24, AGOSTO, 2022.
JUCA E DECRETOS.
– Não acho que vou esquecê-la, infelizmente. É algo que rompe linhas lógicas e práticas, vem de supetão e me agarra entre tentáculos verossímeis, inquietos, induz resgates de momentos e períodos breves; ah, é a peste, digo, a peste! Talvez eu deva, sei lá, talvez não deva nada. Meus dias vão se tornando escassos disto, sabe? E de repente sou arrancado para lá, onde o tempo e o espaço confundem-se, somos ambos envoltos naquela brevidade subjetiva, e tendo a chorar. Ah, ah, eu. – Juca pressiona os olhos, rangendo os dentes, evitando um choro agudo – Amor, não? Isto seria amor? A insaciabilidade consciente d’algo que já está desfeito, decomposto? Como transitar? Do amor a este modo ao amor ordinário, se é que é possível? Vê? Você ri de mim, como se isto fosse repetido, mas não é, diabo! Quantas épocas dividi aqui, de mim a você, e estive desse jeito? É absoluto, é absoluto. Ah, queria outro café, mas se tomar deliro até casa; até pisar na calçada, ir pelas escadas. Deliro, então? Dá-la este corpo místico é culpa? Tenho culpa? Desgraça! Tenho horror a isso, sabe? Vou dar cabo de mim qualquer dia, em desafeto, a constância borbulhante disto vai me tornar um exausto; sim, exausto! Exausto! Desgraça. – De um tapa a outro na mesa, seguido de cabeçadas no ombro do Augusto, alisando-o com a testa – Cansado, pra quê? Qualquer coisa cai nas ficções de si mesmas. Então não a amo, é isto? Vou criando tragédias românticas para que as composições continuem? Tomar no seu cu, então. Ah, ah.
Augusto entre lampejos risórios, catatonias repentinas olhava-o fixamente. Piscava entre segundos calculados, gesticulava ante as proposições escutadas e batucava a mesa com seus dedos. Café atrás de café, ambos entravam em convulsões imagéticas introspectivas, dividiam aquele mesmo espaço criado n’algum delírio dividido. Pessoas e atendentes entravam e saiam do café, que de instante a instante parecia ser arremessado para fora da terra. Janelas injetavam um vazio próprio, escuridão letárgica. Tirou o celular, pôs ao lado do pires e tentou argumentar.
– A possibilidade de, é, você realmente elaborar estas tragédias sobre ela, faz-se tão possível quanto eu parar de tremeluzir por conta da minha inquietação. Sim, sim, eu não acho que você queira sentir, também não acho que você cria estas sensações; talvez seja só um fato. Lembra? Do problema dos fatos? É um fato que ela lhe causa isso, então ela lhe causará isso. Ah, não sei, não sei. Não dá pra saber quanto tempo, se é que o tempo lhe dará a finitude disto, talvez só ressurja entre formas constante infinitas. Ah, não, não lembro de ter passado por algo deste tipo; em mim as coisas acabam.
– Me diz que não quero que acabe? Mas eu quero! Desgraça!
– Não é sobre querer, você tá esquecendo do problema dos fatos. O fato é simples, o fato é que isso daí; ela, em si existe e lhe causa. Não se faz possível arrancá-la do seu imagético, feito um tentáculo. Vai atormentá-lo, por ser você, não acho que outros venham a sentir a este modo e nós dois, ah, sabemos que não importa se é ou não; a diferença que a ti, é deste jeito, e ainda que. – Pausado por uma convulsão mórbida, Augusto pressiona as unhas no pulso e respira ofegante. – Ainda que ‘x’, ‘c’ ou ‘d’ venham a representar e lidar de modo satisfatório, você não vai. Questão dos hábitos diante do fato, você esquece do problema do fato, peste.
