SOBRE NÓDOAS.

04, SETEMBRO, 2022.

SOBRE NÓDOAS.

Algo absoluto consome o espírito, arrasta-se pela pele; algo inominável, substancial. Verdes e plácidas investigações rotineiras visitadas por dedos insólitos, interrogativos; em seu bojo um ruído cáustico arranha os tímpanos, injetando-lhe introspecções mórbidas. Malogrado parasita transitório vai até uma esquina, vê a ladeira deslizando por casas e postes, lá embaixo um homem caminha de ponta a outra das calçadas, respirando aliviado os tragos de um cigarro azul. A saída veio-lhe como resposta a um sentimento indigesto, choro lapidado e forjado através das semanas, organizando pontes e correntezas agravantes que na manhã deste dia viera romper barreiras e grades, expondo-o ao absoluto. Para quê ir ou para quê ficar? Questões pífias diante das contorções; cama que lhe rejeita, imagens que lhe expurgam e este dia tem o mesmo aspecto daquele outro, dos tantos outros em que quisera romper algo das costelas.

 As mãos tremeluzindo com piscares agressivos das lâmpadas, lá fora contam experiências, lá foram esperam-no. Vê disformia dos olhos claros injetados de cólera, homens lavando mãos entre resmungos e mau-hálito, anedotas simplórias. Vê nitidez pela primeira vez nas horas letárgicas deste dia, seus lábios avermelhados e cenho franzido, calmaria semicerrada nos sorrisos automáticos induzidos por especulações imaginativas; afetos ligeiros, ligeiras propostas inquietas, ainda que somente de si a si. Uma mancha rompe a ternura ligeira, puxa-o para fora e dá com a mistura dissolvente das cores; elas e eles abrem aquele sorriso abstrato, consumível e manifestado pelas comoções repentinas de carinho, recebem-no entre abraços.

 A razão de estar e ir, razões. Caminha pelas frestas, derrete para entrar nos cantos. Mancha peles alheias de si, irrompe silêncios logrados, entorpecendo causas calmas. Abre cumes nos espíritos, pela graça profana de ser. Cauto pois nota a tragédia cômica e escarninha das suas palavras amordaçadas no surgimento; então espera, condenado ao desespero. Já quando prestes a rasgar traqueias e cordas vocais, borbulhando um choro detestável, levanta; vai até algum canto específico dizer formas específicas. Caso não vá talvez morra. Caso desista, talvez morra.

Erga-te, fraco, erga-te! Quais investigações lhe tirarão desta premissa cáustica? Quais lugares vão introduzir você na vida? És isto, ser? Chicoteado por rostos disformes, corpos disformes, mirantes e ilusões depreciativas; cheias das condutas desgraçadas. Nenhum, lhe provo, nenhum de fato maldiz! Nenhum! Mas vê tua carne amontoada nos cantos dos quartos, sendo mastigada devorada por homens e mulheres, tal qual oferenda! Ah, vamos discutir sobre ti, mas não queremos esperar a tua morte; tua morte será a razão prática para que eu esteja liberto, liberto de lhe observar corroendo-se diariamente. Mas, mas nada!

 O sol invade o quarto, desmanchando-se na pele exposta, ardendo aos poucos e despertando a este dia. Ela mexe aos poucos os dedos, as mãos, os olhos dando socos nas pálpebras até que exausta expõe verdes bolotas acinzentadas. Estica-se envolvendo suas pernas nas dele, seus braços nos dele, costelas e ossos derretendo aos poucos entre si; risos harmônicos e incautos, risos d’algo breve. A robustez da sensação arranca-lhe uma parte do corpo, por instantes esvanece completamente da premissa do que viria depois daquilo; a manhã intercala disposições autônomas e práticas, germinando pulsões puras, razões fascinantes de permanência. São microscópicas metamorfoses inauditas, inomináveis; aos contatos substancias de si a ela, dela a si, manifesta uma cor misturada verde-cinza-verde-castanho­. Um para quê mágico escorrega deste contato, espetando cóleras subjetivas, respondendo-lhe uma questão mor, uma questão maldita: para quê, para quê qualquer coisa?

 As brevidades praticáveis são incongruentes ao modo de ser, expõem pequenas traduzíveis mesclas; são constituintes humanas, e cada átimo desse chicoteia sua percepção, a dúvida e medo não só da semelhança, mas do óbvio fato que a sua diferença é por vontade própria. Está submerso em si, ouve constantemente das almas alheias, que não só está, mas deveria sair. Corpo como objeto, corpo como mostrável e redutível aos princípios básicos do prazer. Angústia daquela mistura colorida desfeita, do para quê passado, antigo. Seus dias vão sendo cosmos próprios e o imaginativo um rejeitar completo. Pois, seu horror é contido na epifania de talvez, ambientar-se e ser, sofrer a este modo é vontade, um tipo de virtude malograda.

 Vê a mim que lhe sou esta nódoa no espírito, nas tuas tentativas. Vou retornar, aos sons calmos de um amor sublime, deitar ao teu lado, expondo feridas que não se curam. A nódoa, amor, de perpetuar os seus ciclos e deixar que toda a sua chaga não lhe tire a vida.

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