22, AGOSTO, 2022.
SOBRE O AFETO.
Deste dia, dos próximos e os antevistos, previstos, os outros poucos condenatórios e que teu olho verde vira destino. Aos rastros e manchas de sangue nas pequenas curvas, do labirinto constante nascente, nas correntezas do seu devir-desespero. Vê-la derretida e disforme, feito sombras juntas pelas mesclas de luzes e penumbra; vê-la distanciar-se, aos poucos entre passinhos pequeninos e palavras molhadas adocicadas, que tocam tua pele e mancham, atravessam deixando marca pura inescapável desta condição de amor; voz que junta ao cheiro, desmancha nos olhos verdes admirados, sem hesito algum permanece e transborda na transcendência constante vinda das formas compostas por ela; manuseios incautos dos diabretes nefastos, detrás da clareza ímpia dos seus olhos claros, rasgando frestas e deixando luzes mórbidas corroerem a retina, introspectivas chagas de um lugar que surge perpétua alegria. Irascível como conduta, erros e silêncio induzido. Aos poucos empesteado, tanto silêncio contido nas bolhas de úlcera na garganta; silêncio malogrado dos não ditos, dos atos decapitados; guilhotinas constantes, ruínas culminantes em choros entrecortados. Amar a esta coisa, vem carregado dos limbos infernais.
A pistola descansa seu peso na cômoda ao lado, perto de alguns livros, poeira e garrafas de whisky. Afasta os lençóis de si, arames farpados; pressiona os olhos até sentir dor. Sentado fustigado pelo vibrar ininterrupto do alarme, de mensagens e razões práticas para ir; aula e leitura, aula e nada. Diante da prata recém polida da arma, observada por cores alaranjadas das bebidas, trisca devagar feito um rosto delicado. Ao toque atravessam pequenas indisposições, soluções cautas para a repugnância constante condenatória de ser e estar vivo, imagens entre quedas e ações horríveis; e o choro que brota, é de que desejava ter permanecido no limbo. Limbo, ausência corpórea, ausência completa e permanência eterna, entre apatia e nada. Desperto por mais um vibrar, mira a tela e lê um nome que o acomete transborda afeto ao ponto das memórias translúcidas imagéticas, causarem-lhe átimos dolorosos rompantes, peito esfacela-se ao comprimir daquela representação; uma mulher que a si, não desaparece ainda que a arranque do crânio todos os dias. Limbo, ausência corpórea, imanência no nada.
Salas repletas compostas de corpos autônomos entre vozes agudas, grossas e tremeliques silenciosos incautos; cadeiras arranhadas descritas imundas, cadeiras limpas. Homem defronte ao quadro, cheio de palavras e setas, conceitos transportados por quimeras de épocas, epopeias. Verdes olhos caóticos, girando ao arremessar seu espírito em cada um que percebe, apaixonado pelas epifanias químicas; destas micro exposições, contidas no seu ser feito chaga, uma inconsistência infantil; tudo lhe é fascínio, até que chega tão perto e chora. Rasgando das costelas uma ideia, a questão ímpia neste dia vagaroso e gaguejos microscópicos enluvados pela voz atormentada, açoites diários germinados pelo dia-a-dia febril; então pergunta, convulsionando na cadeira feito gelatina derrubada na caixa de som. E a recepção do homem defronte ao quadro, das setas e conceitos, primeiramente nebulosa inquieta quase mística, desfeita e então arremessada pros diabretes inquietos constantes, que atormentaram seu surgimento; o homem então cede, passa longos minutos de si a estes olhos caóticos infelizmente nascidos a isto, sem prognóstico algum. Uma questão somente feita pelo silêncio já corruptível demais, durasse mais um dia, abriria espaço e fresta pelos ossos, ganhando vida própria.