– Para além dos fatos, verme, o inferno parece ser linguístico. Decretos, vivo sob decretos! Caso a diferença venha, é diferente, caso não venha, não é. Ela não só pode, mas tem o decreto linguístico desta sensação, dessa continuidade. Ah, peste, é isto? – Seus olhos brilhavam atônitos, na perplexidade de uma epifania. – Então, ah, mas não acabaria nela, sim? Não acaba nela, se um amigo qualquer decreta eu tendo a admiti-lo feito infante crendo na opinião d’um adulto. Ih, lá vem, foda-se! Óbvio que o exemplo cabe, não me torna criança dizer como os decretos a mim funcionam, sua desgraça. É só um fato! Não era tu que estava defendendo a infinidade dos fatos? Complexidade deles também, e como este problema sempre me escapa?
– Faz sentido. Tanto que não foi você, né? Ah, não foi mesmo. Mas dependesse de você, seria o que? Pois é, não é somente um problema de linguagem, mas também da escassez da sua própria linguagem. A agonia a ti é a de que, se fosse você a dizer algo, não sentiria mais nada…
– Mas é justamente isto! Peste! Não, lhe cortei mesmo, foda-se. Eu não digo ou decreto, pois isso, caso seja amor, é ao infinito; insuperável na sua própria forma. É algo substancialmente impalpável, já afastado da sua possibilidade e que ainda assim, vem com suas garras afiadas abrindo espaço entre as minhas costelas, afundando unhas no meu coração; todos milímetros de dor, compondo memórias de períodos breves divididos; dos reais, aos imaginados! Desgraça, é isto então? A condenação é totalmente introspectiva?
– O que em ti não é introspectivo? A chaga da sua subjetividade é sua própria autonomia delirante. A linguagem labirinto, sempre negativa ao real. O real é que isso, esse amor já não é possível ao modo trágico, sequer ao romântico; e o teu ser rejeita, rejeita com um machado nas mãos e grita de si a si, que caso não seja mais deste jeito, vai arrancar a própria cabeça. Mas é possível? Decapitar-se com o próprio braço, a própria força das mãos? Duvido, ainda mais tu, que é tão fraco. Ah, é sim. Patético.
– Ih, ih. É. Não sei. Seria tão pífio assim? Medíocre assim? Tá a me dizer que meu fascínio é totalmente subjetivo? Que isto tenderá aos cumes, pois é isto ou a morte subjetiva? Ah, sim. – Seus olhos injetados de cólera, pelo aspecto sinistro dessa composição. Dando com a testa na mesa uma duas vezes, estica o braço e pede mais um café. Alisa o cabelo desgrenhado e gesticula, mas não consegue dizer nada.
– A morte prática não veio a ti sequer como princípio básico do machucar. Sua opacidade autoflageladora é invejável. Mas olha, não digo ser o fim dos tempos, mas é o início d’algo muito caótico e próprio, daqueles tipos condutores de artes belas ou simplesmente artes. Se suportar, sem negar-se em completo, poderá criar; mas, é, talvez deste jeito impeça novas introspecções. Se bem que, já pensou na diferença?
– Que tipo? De conhecer alguém diferente? Efeito oposto?
– Sim, alguém capaz de arrancar-lhe tanto quanto.
O vento gélido açoitou aquela hipótese, portas abriram algumas vezes entre aquela estática prática dividida entre os dois. Atendentes confusos iam e viam observando aquela pausa temporal. Ambos se olhavam imersos naquela composição do problema, um fato líquido injetado nas suas veias. Juca intercalava tapas leves na mesa e Augusto continha convulsões minúsculas. A voz melosa e molhada d’alguém tirara os dali, para além do café arremessado, para além do submundo cósmico dos seus espíritos. Lúcia beijando a testa dos dois, abraçando o Juca como uma gelatina tentacular. Com suas roupas largas e longas de sempre, roupas para evitar um tipo de frio inexistente ali.
