dizer.
2.
Já viste que, todo o humano está burocratizado; já viste também, não há novidade alguma nisto. Já viste a decomposição do pensar, na medida dos seus objetivos? Que é isto, então? Boa sorte.
Eu de novo, não tenho nada a dizer.
8, JULHO, 2016.
AQUI SE EXISTE.
Traças e pragas Pestes e desgraças Verdes e pratas Quatro vezes mais Nasce cá um ser De olhar sem paz Vedar o próprio A alma eufórica Pula e canta Quando chora Reclama e toma Para si o drama Dos amores que não Vieram a existir Suspira em alívio Breve, pelo cinismo Que outrora Fizera-o existir Não houve dor gigante Que deu-se certa Nada no caos Fez-o certo De que além de físico Existe de fato, alguém aqui.
6, ABRIL, 2016.
INFANTE.
Como o inferno se alastra precoce Em almas libertas e solitárias Dos deuses, escárnio em um olimpo sujo Inundado por vertentes opostas Um projeto mistificado com a destreza sombria Plena no desespero de um corpo só E centenas de milhares gritam, ungindo peças Palestras e painéis, crianças sedentas por saber Saber de rótulo e base simples; humana De onde o inferno emana ardente Vozes chorosas, rostos corados E costas marcadas por chicotes de um castigo invisível Atrelem-se ao mínimo, sugando-o para si Tornando-os um só; pequeno e demasiado humano Mas a precocidade é surpreendente Descrentes percebem a vileza física, e culpam o sobrenatural Ideal bestificado por detalhes unificados em uma nobreza Assustada pela simples liberdade As letras surgindo assassinas! Em uma ponte sem base; um ideal nascido do pavor.