LABIRINTO.

26, 07, 2022.

LABIRINTO. digitações de um condenado.

 Caímos neste labirinto, investigando cada curva e centímetro; bifurcações, laterais, portas e janelas. Vozes, ruídos e ecos surgiam rompendo quietudes raras. Seus olhos piscavam violentamente ao perceberem-no, localizarem-no; caímos dentro de alguém que nunca quis ser localizado ou visto.

 Fantasmagórico, um tipo de fantasma inquieto. Colocar este homem n’algum lugar sempre fora detestável. Meus fins de semana em quartos pequenos digitando epopeias diárias, deste crânio. Desenvolver um resumo ou causa, fizeram surgir úlceras. Café, cigarro, álcool e todos os dias submergia nestas metamorfoses.

 Eu vim de longe, trouxe comigo somente silêncio. Transeuntes nasciam como enxofre na incauta mente disto, pareciam compor razões; os tremores, costelas comprimidas. Coração acelerado, garganta seca. Sua voz escapava de si, disforme, amedrontada. Ele sempre via aproximações como horror objetificado. Suas divagações e introspecções duravam semanas e dias, confundidas por aparições alheias. Se o celular vibra n’alguma mensagem, de uma ponta a outra do espírito ele volta; camufla-se feito um covarde.

 Eu nunca quis escrever nada. Jogaram-me aqui, um lugar completamente caótico, infinito e autossuficiente. Não o conheço, não nos dão nomes; só esquecem que nos deixaram em alguém.

 Segunda-feira, manhã, sol áspero. Isto levanta, reprime um vórtice de rostos femininos. Suposições, articulações. Aberrante. Nestas manhãs convolutas, são horas reduzidas há minutos, germinando soluções e dissoluções. Ele não percebe, mas contradiz e diz centenas de hipóteses. Sua língua é cortada em átimos, todos os segundos. Para enfim construir qualquer palavra, rasga-se infinitas vezes.

 Nunca soube exatamente onde ele mora ou morava. Seus lugares remetem a uma parede branca ou cinza, completa por rabiscos e poeira. Se dá livros específicos, como epifanias. Mas dos anos, restaram somente dois em que vira a verdade. Quando puxo traços, caio nos teus labirintos e permaneço.

 Ócio seletivo mantém rotinas decrépitas vivas. Arremessa toda a alma nas divagações afetuosas, erguendo montes e epitáfios. Morre todos os dias. Esquece que eu estou a vê-lo, esquece que o mundo o vê. Quando notado, dá saltos assustados e desespera. Senta nas convulsões, digita laudas, parágrafos e poesias. Investiga inebriado surgimentos, suposições, permite como espírito condenado a isto, para na madrugada lamentar o óbvio de que nada é.

 Um homem. Ele é um homem. Martirizado por algumas ausências muito malogradas. Sempre percebi que quisera, ele quis assim. As coisas fora de si são aberrantes, cortam-no tão gravemente. Tenho pena.

 Ela fora efeito raro nas suas movimentações. Antes, qualquer uma se quisesse não estar ou não o ver em completo, sequer erguia os dedos, deixava que sumisse. Os olhos, a boca, metafísica. Então despiu-se, deu-a livros que vira a verdade, foi humano. Humano, permanência, amor. Palavras inexistentes. Alegria. Ele então cai finalmente num vórtice que não é dele; mas ainda assim é. Cai e diz, age, espera, ouve; relembra milimetricamente peles, sentidos, respiros. Pelo aspecto mágico, fantástico. Humano. Sua introspecção escapava da própria boca, agulhas, torpor. Sua vontade era desaparecer na pele. A nitidez ensurdecedora, ruídos cáusticos contidos em um adeus completamente óbvio. Cá, chorava por experimentar a insistência enfim, assistir um amor de nome, forma e símbolo. Permanência, L. Chorar, tão velho, pela primeira vez; por ter assistido enfim, o amor.

 Eu me torno rápido nestes parágrafos. Não quero escrever. Mas resumir dias deste homem, que se diz L., é odioso, agoniante. Intimidade, sim, intimidade. É raso falar das coisas, na verdade é tão simples. É só dizer o que aconteceu e quando. O resto é floreio, né? Achava isto também, antes de cair aqui.

