06, AGOSTO, 2022.
INQUIETO (13)
A luz geme através das cortinas, enquanto se esgueira e derrama seu corpo áspero sobre o rosto, deixando rastros mornos na pele. As inquietações inebriantes, continuidades amputadas pela aproximação deste despertar. Olhos convulsivos espancando as pálpebras, suplicando para injetar-se nos ruídos intermitentes da casa.
Músculos e ossos em odes voluntárias, tentando atravessar e quebrar este pacto malogrado. Um rejeito, algo manifestado em todas as manhãs convulsivas, lembranças de um lugar distante e etéreo.
Manchas de poeira disformes nos abandonos destas permanências. Quartos, corredores e salas abertas e aos poucos exaustivas. Robustez, solicitude e súplica, vontade de que não seja mais assim. Vontade de que isto cesse em uma palavra.
A noite escorrega entre intervalos de luz, mancha os olhares com sombras e penumbras musgosas. Formas visíveis, dubitáveis, pelas frestas dos olhos semicerrados.
A saudade é um impulso, uma das cabeças desta quimera. A saudade é uma súplica, resistência ao desespero que sobre si, pode-se dizer somente o nada. A saudade vem azulada, diferente do surreal e intangível, manifesta-se na fisicalidade de uma reciprocidade rara e contida na certeza de um manifesto puro ao ser. Lapsos ou razões de permanência, estão submersas na infinitude disto, que ao toque se traduz somente em amor.
Pássaros grandes descansam nos galhos finos desta árvore; introspectivos, silenciosos. Observam alguns homens virarem curvas na esquina, homens e mulheres pararem para falar algo. Vêm nas varandas outros nas redes, corpos silenciosos na inquietude miserável de algumas noites e a plenitude de outras. Pássaros esguios, de garras longas ficam ali e voltam para ali todas as noites.
Uma carapaça com braços, mãos. Pensamentos e voz, ligeiro e inquieto, arrasta-se pelos pisos alheios. Deita nos sofás, camas e fica como uma estátua cabisbaixa e chorosa. Busca dentro dos movimentos bruscos alguma quietude, visto que açoita continuamente a rigidez intransponível da sua casca.
A liquidez adocicada da sua voz pegajosa, grudando nos milímetros da sua boca à dele. Entre um toque ao outro, regozija reprimindo um choro alegre, pois dentre os vórtices das suas memórias infantis, nunca houve corpo. Atravessar a inflexibilidade dos ossos, como se para sentir-se, fosse necessário abrir espaço entre pele, músculos e tocar os ossos. A liquidez pegajosa e doce daquela voz, junto do brilho tremeluzente dos olhos que lhe transportavam para o etéreo, um etéreo que deixava de ser e vinha pra cá, pro corpo, em cada toque seu.
Um eco seco, grave, acertava um homem n’alguma das esquinas destes prédios. Batidas violentas na porta branca, gritos e gritos por alguém que lhe devia abrir. A voz é diferente, a voz é fina, a voz não é a dele. Corre pelos degraus, corre pelo breu e afasta de si as sombras. Vai até algum andar, pede o elevador e embaixo, no térreo, nota que estava no lugar errado.
O entardecer traz no bojo da sua placidez, o final de uma época curta, definida pela escassez das horas contidas em si mesmo. Manhã, tarde e noite, são-lhe anos inteiros e cada espaço de tempo aí, manifesta um tipo próprio de inquietude. Quando a noite violentamente abre as portas e escancara janelas, jorrando suas introspecções na ponta da língua dele, deita e tenta não ser.
A absoluta miséria, que aos poucos vai se transformando na promessa de maturidade, é notar um movimento transcendente. Notar que ser, traz consigo todos estes infernos. E ser, mostra que silenciar os próprios dedos, na expectativa de uma palavra que o reduza a sintomas, não somente o mata, mas diz também que, caso seja a palavra, não é somente ela. A infinitude do pensar a este modo e o desespero aí, é que só manifesta-se quando cria. Só tem corpo quando fala e mostra. E você sabe que não consegue dizer, e quando não, cai no silêncio abismal, de um sintoma.
A inflexibilidade de ser estátua, ser algo constantemente tentando abrir brechas, portas e janelas no corpo, para manifestar o etéreo destas palavras, destas ideias. A inflexibilidade, mantém-no vivo.
2.
Eu preciso que isto cesse as vezes, para que eu não me transforme no nada que tanto rasga meus sonhos. Preciso aprender que, qualquer um pode ser azul. Mas, se eu lhe disser isto você sabe que eu minto. O azul é diferente do verde, o verde está aí no equilíbrio e na continuidade. O azul diferente do que se está sempre em evidência, que está sempre manifestado, é algo em si único e intransponível, inflexível e flerta com o surreal e o absurdo, mas na sua aproximação finda-se em amor.
Eu talvez seja súdito suplicante do azul, do azul raro, do azul que injeta-se na minha inflexibilidade e fica ali, com ecos plácidos de saudade. Saudade esta que não somente me é vida, mas são razões puras de permanência.
Acho que em si, a mim, a permanência está submersa no aspecto sempre mirabolante, fascinante. E talvez, na sua raiz, não seja desejo meu, talvez seja somente ser. Eu sou isto.