09, JULHO, 2022.
SOBRE O TEMPO.
Meu corpo sente algo em movimento, resultados efêmeros de tentativas minúsculas e fajutas. Estica-se, tenta correr até algum ponto específico e o rompante destes agravamentos é a percepção de uma diferença, esta somente nítida nas fraturas e corrosões físicas; a memória e o imagético não conseguem tocar distâncias temporais em especificidade. Os anos estão se comprimindo em uma velocidade crítica, todas as funções dos minutos e segundos, são machadadas graves no topo do crânio, em algo que ainda não foi e que já devia estar pronto. A liquidez subjetiva e a interiorização é repentina, escassa, nos intervalos raros d’alguma rotina que permite um sussurro breve e nostálgico, de um período onde podia-se submergir em alguma coisa – a nostalgia remete à infância.
A ausência de submersão nas partes mostradas e jogadas nos olhos, torna não só o paladar imagético fragilizado, mas dependente de alcances prazerosos – pornográficos. Aquilo que compõe o tempo livre deve ser tão veloz quanto si próprio; um tempo livre que se organiza em micro orgasmos. As músicas reduzem-se, as letras, os movimentos e a arte supõem estar subentendidas na função de seu existir ligeiro, arbitrário condutor sistemático; fórmulas, tendências, ritmos vão se catalogando e ocupando prateleiras na sua perpétua forma repetível de digestão praticamente imperceptível. Horas e horas ouvindo um estilo para fazer algo, o produto perde a sua função subjetiva de submersão e participa da tua prática social. É somente um impulsionador ou abstrativo temporário, pois que tempo você teria para dar àquilo?
Os afetos caem nas mesmas flagelações deste mundo utópico prazeroso. Toda a substância para simbolizar algo, precisa percorrer certa distância ainda não catalogada. Um símbolo tende, na sua chegada causar um eco assombroso para o ser despercebido, pois cria um tipo de diferença entre um afeto ‘a’ e afeto ‘b’, nisto o acometido precisa recompor-se e lidar com uma questão mórbida da existência que é a morte de um afeto e o luto que surge através deste sujeito não mais presente, em sua forma simbólica. É praticamente um amor decompondo-se diante dos olhos, um corpo que já não estará ali na mesma forma, e que se afasta as vezes violentamente, nisto causando atrozes movimentos para escapar do inevitável: o luto deste símbolo. Deste desespero contido no símbolo, e uma época onde o tempo praticamente se dissolve na memória, o lazer está sistematizado em seus efeitos pornográficos; até o lazer necessariamente deve conter um resultado específico, de submersão rasa e escassa. É um resgate patético individualizante, pois assemelha-se a um dever cumprido.
O gozo guiado nesta imposição ou o suposto controle das afecções ligeiras, aproximam o ser atual em uma organização trágica deste pós-modernismo pífio; onde a subjetividade está atribuindo valor, lucro, nas aparições de si no mundo. Meu tempo não somente diz algo sobre meu aspecto capital, diz também sobre o desejo e corpo. A continuidade de uma relação remonta encruzilhadas ardilosas, torpes e vis, seu tempo entra aí no desespero destas situações e o saltar para fora não lhe dá autonomia, mas sim medo. O medo daquilo ser o mesmo de novo. O pós-modernismo pornográfico é a personificação de uma agonia solitária, que compõe corpos parecidos e desejantes. Há uma ausência nítida nas aproximações, há um silêncio malogrado, vertiginoso e agoniante nas histórias e relatos destas aventuras pós-modernas; tudo acaba na agonia do seu início, onde o desejante alcança um desejado e no gozo só remonta ao inquieto lapso deste lazer cumprido, burocrático e que o tardar será soterrado pela mesma rotina flagelante que pôs este corpo aqui.
