EU, SINTÉTICO, EU, MEDO./histeria.

15, AGOSTO, 2022.

EU, SINTÉTICO, EU, MEDO.

As vertigens vão abrindo espaço na pele, rasgando e deixando sangue escorrer. Corpos multifacetados arrastam suas línguas até os meus olhos, movem-se junto dos meus ossos, são mesmices rangendo suas catracas e me puxando para perto. Exausto, caio na inflexibilidade de um transeunte miserável, descanso meu corpo rígido n’algum desejo alheio e me sinto prático, semelhante.

 O medo desliza de mim, arrasta minha composição assimétrica pelo piso empoeirado, larga todos os ossos em uma das diagonais. As luzes injetam seu ódio nas minhas pupilas, na minha íris. Trajetos e memórias surgem diante de mim, homens e mulheres, situações, cidades; tremo, desato um choro ruidoso. A agonia deplorável de uma repetição, uma permanência neste absoluto simples, de que sou e estou nisso.

 Um homem bate na porta, uma duas três vezes, vou até a janela e o observo pelas persianas. Veio me buscar, está na hora de ir, seus olhos movimentam-se caoticamente e acham os meus. Seus dedos gorduchos protegidos por luvas pretas, convidam-me, e em seguida estica outros dois, como se eu tivesse dois dias. Minha perna curva e acerto a testa na janela, lembrando desta promessa.

 Vejo que a composição química de mim, é nefasta. Vejo a nitidez desgraçada, de incongruências, constâncias. Meu ego manifesta premissas multifacetadas. A faca convida a um corte, presa no meu pescoço. Ouço sons pequeninos de objetos manuseados na distância, ecos surdos de cabeças rolando, alvoroço e ao me concentrar, risos e choros alegres de crianças, mulheres e homens. Fecho a janela com força, caindo debaixo de lençóis suados de um pesadelo recente.

 A coisa é disforme, seu rosto a mescla de manchas e traços pintados por crianças. Serpenteia, escala paredes como aranha e seu rosto humano entre espirais volumétricas de sombras. Vem pelo corredor nas quinas, passa pelo Bernardo, passa por qualquer um ali que com sede na madrugada levanta; esconde-se. Derrete seus ossos de pano, passa pela fresta da porta e pausa ante mim, deitado e prevendo seu salto. A coisa vai de canto a canto da cama, analisando a complexidade mesquinha de mim, todo choro preso na goela, todo afeto corroído. Sua mescla de penumbra, cores tiradas de algum abismo, esguia como navalhas misturadas. Ao tocar e deitar-se ao lado, ao saltar de um canto ao outro de mim, e enfim cair sobre meu corpo adormecido, para rasgar minha pele e entrar, ficar, dividir minha carcaça, carapaça. Eu resisti naquele dia e em outros, talvez não resista de novo.

 Barulhos de conversas ácidas na calçada. Gritos e algazarra, ordens. Sons chiados misturados aos carros e motos na avenida. Dedos finos esticam-se na minha janela, debaixo, acalmo todo rompante agoniado, lembro das grades. Sua cabeça calva e em forma de cone, olhos escondidos por óculos escuros. Projeta-se completo acocorado, bate uma duas três vezes no ferro oxidado e me diz algo que junto aos montes dos infernos que jurei que esqueci. E cai, cai lá de cima, mas não ouço nada.

 A organização meticulosa e arquitetada, destinos e futuros são prognósticos condenatórios a qualquer ser. O tempo sequer existe, quem dirá o existir. Bato meus dedos pequenos na mesa, ao espera-la voltar de alguma espiral, sei da minha simplicidade horrenda, dos desejos simples. Carinho e convivência, cuidado, não conheci. Bato a testa com duas cicatrizes inebriantes, deixo que meus olhos se fechem, pela indubitável certeza de que não há como dividir com ninguém isto. Parar antes de que me diga o óbvio, pare, não precisa, não vai me ajudar.

 A manhã nublada dava pequenas mordidelas de um frio tímido. Vinha devagar pelo calçamento espetante, xingando cada batida seca nos pneus. A mesma rua todos os dias, para as mesmas aulas. Uma curva na esquina, terreno baldio cheio de plantas e pedras, ideias e paraísos artificiais. Hoje sei que ia devagar para tentar captura-las nos meus olhos, todos aqueles lugares possíveis. Desce da bicicleta, vamos. Era algo como navalha, algo de corte. A minha súplica lá, indo em seguida a pé até portaria, porteiro, sala. A súplica contida na dúvida de que se eu havia perdido algo.

 Batidas agressivas em janelas, ondulações sonoras mancham as partículas minúsculas dos meus olhos, misturam-se e aos poucos vou sentindo que faço parte desta formação, ondulando junto, tremeluzindo. Costelas como garras. Sinto um calor novo, calor de tinta e estática, minha garganta fecha, a voz tentando cortar cordas, desatar nós. Costelas como facas. Meu peito arde, expande, explora, desiste. Vejo dois dias inteiros em decomposição. Eu não quero dormir.

 Sua voz e cheiro. Calmarias introspectivas, calmarias conduzidas pelos espectros desesperados. O medo nas entranhas nebulosas e ásperas, um caminho novo que do anterior não mudou sequer o nome. Então estou aqui agora, pelo mesmo fato, pelo fator condicional. A chaga de notar a introspecção neste amor, introspecção, peste.

