SOBRE A QUIETUDE.

16, AGOSTO, 2022.

SOBRE A QUIETUDE.

A quietude destes traços, na proposta diante de si, dividida em seções observáveis-praticáveis; úlceras brotando nas suas vistas, deslizando pelos vasos sanguíneos; úlceras contidas na indisposição, no desespero de uma resposta. Átimos perceptíveis ao olhar atento de gatos, piscadelas violentas, convulsões minuciosas; todos lapsos de alguém que se rejeita, rejeita o novo nascente na proposta incontestável. Então levanta, bate com violência na mesa, jogando todo aquele acúmulo, todas aquelas páginas que lhe açoitam a pele; joga fora como fez a si, anos atrás; como fizera a todos estes nas suas objetividades práticas. Então ergue-se soterrado no peso de toda uma época, lentamente vai até uma janela, até uma porta e senta com o corpo curvado. Seu rosto despenca nos joelhos, mãos e dedos pressionam seus olhos; tapando-os feito aranhas. Tenta rejeitar, tenta negar e a evidência mórbida de uma condição de ser, de que a si não mente; a si, não consegue mentir. Gritar dá-lhe asco, idêntico àquelas propostas corretas, propostas certas. O choro mesquinho d’alma medíocre, choro pela invalidez das suas ideias e propostas, respostas; um choro ecoante pelos assombrosos ossos frágeis destes períodos inertes, adormecido na poeira apodrecida do desgaste de sua pele e letras, falas; espelhos quebrados pela disformia constante. Bons dias, quantos não dissera ao vê-los passarem. Cada cigarro aceso, enxotando-se feito parte da fumaça, no acúmulo indissolúvel de uma desgraça própria, seu próprio nome. Quietude repentina, exposição da sua chacina diária; quietude arquitetada para tirá-lo das contínuas desgraças.

 Exibe o esboço, exibe a disposição fictícia da sua inabilidade de uma resposta ao para quê, um esboço de corpo e conduta saudável, membros ágeis e composição ativa. Risos alegres, ideias alegres, propostas alegres. Medíocre nos dialetos, na linguagem própria; escasso de germinações suas, germinações do bojo, germinações autônomas. Então deita, amontoado pela destituição, deita atormentando por ser possuído de alguns e alguém, nunca feito de algo seu. Mediações e interpretações constituem desperdícios, apresentações dos seus esboços mascarados lembram-no pastiche, mimesis e cópia pura; adentra nessas aproximações, para arrancar suas cabeças, chupar o sangue e refazer-se; aproxima-se somente para roubar o que há de possível. Esboço e exibição de disposição, para sentir aos cumes do que nestes habitam; quais abismos, se são, que surjam rompendo das traqueias. Abismos, cumes aos dias submergidos, todos os dias. Então abre os olhos neste espelho pueril, o reflexo compondo multifacetadas propostas, misturando olhos e bocas, narizes e línguas. Eles que lhe lembram quem é.

 Sentado espetado por luzes amarelas, vozes e chiados acústicos. Dois papéis enrolados entre os dedos; desfeitos, refeitos, desfeitos, refeitos; percebe toques nos seus ombros, toques alheios que o percebem absorto. Pisca agressivamente tentando desenrolar-se dos papéis, para observá-los, fazer parte do cenário, mas falha e estremece ao ser chamado pelo nome. Recebe o pedido, ergue-se em sorrisos mecânicos, acenos; cadeiras e mesas, mulheres e homens, crianças. Enxotando a inquietude para não tremeluzir as sacolas, caminha por entre a multidão minúscula, desengonçado. Seus shorts insistem em cair, puxados pelo dedinho de dez em dez segundos. A porta dá para uma avenida.

 Memórias de cortes e choro vão dando mordidelas no seu crânio exposto, aos ares moribundos de carros e motos, janelas de prédios e casas. Mordidelas violentas, dos fins acometidos dos atos cortados e guilhotinados; das cabeças roladas entre brevidades repugnantes. Mordidelas que lhe remetem a uma mediocridade pura, rara. Seus dedos vão coçando mãos, esquecendo a insistência do short. Arranhando seus braços. Medo de não ter dito, de não ter feito, de ter sido isto, acúmulo constante de um não-ato, de um não-ser. A noite jorra junto do próprio choro nascente, a liquidez nefasta desta repetição, um novo ano em desgraça. Sabe tão bem quanto àquele crítico, que seu privilégio rejeita até o dizer desgraça, então se cala ante eles e elas. Simplesmente silencia seus dedos e sua voz. Mal pode esperar o arder borbulhante da água, da memória do corpo.

 A sala cheia de facetas e esguias continuidades de pensamento, sentadas ou deitadas; escoradas no batente, nas grades; outras ainda nas mesas, cadeiras; outras ainda interagindo e vendo-o. Vendo-o, arrastando-se como uma gosma. Facetas de suas ideias, imagéticas exposições neste recinto que é um museu de uma plenitude subjetiva; um museu desta desgraça silenciada, pois aos críticos, não poderia. Ser então a constante negação do óbvio e nítido, contraste multifacetado de permanência; permanecer incauto e frágil, sensível e insignificante. Para exatamente no centro, todos os corpos esguios disformes juntam-se em preces; a seita de um homem constantemente inquieto. Um homem patético. Um homem que prefere isto, prefere a desgraça.

 Todos estes dias idênticos. Nascentes germinadas na inabilidade de um fim. Seu choro convulsionado, comprimindo os ossos ao máximo; e ao sentir a fragilidade dos músculos, põe movimento nos dias. Morte não existe, morte é dar fim ao multifacetado e metamórfico, é não estar mais. Vê duas mensagens, vê outras três, quer dizer, mas pressiona a garganta com seus dedos feito garra, tentando abrir e tirar-se de si. A linguagem diante da proposta retorna-o ao recanto asqueroso, onde não só está em corrosão, mas tem certeza de que acaba ali. Então cai, ante as esguias formas disformes e humanas, suas memórias e ideias, sonhos e projetos; mulheres e homens, mulheres e homens. Morte não existe, é dar fim a isto. A quietude daria o quê?

 Escadas variadas e vertiginosas, casas variadas e desfazendo-se feito a fumaça dos seus cigarros. Precisa guilhotinar-se desses lugares ou guilhotinar os lugares?

 Morte e desgraça, são esquivas deste privilégio. São surgidas de um lugar específico, lugar germinado nesta condição de ser. Serenidade.

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