O cinza viscoso de uma relação que não vira sequer memória. Um tocar de pele na outra, que se desfaz no adeus cínico e roteirizado pelo arrependimento, pela indisposição e culpa. A ressaca moral não contradiz nem sequer mostra algo novo; é só um eco repetido destas agonias pornográficas. O que não se torna símbolo, decompõe-se no tempo feito defunto e o riso que se tira de uma memória trágica não a apaga, sequer melhora. Nossos afetos modelam o que nós somos, e somos escassos; o tempo só escancara o hediondo desta aceitação. Mas fique se quiser.
2.
Existe uma premissa audaz no espírito. O romantismo de alguém que simplesmente lembra ou nota as continuidades ridículas destas mundanidades introspectivas, nas relações. O tempo deu-me tempo para ao menos dele, ver que o substrato d’algo tão veloz quanto a própria miséria de uma música ridícula, relembra e remonta o mesmo; um gozo guiado, pornográfico. A brevidade repentina d’algo que praticamente existe para isto. Há o óbvio determinante do pensar demais ou analisar demais, e por aí vão os caminhos das desculpas deste período pós-moderno.
O horror ao símbolo que compõe o afeto e o delírio magnífico de uma poesia, compõe o nefasto ordinário e comum, fato de que as relações hoje são tão fajutas nas suas mesquinhas representações; todas tendem ao famoso fim-simples, o fim que se presume; onde amar tende a ser ruína, pois fora e será.
Aplicar e impor novos e novos seres nos laços, não modifica o sublime e complexo símbolo ainda não catalogado que surge com o tempo. Novos seres diante de mim, são introspecções e formas novas, não um caminho que satisfaz ou resolve o problema de uma relação. É organizar pornograficamente o prazer composto entre intervalos de um e outro, onde aquele surgirá para dar-me ‘b’ e aquele lá vem com vontade ‘c’. Mas diante de uma primeira queda nesta organização, há o eterno ciclo das possibilidades de até nisto surgir o luto, contido no símbolo. Pois a multiplicidade na sua raiz é unidade, remonta o mesmo, tem o efeito dilacerante de uma coisa só.
O horizonte desta época, é o pastiche, repetição. O horror nos deu a agonia pós-moderna pornográfica; e este mesmo horror nos causará a morte e raridade de símbolos. Aos poucos somos lamentos, tristezas resumidas e resolvidas por substâncias parecidas; álcool, tarjados, comprimidos de sistematização pornográfica.
Bizarro que a palavra pornográfica surgiu tanto por aí, né? É que nela está uma subversão ou uma ficção belíssima, de prazer e poder conquistado; o empoderar do corpo através do gozo-guiado e alheio. Para quê perder o tempo longo e exaustivo de conhecer o outro, se posso alcançar a meta simples de gozar; não é a isto que o outro serve e surge? Para gozar.
É uma época tão miúda. É uma época tão acostumada ao mísero e relapso. Uma época individualizada de horizontes do ego. A análise ou terapia, são para adaptação nisto e não percepção d’algo; a terapia conduz para permanência; até porque o que há de ser feito?
3.
26, 07, 2022.
Esperar qualquer resposta que não seja a individualização de si, é completamente escarninho hoje. Nossas práticas tendem a nos afastar, a nos traduzir entre aparições. E as palavras comovem, escapam, cessam.
Não é culpa de um ou de outro, é um sintoma inadiável.
O desespero surgido de cacos, malogradas relações, nos conduzem para lugares assustadores. Permitir que este meio, faça do teu ser, uma coisa, é compactuar? Não, pois o que fazer?
O horizonte tende a produzir sistemáticas ruínas subjetivas, o progresso individualizador, tende também é fazer que a potência das nossas conquistas seja solitária.
Nosso tempo afasta-nos, nos resume aos lapsos raros e escassos nas disponibilidades. O que você quer, é problema seu. Não estou falando de você.
Relatos, compilados. Relações e laços quebradiços. Amor/afeto/gozo/orgasmo. O que de fato faz um corpo, corpo?
4.
Possa ser o básico simples: cala a boca, pô, tu és emocionado.
Mas não ser emocionado, lhe faz bem?