Levando seu corpo esguio fraquejado pelos corredores, por celas e gritos borbulhados em gargantas apodrecidas. Dois homens disformes, sem rosto, dizem-no positividades e que logo vem resultados, logo sairá dali. Ao rejeitar esta condição possível, pois a memória vívida do seu ato dá-lhe machadadas constantes no ego, então sabe bem da sua permanência neste limbo induzido. Um dos homens abre uma cela sem número, a porta rígida com marcas de ferrugem, mordidas pela luz indiscreta no sol robusto lá fora. Dentro um colchão incolor pela imundice, pia e vaso, silêncio. Os dois homens então lhe empurram, dando com a testa na parede; desatam riso ecoante, evidenciando que brincavam, pois este agora permanecerá ali. Sentado respira ofegante, ondulações sonoras rasgando os espetos de luz, seu crânio pressiona-se em resposta a algo que quer rasgar, quebrar. De canto a canto, um quadrado simples e óbvio, uma caixa de fósforo como quisera quando criança; uma mesa ali ficaria perfeito, para continuar mentindo.
A saudade vai terminar isto, a irascibilidade dos seus afetos vai transformá-lo no disforme que vê ante si todos os dias. Queria ter vivido alguns dias a mais, meses a mais. A composição química, a sintética chaga deste amor, das suas vontades suplicantes. Só aos poucos, tão só que as cores da madrugada o afastam e compõe-no ao mesmo tempo, faz parte do silêncio decomposto; um silêncio que nega seu choro. Ser e nada, enfim, ser e nada pela fraqueza sistemática dos pra quês, pra quês não nascem sequer insurgentes, sequer tentam. Queria ter levado ela pros seus lugares, talvez houvesse alguma razão diante do seu fascínio por ela. Matem-no, arranquem-no de si, deixem-no descansar no limbo, de um homem encarnado na desgraça infinita de um amor.
Ver, dizer, ser. A manhã é plácida, brisas leves impregnadas nos recintos pequeninos, a varanda esquentando levemente seus desejos atípicos. Põe mãozinhas no quadrado aberto, pula e pendurado na grade, bate duas vezes a testa. Lá fora humanos vivem e repetem seus ciclos mecânicos, enquanto canalizando seu desafeto, a necrose substancial daquele amor que já não é, nem fora, desata um gemido agudo que transforma-se em um choro de um dia inteiro. A manhã plácida traz no seu bojo canivetes, facas. A diferença entre ele e os outros é mísera, quase nenhuma, sua agonia é que talvez todos os lapsos sejam químicos.
Queria ter vivido mais alguns meses e dias, queria ter visto-a abrir o mesmo sorriso diante das ondas leves quebradas na beira. Vai aos poucos transformando lamento em desgraça, pelos atos linguísticos nascentes imagéticos, hábitos torpes. Vai aos poucos divinizando nadas, divinizando quimeras dissociáveis. Vai aos poucos morrendo, vendo o ser abrindo espaço pelas veias e caminhando pela pele, deixando fissuras nos músculos. Vai aos poucos notando que amar terá sempre o aspecto condenatório, amar lhe trará limbos, infernos, imagens detestáveis. Amar então atravessa seus processos metafísicos, amar é isto, idêntico ao ser e nada das suas madrugadas. Queria ter vivido mais alguns meses e dias, ter dito talvez, dito que era ela ou nada.
Entrelaçados, envoltos, submersos. Sentindo o surrealismo prático, não químico, a raridade inevitável por não ser um corpo só. Envolto ao derretimento, palavras sistematizando-se e vindas de um lugar completamente dela, a cáustica e corruptível continuidade anterior desfeita; dela vinha somente alegria. Queria ter vivido mais alguns meses ou dias.
Chega de tentar vê-lo, chega, sua incapacidade é tão cruciante que sequer machuca-se. Prefere todos os dias cair e estar, na saudade indescritível d’algo que já está completamente decomposto.
Mais alguns meses ou dias. Meses ou dias. Meses. Dias. Verdes olhos são práticas desgastantes, tão sincero e sensível, tanta dor diária, desentendimento. Alguém sabe a verdade, é de fato esta criança. Arranquem sua cabeça.