07, AGOSTO, 2022.
CONTINUAR.
Caminhos indesejáveis estes, caminhos desprezíveis. Abstrair é o efeito possível, a linguagem é escassa, rasa para mostrar isto, então o silêncio rompe tendões e músculos. A exaustão subjetiva transforma-te em um ajoelhado, assustado e cíclico. Quem vem lá, a passos lentos e lhe envolve aos poucos nas ruínas corruptíveis de promessas que você mesmo injeta. Você enfim, amor, não possui sequer prática e possibilidade, você, amor, acaba aí no que diz.
Um labirinto lento, vagaroso. Meticulosas mediações, dos diabretes soturnos. São coisas minúsculas agigantadas nos ecos ininterruptos do silêncio, impedem olhos fechados, rejeitam quietude. Placebo, vendem-no placebo para acalmá-lo, aos poucos entre induzidos comas desperta agonizante, notando a massa cinzenta soterrando seus dias e grita o choro inescrupuloso das intromissões malogradas, de todos eles juntos. Você, amor, acaba aí no que diz.
Juntam peças jogadas pelo mundo, montam essas coisas falantes e ruidosas. Ouve-as arrastando dedos e unhas, na exposição do seu corpo. As ligações nervosas arrastam resoluções químicas, gesticulando língua e toque, arrepiando todos os milímetros da sua carne. O breu cósmico afetuoso, percebido nas raridades silenciosas envolvidas na introspecção projetada por alguém, que lhe vira deste modo. Suas reações mecânicas, surgem em resposta, dando lhe causa e memória humana. Derrete lentamente, derrete pelo vórtice. Amor, você só está beijando algo que vai amar, amor, é somente um corpo, uma pessoa, dentre tantas. Amor.
Um eco seco choca a parede, outro eco atravessa os recantos deste lugar. Portas batem, portas fecham-se. Gritos surgem das traqueias das peças montadas. Gritos dos andares de baixo, das casas ao lado. Gritos e choro minguando condensando-se nas memórias, voltando todos os dias como um machado que cai e abre seu crânio. Amor, você só precisa esquecer.
Investigar o que dizer, para não dizer o mesmo. Investigar a própria fala ou a própria causa, para não ser o mesmo. Feche a janela e a porta quando sair. Lá, onde tudo é o mesmo, lá onde corpo e pensar é o mesmo, lá ele devia ter permanecido. Todos os dias deste que sua memória abriu espaço entre os ossos, músculos e submergiu no mundo, veio composto completo de agonia. Seus acordares são invasões impraticáveis, de atos e seres imagéticos inquietos incessantes. Suas horas não vão resumir-se nunca, não haverá quietude ou placidez. O ameno, amor, está sempre na presença de alguém, como eu, amor.
Cáustico dia aquele em que despertara, viste pela primeira vez a cor das agulhas de um sol mirabolante. Cáustico, onde sua pele ia sendo rasgada pelas vontades de uma cor amarela, de uma cor alaranjada bifurcada rompendo nuvens. Cáustico, quando tocaste o rosto daquela criança pequenina e pensou de repente que ali estava outro vivo como ele. Cáustico, quando andava pelo corredor da escola, em um dos andares, mirava janelas quadradas e contava aos poucos centenas de outros vivos. Cáustico, quando todos ali iam dormir, e agulhas não mais vindas arremessadas pelo sol amarelo e laranja, vinham em formas de silêncio composto das coisas contidas nas horas em que ele não devia estar mais de pé, não devia estar mais pensando, nem sequer ouvindo. Cáustico, quando ele olhou e sentiu um comprimir de costelas, uma asfixia repentina, um desatar de nó e escorregou uma lágrima, que dentro de si veio sobrecarregada e açoitada por medo. Cáustico, que ali talvez fosse amor, mas a ele não se diferenciava em nada do medo, ao tentar dormir. Amor, você vai sair daí, eu sei.
Aproximar demais, chegar perto demais, ouvir o som da pele. Chegar tão perto, atravessar carapaça e tocar o âmago. Tocar o ser. Tocar o nada. Amor, você vai sair daí.
Seus olhos pressionados pelas mãos de aranha, contorcido na cama, no chuveiro, no piso da sala. A linguagem é rasa, a linguagem é desgraça para alguém deste jeito. Todo aproximar lhe escancara o óbvio nítido, mancha cinza do seu ser. Amor, você só precisa…