– Olá, íntimos, como vão? Não respondam. De novo algo em comum? Não? Algo sobre uma ideia antiga? Ah, sobre o amor? Eu estou tão cansada hoje. Recebi vários textos e vídeos, aulas acumuladas. Vou desistir. O Juca também não me envia os textos, sequer os organiza, vou desistir dele.
– Sim, ele finalmente conseguiu falar sobre o problema do amor. Muito provável que seu espírito está contaminado pelo amor trágico. Não imaginava ser possível alguém transitar pelo tempo desse jeito, tão patologicamente, sim, eu sei, é uma palavra ruim. Não vejo o Juca doente, só vejo o Juca completamente absorto em movimentações para além do seu espírito. Fica nítido de que ele não suporta viver assim, suas agonias vão intercalando noites e dias, virando infernos próprios. Talvez aí habite sua vontade do limbo, lá como ele mesmo diz, seria paz perpétua ausente completa de forma e corpo, uma ideia.
– É viciante vê-lo dissecar sua própria carne, ao menos eu acho. Se dissesse não gostar, mentiria. Cada situação aos dedos dele viram coisas nebulosas, disformes e caóticas, mesmo os minúsculos dias, mesmo o simples fato. Ah, ah. – Lúcia derramava um riso calmo no seu rosto cor de leite, dando uma tonalidade plácida naquela inquietação mórbida – Ela em si, se for quem penso, não tenderia a se desfazer da sua composição. Nunca o vi tão fascinado, juro. Talvez o caminho seja deixar corroer até parar. Ele é vivo até onde me lembro.
– Vivo deste jeito, Lúcia? Quem quereria viver deste jeito? A coisa toda ganha essa tonalidade acinzentada pois me nego, nego até mesmo a possibilidade de isto ser algo sério, é um tipo vicioso de negação, pois até isto eu nego. Viver deste jeito, né? Como se eu tivesse padecido d’algo raro! Algo criado por algum demônio hierarquicamente valioso, super sádico! Nada, sou só um idiota, um idiota que diante desta possibilidade, deste amor, fico assim. Mas não, não meu bem, não pode ser! Eu não consigo acalmar a dialética negativa. Sentir-me assim, é vil, ante todo o meu privilégio.
– Qual privilégio, meu amor? Só por não estar enfermo ou passar por algum tipo de situação valorosamente torpe? Como se nós pudéssemos valorar diferenças de torpeza. Tua subjetividade acomete-se disso e você faz parte disso. Nomeá-la ou finalizá-la não vai lhe salvar. Seu privilégio te deu alguma paz? Desmerecer vai lhe trazer paz? Me poupe, Juca, me poupe. É você e ponto.
– Ah, ah. Pois é, né? Filha da puta viciado em amputar-se. Se houver condenação prática na alma dele, é a dele mesmo guilhotinar tudo que fala. E imagina se não fosse desse jeito o quanto não sairia, o quanto não faria. Viver a esse modo atual, onde o amor é sua condição, na sua raiz é a inabilidade; sim, Juca, é inábil mesmo. Inábil a dizer, pois antes de dizer, já arrancou fora a possibilidade. Então ela disse, ela decretou, e você aí fica. Ah, foda-se. Não estou mentindo, ele sabe.
– Eu digo que isto é condição, e você vem aí que eu quis. Vai tomar no seu cu. Óbvio, veio de mim, da minha garganta. Até o próprio silêncio é mantido na minha garganta, tudo é minha garganta, tudo é meu! Inferno! Mas isso é um fato, como contrapor o fato? Se ele é, se eu sou. – A cólera abria espaço nas têmporas, fazendo-o gaguejar e agudar a voz. – Eu sou isto! Do mesmo jeito que não sou aquilo lá.
– Meu bem, nada lhe perpetua a ser de tal ou tal jeito. Podemos sim afirmar vendo suas ações, seus hábitos e alguns trejeitos contínuos. Mas diante deste fato que os decretos vieram d’outro alguém, nós notamos que você realmente não decreta nada! E tá tudo bem, se você quiser viver nas continuidades incontroláveis de amores caóticos. Eu por exemplo lhe amo aos cumes, mas isso não lhe surgira em momento algum como ela a você. Ela é algo fascinante a ti, pela semelhança de si mesmo; você não entende de onde, nem pra onde. É só o que é. É ser, como você mesmo diz.
