31, JULHO, 2022.
CORPOS E MEMÓRIA.
São estas pequenas agressões, permitidas. Permanências sistemáticas, corruptivas. Formas nas sombras, ondulações sonoras derretendo o quarto, meus tímpanos. As horas letárgicas arrancam pedaços, introspecções que tendem ao mesmo desespero. Ardem os olhos, açoitados por expectativas. Pensamentos tornam-se vórtices ásperos, agulhas infinitas atravessando a extensão deste corpo como tentáculos.
Não, não possuo corpo, não estou aqui.
Da janela, estico minhas mãozinhas, sinto gotas ácidas afundando a pele, rasgando-as. Cada centímetro aprofundado dá-me corpo, lembra-me vida.
A água tão quente, afunda e arde a pele, a água tão quente remete a vida.
Saudades deletérias, saudade disto e daquilo, como promessa divinizada, promessa cumprida. Sou um penitente aqui, carrego a moral de que vocês estão para punir-me, deixo ficarem pois preciso sentir pena e ódio, das repetições. Meus olhos verdes são vertiginosos, estico e estralo a coluna, ponho um copo na boca. Lembro daquele ou daquela, quero vomitar, quero correr; mas volto, juro, preciso da pena e do ódio.
Cada gota chicoteia, cada convulsão parece inevitável. Eu estou aqui para isto, para investigar isso. Só eu posso dizer, mas só eu também posso saber, então é melhor não dizer nada.
A praça está lotada hoje. Um nublado mórbido fustiga os amarelos postes, intercalando penumbras, manchando rostos. Sentado intercalando cigarros e água, espero ela chegar. Não há vontade alguma aqui, não há medo e nem coragem, só quero sentir algo. Chega, morde minha testa, belisca meu pescoço, puxa-me para perto e comprime seu corpinho junto ao meu, virando uma gosma das nossas cores. Não lhe digo, nem preciso, me puxa pelo braço e estamos agora n’outro lugar. Luzes esverdeadas e azuis, sussurros, fumaça e álcool.
Meu corpo estica, membros estalam e minha mão treme. Pernas chutam, braços batem, costelas comprimem. Minha garganta exausta pelos cacos de vidro, todo esse silêncio contido. Quero sair desta carapuça maldita.
O espelho mostra-me um brilho fascinante e a causa é óbvia. Lavo o rosto para desmanchar, piora, brilha ainda mais e a causa é óbvia. Passo por pessoas ouvindo a estática sonora das máquinas, freezers e geladeiras. São formas sem nome, sem memória, até chegar à mesa e beijá-la, ninguém me monta corpo ou traço, são borrões neblinados por um brilho e a causa é óbvia. Sentado a espero, de novo, sem perceber-me, sem notar-me. Isto é miserável, ao toque alheio volto, surjo, não, só a este toque. Preciso arrancar minha cabeça pois a causa aqui é óbvia.
O silêncio não vai existir nunca, é ruidoso, maldito. Minha linguagem é sempre a mesma, contraditória. Eu sinto tanta saudade, tanta saudade. Meu amor não vai transitar para o simples afeto e ameno? Veja, lá fora, estão lá, não quero abrir os olhos, não os quero ver.
Junto a minha pele na dela, a vontade é derretimento, decomposição, intromissão e perfuração da pele; quero não ser mais corpo, quero ser tinta na memória.
Que dia é este? Que dia eu cheguei aqui? Que horas são? Parem de me olhar, eu estou exausto, exausto. Por favor, tenha pena de mim. Tenha pena. Sou digno da tua pena? Preciso da sua pena, por favor. Ah, tão exausto, eu não vou conseguir. A exaustão é torpe, afasta até o corte e a dor.
Brinco com meus dedos, entrelaçando copos. Belisco cigarros. Brinco com todo ali presente, maldizendo, dizendo. Sou bestial, sou miserável, asqueroso. Amar é isto, um abismo onde lá embaixo estou sentado na mesma pedra sendo surrado pelas mesmas ondas.
A água quente volta a furar minha pele, meus olhos. Tá ardendo tanto, mal consigo dormir. A cama é a mistura de mim e o nada. O quarto é um espaço-tempo próprio, divagante e incessante. Para quê tanta violência? Odes, sistemas, política, silêncio, corpos. Onde está meu corpo? Não me mostre o teu, eu não vou lembrar.