 Eu busquei um tipo de corte e esquecimento nos comprimidos, queria esquecer. O horrível fato, é de que não se esquece memórias, esquece-se presentes, esquece somente o dia do uso. A névoa densa do apagar, da dúvida, foi eu? Traz no bojo um infinito químico maldito, de que sim, há o possível ato do esquecimento na substância. Talvez seja tão sintético, talvez de humano só nos reste o nada.

 Olhos verdes calmos, verdes e calmos, nesta incerteza massacrante. Um nublado penumbresco descarrega seu ópio pelas plantas secas de uma caatinga fascinante, debaixo de um pneu enorme, com um primo. Pai que caminha velozmente, agressivamente, seu medo é que nos adoeça; não de si, mas da chuva. Olhamos lado a lado daquela coisa enorme, vimos uma tarântula, aranha tão grande quanto. Primo acopla-se distante, me resta a proximidade àquilo e seus olhinhos místicos injetam-me dúvidas inescrupulosas e medo. Digo a Pai, que tem um bicho lá, que tenho medo. Mas ele só não quer que eu adoeça, da chuva. O dia se arrasta do choro retido nos meus olhos, dedos dos pés aos das mãos, do peito que agora é uma caixa de energias positivas e negativas, em colapso. Mas ele só não quer que eu adoeça, da chuva. Primo de mim a mim, primo calmo, como se contássemos os segundos para irmos embora. Pai que veloz antes estava, de gracejos e brincadeira, torna-se lento e o que eram cinco minutos, virou meia-hora. Seus olhinhos místicos instalaram medo. Há madrugadas em que abro meus olhos turvos, vejo várias daquela pela parede, quando foco meus olhos, se desfazem como pingos de chuva. Não podia adoecer da chuva.

 Eu estou aqui sentado, de novo. Estou de novo tentando. Estou de novo indo. De novo voltando. Os anos são projetos dissociativos, inexoráveis. A idade é memória de um tempo pertencente, completamente meu. Eu estou aqui, de novo, com medo.

 Aprendi algo, um dia. Aprendi que não vou conseguir lhe mostrar. Tenho medo, hoje sobre o medo, hoje sobre o nada.

 Parágrafos curtos são intencionais.

 Amores não são intencionais.

 Corpos são corpos.

 Talvez de humano, não nos reste nada.

 Químicas figuras, químicas junções de membros, carne e músculos, sangue. A linguagem manifesta somente o mesmo, são discrepâncias aos poucos tornadas simplórias e indesejadas. Desculpa, pois não me fiz semelhante, desculpa pois de mim a mim, a certeza fatídica é o nada. E que ainda que saiba, entenda, veja, tente. Vou continuar assim, objeto de desejos. Tenho tanto medo. Sozinho aqui, de novo.

 Não há salvação a isto. Químicas figuras robustas, químicos homens detestáveis. São urubus e carniça, urubus e carniça. Meu corpo não tá aí para isto, desculpa.

 Fome, sede, fome.

 Sou isto, então? Sintético e repetido?

 Desculpa.

??, FEVEREIRO, 2018.

histeria.

há um facto nítido na sordidez dos meus delírios;
engole-me e cospe ao degustar o gosto amargo;
carrasco miserável balbuciando histórias nítidas
sussurrando aos ouvidos detestáveis comoções invisíveis

projeta ideias ao meu âmago exausto;
golpeia o peito raso e petrifica um bater sólido
esta taquicardia infinita que comprime as costelas de asco;

rasteja pela coluna pontiaguda e mordisca osso a osso
faz dos braços uma inusitada coreografia sádica
contorce o desejo casual do corpo
faz a testa lamber a cerâmica imunda;
rasgando as ideias com mordidas malditas

2
faz deste sentimento uma repulsa asquerosa
entre os transeuntes e seus desejos pífios,
injetáveis nas histórias moribundas dos detalhes fajutos
são mesquinhos na natureza de sua autorreprodução depreciativa

requerem pouco das clarezas estonteantes que os arrodeiam 
e assemelham-se aos animais no cio,
capacidade fantástica de por-se debaixo de chuva e fome
por um gozo que dura senão o tempo de cantar aos céus uma desgraça

3
tenho culpas indigestas feito bolhas de queimaduras
borbulhando uma espécie de sopa rala, dos cantos imundos da alma
passo a minha língua no pus, na pele que se desmancha

amar-te é de tal forma crítico
uma angústia analítica
repleta de fascínios contínuos,
dos urubus que te tragam feito carniça

enxoto-os com desprazer rarefeito
pequenas migalhas
gotejam do teto e acertam a testa

vê-la despercebida por pureza,
ingenuidade de seu semblante magnífico,
me corta os olhos, entre agulhas pequeninas

acerta-me direto na córnea e em um gracejo masoquista
lhe aceito a corda que estende entre um beijo e outro
amarrando meu espírito no teu olhar perpétuo

4
racionalizar sobre qualquer fato é dar-lhe ficção
populando o estado físico do real em um corte-do-real
e se a fotografia retrata um trave no espaço-tempo
e sua resposta é sua, eu não devo-lhe dizer o ciúme que trago feito cigarro
de qualquer toque sinistro ao meu observar putrificado.

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