 Cinza. Sente o gosto amargo do cinza manifestado nesta manhã. Essa mulher ao lado, um sol fustigante. Ecos vindos do corredor. Olhos abertos ressecados. L. remexe, convulsiona ligeiramente ao tocar sua pele. Gelada. Levanta e o vê, num susto. Veste, ri feito gralha. Calor e giros, memórias. Beijo e língua, gemido e riso. Não há sequer minúsculo resquício de felicidade. A máquina das catracas necessárias. Fizera, pois, lera, fora dito que seria mágico. Linda, piercing na boca. Onde está algo, o celular. L. senta, tenta triscar, sentir algo como fora ontem. Ela não facilita, percebe giros caóticos nos olhos, movimentos maquinários e perguntas ordinárias. Quer água, alguma coisa? Homens são feitos destas memórias, destes lugares? Se pergunta ao ver algo belo submergido no completo cinza, gosto amargo e cinza.

 Não quero escrever nada. Falo dele como alguém que sequer sabe organizar. Talvez tenha me viciado nisto, em como cores têm gostos e sons. Mundo reduzido a cores. Verde, azul, cinza.

 Comer, comeu ela? A espinha contraída em pequenos espasmos. Descansando a coluna gelatinosa nesta cadeira amarelada, reprimido. Toda proximidade destes lugares fora deplorável, flagelante. Notar o vicioso meticuloso cinza, a torpeza, vileza de relações miseráveis. Inquieto, pois, minúsculo e dialético, recusa dizer qualquer coisa. Então permite, ver amigas e amigos, contando histórias horripilantes e infinitas. Comer, comeu ela? A tragédia em seu espírito, é a repetição. Como os corpos latejam, borbulham, completas desgraças. Como na sua memória quando arrancaste a cabeça deste suposto homem que lhe exigia, não só a língua, mas o inferno horripilante das mulheres, que nos fins viravam comida. Comer, comeu ela? Ao acordar inebriado na alegria, duma noite, palavras e carinho, afeto; e ainda assim este homem surgir, como asco, da pergunta que traz consigo a posição desta mulher como comer, comeu ela? O burocrático, esta dor no seu âmago deste afeto não ter mesmo efeito nestes homens e outros, por não ter sido burocrático, ter sido puro e simples afeto. Dissociar-se do mecânico, do burocrático patético irascível motivo de sair, para comer, não só isto, sair para qualquer coisa. Quem fora este homem? Parece que mesmo nas suas introspecções letárgicas, de mortes diárias, L., vai me deixando vê-lo. Um homem que agora enfim sabe o porque dela estar ainda ou de que este lugar não o é mais, nunca foi, sempre foi ruína.

 Alguns detalhes merecem se apagar no tempo. Alguns detalhes são dele, assim como qualquer coisa. Ócio seletivo, é quando o delírio é somente uma mulher, por exemplo. Quando é um homem. Quando é qualquer coisa. Ócios em que se investiga pessoas, na verdade não se investiga nada. Quem diz de alguém, é este alguém.

 Guilhotinando obrigatoriedades do mundo real. Percebendo-se, enfim despregando grilhões expectantes. Olhares hoje, nestas semanas não são devorações nem vontade, desejo. Olhares são olhares. Sua poesia nunca conteve corpo, nunca falou de nada ou ninguém. Ela surgira na palavra deste início, e como qualquer milagre surreal nas almas inebriadas diariamente por substâncias invisíveis, trouxe o mesmo sentido prático. O real é cinza, amargo. A burocracia deste lugar, se inseriu nas relações. E o comer parece vil, mas estão se vendo deste modo, são deste modo. Afeto contido em horas, minutos, quando der. O ócio seletivo hoje, então, é a investigação de lugares. Talvez enfim, possamos dizer que isto, L., está em algum lugar.

 Eu conheci aquela pessoa. Suas motivações, artes. Gostei de como falava através do afeto, das imagens, músicas. Delírio, ele caiu no delírio de si. Não há culpa em canto algum.

 Semanas enfermas. Anos enfermos. A massa turva caída sobre seus olhos, vertigens de contatos, aproximações. Cafés, cigarros e mentiras. Por que estou aqui? Gritava algum lugar obscuro, massacrado na sua alma. Em análise, a pergunta absurda e simples, mas aí são seus amigos? Permanências, ficar. Sentado nesta nova praça. Debaixo do amarelo musgoso, corpos espectrais. Puxa então a memória d’alguém, que fora dias inteiros ela. Onde L. está, nunca é um canto específico ou causa. A sua impermanência é permanente. Esta última insistência, fizera enfim despir-se, dizer. O amor que permanece agora é um salto, a morte do medo de ser localizado.

 A incrível causa de ficar ainda nele, tão contraditório. É vê-lo escapar de ser percebido e enfim deixar-se localizar. Eu nunca quis escrever nada.

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