Sal nos meus olhos. De pé ante ondas violentas, não suporto mais quanto tenho piscado tentando tirar esta coisa das minhas retinas, pupilas. Choramingo, lacrimejo há dias. Surge então a ideia invasiva, para dar ao mar a decisão, deixa-lo tirar de mim isto. Uma passa e me derruba, capoto arranho canelas, joelhos e acerto a testa nas pedrinhas. Levanto, grito alto e abro ao máximo meus olhos verdes, deixo a violência do mar decidir. O sal nos meus olhos; sal, arde, arde.
Quem ainda está aqui comigo? Para que qualquer coisa? Sou mesmo tão abjeto? A música me dá a paz não solicitada. Para onde devo ir, então? Arranca a minha cabeça, pelo amor de deus.
Ouço gritos em resposta. Portas batem violentamente, estão prometendo e mentindo de novo. Junto meu crânio opaco aos meus joelhos, detesto o silêncio. Não houve silêncio nunca. Puxa-me pelo braço, para perto, minha cabeça entre seios e um coração que espanca costelas. No degrau abaixo dela, minha língua movimenta palavras de um afeto puro, nascente e rompante dos meus ossos. Preciso conta-la, a causa é óbvia. Olho-a entre seu corpo esguio, entrelaçado no arder dos seus braços, com minha cabeça derretendo nos teus seios e a digo, digo que a causa é óbvia. Eu a amo.
Vou mergulhar nisto de novo. Quantas vidas vão dar-me? Para aguentar. Sou um rato, o labirinto é infinito e não quero nada. Não tenho corpo, não tenho, não tenho. Faça o que quiser disto, de mim, daqui, disto aqui. Estou tão exausto, de investigar e experimentar poções, alquimias para não ser mais eu, não me ser mais. Tento e salto sobre vocês, escuto vocês, ouço vocês. Me perdoem, tenham pena, eu não sirvo para nada.
O sol hoje está alaranjado, as nuvens são breves e não o inquietam. São corpos sentados nesta mesa, vejo famílias e histórias. Brinco de ser um peixe, brinco de ser água, quero ser o mar. Um casal me olha impressionado, meus olhinhos ainda não entendem nada. Me dizem coisas bonitas, como sou bonito, mas alguém vai desdizer isto, alguém que importa dirá que é mentira. Meu amigo ao lado é tão bonito quanto, querem nos raptar, querem nos levar embora. A mãe, minha mãe então os diz que não, que ninguém tira de mim ela.
A água de novo está fria, a madrugada compondo metáforas mistificantes. Meu pensamento está escorregando junto deste banho e indo ao ralo. Ouço gritos lá fora, ouço. Não vejo, não abro meus olhos. Quero as costelas espancadas pelo coração dela. Quero sentir corpo algum, corpo, quero ter corpo, me ajuda. Tenha pena, tenha pena. Sou mesmo esse fantasma? Sou um fantasma. Tenha pena de mim.
Degraus e escadas. Uma velha senhora senta defronte ao banquete, com seus olhos de bruxa. Ao lado está tia, está mãe, está gente. Brinco com o garfo, meu olho espetado por alguma memória fustigante. Irmão, suposto primo, ideias não verbalizadas e o silêncio é induzido. No breu repleto deles, não sinto paz alguma pra lhes dizer quem está caminhando no corredor. A luz pisca, o vento e sons de sirenes. Estou com medo agora, estou com tanto medo. O colchãozinho é idêntico ao daquele ano, em que eu tentei de novo.
Ser um fantasma é sem culpa. Ser espectro, ausente de desejo e corpo. Pare, pare de achar que vim para lhe devorar, sempre será o contrário. Meus dentes e língua notam todos os contrastes, tua pele exposta, me modela através de cores, sensações, pele lisa, pele. Vou lembrar-lhe através de uma palavra, conceito. Seu corpo a mim vai ser manifesto eterno de um fascínio, é um delírio. Tenha pena de mim, tenha pena.
