22, JULHO, 2022.
SOBRE O NADA (3).
1.
Opaco, este lugar aos poucos injeta-me formas minúsculas, tateio-as entre os dedos. Respiro aflito entre soluços fraquejados, suspiros ásperos. Diante de mim há o idêntico ao detrás, absoluta opacidade; há minutos aqui, ainda não discerni um do outro. Reconheço dedos, reconheço coisas simples e óbvias, sei que estou vivo. O ambiente pulsa este silêncio agudo, penetrante; corpo junta-se ao breu, remete-o e se faz idêntico. A única certeza nestes lapsos é que ainda me percebo.
2.
As memórias em algumas horas solidificam labirintos turvos, sistemáticos. Dias e noites, meses e anos, encapsulados nas pequenas sensações acometidas. Um olho, beijo, ódio, rancor, mágoa, alegria. Toda substância contida entre meses resumida em átimos, toque mágico através de um som fisgado, trazido pelo ar no caos subjetivo. Permanências inteiras nestes segundos inebriantes.
Imagens e ideias alheias, arrastam incontáveis rastros antigos. Impregnam o ar incauto, flagelam a alma, rebuscam, transformam. Não há escape nestes açoites incessantes, incomprimíveis. Submergir é inadiável, notar miragens e cumes. Desespero linguístico, alquímico. Olhar para sons que remetem cores.
Desespero contido neste ócio, nesta razão prática e fajuta, desespero pelo tempo possível de perceber. A não burocracia destas investigações, a impraticabilidade destas investigações. Metamórfico e disforme, incapaz de metáfora.
3.
São características meticulosas, personificadas. Olho com certo desprezo a este que quer o dito pratico-objetivo, como se fosse possível dizer-lhe de tal jeito. Rejeito e renuncio o carácter dos nomes, dos ombros. Somos estruturas caóticas práticas.
O nada mostra-se, quando rompe linhas tênues certas, repetições e hábitos. O nada manifesta irascibilidades, descontinuidades, o nada vem cheio de si.
Feito a angústia arrancando-lhe as pernas, inominável, irredutível; és do mesmo jeito o nada.
Nada que torna escassez linguística não é nada, é escassez.
Caso o nada seja toda prática da consciência em querer que ali na mesa estejam dois copos e não um só, sendo que só há um. O nada está na consciência que percebe o nada e então é tudo que a consciência quer-mas-não-pode-ser.
Se a miséria e a tristeza são cheias de si como o nada, então toda tristeza e miséria será encapsulada nos seus surgimentos.
A consciência não é tangível a este ponto.
E então se o nada não pode remontar a algo fora de si, mas manifesta no sujeito sua presença, ele será a perplexidade d’algo que rasga o meu ser, mas não o percebo de onde ou por onde, nem por quê.
O nada é um ato ausente de consciência de si.
Este nada, então assim como a dialética e o ser, justificam algo do ser que permanece imanente.
4.
Práticas, lógicas. Verossimilhanças e certezas. Ego, imaginário. Se somente se diz formulações a partir destes fatos agarrados pelo humano aqui no mundo. Então somos a continuidade destas absorções.
Pragas, ruínas, medo. Sintoma e medo. Vemos e tentamos tornar comum algo que nos afeta. A diferença remete a um precipício agudo, mirabolante. A investigação por trás do nada, traz consigo não só o ser, mas o mundo.
Que é isto, que ainda que por detrás de si não me mostra nada, mas arranca pedaços como se.
Este como se é a permanência da inquietude.
A inquietude é um processo condenatório para todo ser.
Pois a permanência remonta o dogmático.
5.
Não estamos cá para guilhotinar o pensamento, somente deixa-lo tateante e fora de si. A velocidade desta agonia remonta ao nada.
Deste nada prático.