– Então se eu entender, enfim, isso acaba? Acaba e tende a desfazer-se? Mas…, mas…
– Pois é, até um fim decretado por ti é impossível. Talvez a ponta da língua fosse ser arrancada fora, caso você mesmo dissesse algo. Sem a língua, sem a voz, o que seria? Ah, ah, pois é Juca. Tão fraco. Eu posso dizer isso, você sabe. A gente está junto há anos, dividindo essas coisas. Não vou desabitar tua cabeça nunca, assim como o Dante. Você o respeita mais, mas nós estamos no mesmo lugar.
– E se eu fizer? Você acha que ficaria bem? Que suportaria? As vezes penso que se eu mesmo fizer, morro. As vezes se não escrever, por exemplo, sinto que morro. Não atribuo valor a nada, mas se não digitar algo sei que vou morrer. Esta madrugada agora, na verdade, cheguei não eram nem oito e meia, passei das nove às onze completamente inquieto e infernal, entre lapsos de memória; corpos, rostos, corpos e rostos, todos dela. Para além, vileza, derretimento e um tipo de calor específico febril; inferno, daí levantei, levantei. Ah, ah, sentei e escrevi. Foi efeito d’algum comprimido para dor. – Juca apertava as mãos da Lúcia, alisando o ombro do Augusto com a testa. Tremeluzia entre átimos oscilantes, cada palavra lhe vinha do âmago, intercalada e exibindo agonia nas suas expressões. Esbugalhava os olhos e erguia suas sobrancelhas violentamente. – E o efeito é breve, breve. Parece uma alquimia viciante, algum tipo de condenação. Condenação, sim, pois é. Eu, eu. Fico ali tão enfermo, não há salvação para aquilo, não há! Como dividir aquilo, desgraça? Meu deus! E então escrevi, escrevi algo breve e lá dos meus ossos. Sempre fico ali, sempre vou para lá, talvez deva desistir.
Luzes azuladas mescladas entre verdes, cinzas, luzes derramando-se pelas frestas da janela. Portas abertas convidativas, atendentes que pareciam submergir na introspecção ululante dos três últimos sentados. Tanto que estendiam o horário de fechamento, para deixa-los dizer, chorar. Na última palavra dita, pareceram ter sido perfurados ou alvejados por algum projétil largo, de baque seco. Caíram naquele vórtice próprio, onde a calmaria rara da Lúcia se tornava escassa. Arremessados novamente para outro canto, sem tempo e espaço, somente cores reverberadas.
– Desistir não é uma opção, meu bem. Vamos estar aqui quando voltar. Decretos ou condenações são voláteis, corruptíveis e dolorosas. Talvez deva dar só mais um tempo. Espere, viva e vá aos poucos criando nestas noites em que é isto ou a morte.
– Pois é, peste. Não vá. Caso vá, eu mesmo lhe desenterro para arrancar sua cabeça; por enquanto vivo não ter feito, como todas as vezes que pediste. Lhe amamos, coisa.
– Caso vocês sumam, definitivamente padeceria daquele tipo pior ainda de forma. Amá-la causara isso. Perdê-los, seria o absoluto. Seria a morte. – E rira, mesmo manchado por lágrimas condenatórias.
Envoltos naquela especificidade palpável, alquímicos eram naqueles contatos. Juca derramava-se nas suas peles como uma cor de tinta, derretida e suplicante, tentando atravessá-los para lá ficar. Por ele, já teria se desfeito em amor, por ele o para quê sempre acaba no amor. E nestes lapsos de agonia, sem os dois ou três, sem estas aparições; teria já ido, feito um destino trágico, completamente seu.