Caminhei até a quadra, bolas acertavam a parede e o baque seco juntava-se aos gritos das crianças. Caminhei até o meio da quadra, pedi para jogar. Jogava como manifesto de um fantasma, com a bola perto não precisava dizer, não precisava ser. Não gritava e nem pedia, só seguia estímulos, soluções de problemas imediatos; enquanto você não aparecia para dizer nada, meu corpo virava um fantasma junto da bola e todo mundo ali perdia seus corpos. Mas você sempre surge para lembrar, que minha carcaça está contida contigo, que não posso lhe abandonar. Então desperto, diante de algum goleiro, de algum homem e percebo que preciso chutar, e então falho, pois já não sou um fantasma junto da bola. Volto a ser homem.
Ia a casa desses amigos, lembro, ia para entende-los. Vê-los tão aptos nas suas atividades. Vê-los desejantes. Eles sempre quiseram e queriam algo. Entenda, eu não vou lhe explicar mais nada, eu desisto. Eu não estou aí com eles e nem com você. Tenha pena, se quiser, tenha pena. Talvez se eu tivesse virado mar, meu corpo estaria eternizado no sal, nas ondas, na metáfora de uma criança sem corpo.
Ao redor, ruídos escorregam das bocas alheias. Aproximo-me para ouvir mentiras, a ausência de coragem. Aproximo, pois, minha curiosidade não cessa, quero tentar algo que só existe nestas manifestações. Luzes brancas nos verdes gritantes de árvores. Aos poucos mais e mais gente. Não quero levantar, não quero.
Sua vida acabará nos mergulhos, eu sei. Sua vida é um mergulho. Um mergulho de alguém que não possui corpo algum. Ninguém vai acreditar em você, e eu também não. Sabe disso, não é? Sabe que eu também não acredito.
Pêndulos chocam-se uns nos outros. Ela me puxa pelas mãos e me diz absolutos íntimos, sobre um conceito específico.
Eu estou exausto das investigações, não há solução para isto, nem sequer há vida. Minha continuação é totalmente egoísta, não lhes devo nada, pois não me dou nada.
Pingos de chuva e uma poça d’água. A lua injeta seu ópio agudo na tremeluzente água imunda, vejo meu rosto ali, se desfazendo como ácido. Elas estão atrás de mim, enquanto uma morde minha orelha e lambe meu pescoço. Mal sabe que eu caí dentro daquela água.
Eu, eu, eu. Sabes? Eu, eu, eu. Não existe um lugar, nem um futuro. O tempo sequer existe, o tempo não está aqui, nada está aqui. Quando você vai? Quando você volta? Por que você faz isso comigo? Tenha pena de mim. A ti eu mostrei tudo, dei tudo.
Deito neste sofá e respiro aflito. A mulher aqui não consegue chegar perto de mim. Ninguém me abraçou ou envolveu há meses. O silêncio aqui tem algumas partes. Uma delas é a razão óbvia de estar ali. A outra é a irascibilidade de estar de novo, ali.
Talvez eu deva dizer que chega.
Entrego a prova, arranquei da costela todas as perguntas ali. Entrego um plano cósmico inteiro, pois nascera aqui em mim. Minhas notas não me dizem algo específico, parece que não preciso daquilo ou de mim. Seus cabelos grisalhos, um homem de viagens e leituras, duma humildade dilacerante. Olho nos teus olhos e digo que me senti visto por ele, que talvez nos lapsos de aulas, ele tenha me capturado. Ele pede para que eu não desista.
Eu amo, talvez ame a semelhança do desaparecimento. Seja isto, alguém que não só me tem em completo, mas conduz da forma que quer, pois sabe que não tenho corpo; meu corpo só aparece quando ela quer.
Hoje é um dia semelhante a um ano inteiro. Abro mina cabeça com o machado. Quebro portas, janelas, jogo meus corpos lá embaixo. Deixo os na área, nos térreos. Escuto quebrar de ossos, choro minguante, coagulado. Sangue amontoado e descendo pela varanda, caindo como uma ode ao desespero. Medo não há mais, pois joguei todos os meus corpos fora.
Eu amar deste jeito, estar somente nascente como algo, no desejo alheio. Chega, eu estou exausto, sempre foi assim. Tenha pena de mim e arranque minha cabeça fora.