SOBRE NÓDOAS (2)

05, SETEMBRO, 2022.

SOBRE NÓDOAS (2)

 Verde, a tua calma há de esvanecer, verá;
 Os termos desta insólita forma,
 As condições nefastas
 Vamos tirá-lo de lá, dar vida;

 A calma breve, dos seus requintes,
 Teus olhos penetram as almas,
 Mas descansa no bojo de si;
 Parasita a própria forma,

 O dia nasce arrastando grilhões,
 Ecos ruidosos, lamentos chorosos
 Memórias intercaladas por lapsos
 Nas tuas pequenas súplicas;

 Odes ao desespero, Verde, odes microscópicas,
 Ao cosmo emanado das tuas tentativas,
 Dos gritos contidos em convulsões asquerosas,
 E ante o eco desgraçado da sua chaga, grita de si a si;

 Grita no retorno ao infante, aos ossos corroídos,
 Grita pelo gosto ameno escorregado da voz alheia,
 Dela que ao dizer, manifesta em ti, estes labirintos
 Mas grita, Verde, pela traqueia presa amordaçada

 Este silêncio hediondo escorregadio, lapidando sombras
 Viscosos tentáculos pelos cantos, corredores e quartos;
 Grita por entre as mãos que lhe sufocam, grita e mantém
 Tudo rastejando dentro de si, borbulhando feridas abertas;

 Chorar seria a escassez prática, a súplica rejeitada, o inadiável,
 Chorar viria a guilhotinar qualquer prognóstico,
 Chorar tornaria isto a condição própria, seria então o que é,
 E caso fosse, Verde, arrancaria a cabeça

 Lá, nesta abertura entre frestas das costelas empoeiradas,
 Lampejos químicos ásperos, agarrando introspecções,
 Visitando quimeras robustas insensatas,
 Diante dos diabretes mesquinhos através dos olhos;

 Lá, vislumbres transcendentais plácidos, rosto e olhos,
 Ela que lhe puxa pelo âmago, junta na pele feito tinta,
 Ela na distância de metros, centímetros, segundos e horas;
 Ela a quem você, de novo, Verde, não diz nada;

 Lá, por curvas rompantes nos labirintos místicos,
 Vírgilio descansa seu corpo em uma parede ao ver-te,
 Abre sorrisos desesperados, tenta dizer, mas nestes átimos
 Tua percepção esvanece, teus olhos escurecem, há somente um ser;

 Ela, Verde, que lhe abre espaço entre os espíritos,
 Ao absoluto da tua virtude e vontade,
 Ante qual nenhum humano lhe salva, lhe tira,
 Ela que surge ao delírio destoante, dissipador nestas madrugadas;

 Aberturas no teto atravessadas por luzes azuis,
 Transeuntes mesquinhos nas suas medíocres condutas,
 Amigos gritando teu nome, Verde, na distância de épocas,
 Súbitas razões de estar e permanecer, das quais você grita: para quê?

Gritos cautos sobem os degraus deste novo lugar,
Rostos intranquilos expondo sorriso desesperados nas janelas,
Madrugadas esfriando os ossos, árvores tremeluzindo,
Urubus sentados nos fios do poste, ante a varanda,

As culpas manifestam-se, rejeitam-te,
Vão desorganizá-lo, caustificar-te 
Lembranças são cumes recentes,
Vão arrancando pedaços da tua carne;

Ela, lá fora a lhe esperar, descansando o corpo esguio
Você estava desperto quando lhe dissera?
Quem estava ali, quando viste?
Era você?

Os ecos chorosos amontoam-se como corpos seus metamórficos e mortos,
Pelo quarto, ao redor, descansam
Troca ossos e músculos, pele,
Rejuvenesce três anos enquanto chora e expurga escamas, dores e medo;

A água borbulha, entre bolhas explodindo continuamente respira aliviado,
Logo aquilo vai abrir espaço entre as células, pele,
Você estava lá quando lhe dissera?
Estava, Verde, quem era lá?

Sublimes contradições dão arquiteturas vis,
Anos contidos em lapsos intangíveis,
Anos corruptíveis e dialéticos,
Cá, Verde, nesta condição de ser;

Teu rosto que formara ontem, já não é,
A pele derretida nos lados da pia, junta-a,
Deixa escorrer pelo ralo,
Feito teu espírito.

Quem abre espaço nesta tua carcaça,
Ela que rompe frestas, agarra com unhas e dentes,
Teu âmago absoluto, rejeita qualquer princípio de morte;
Nódoas, são as nódoas que lhe mantém cá, Verde, nada mais;

Respirar deste espaço opaco, luzes tentam atravessar paredes e grades,
Escorregadio misturado aos brilhos metamórficos deste nada,
Sombras rarefeitas e escassas manifestadas somente ali, no átimo
Em que tão decomposto e semelhante ao esvanecer, grita para que enfim vá;

Verde, desaparecer a ti é impossível,
Nódoas e formas, ela e ele vão lhe trazer
Para perto,
Para grudar na pele feito tinta.

Erga-te, erga-te
As vozes e formas vão lhe trazer alimento,
O mundo está aí para ser devorado pelos teus olhos,
Aprender a ser como lá, como eles, é tua maldição;

Pelo contraste, pelo desespero das tuas tentativas
Verde, faz mais quando permite submergir nos delírios,
Faz, pois é a chaga explícita, do rosto que se desfaz e refaz
Contínuos fluxos de absurdo e medo;
Ainda que arranquem de novo mais uma das tuas faces,
Que aproxime o último grito absoluto, envolto nele e prestes a sucumbir;
A vida rompe o silêncio agoniado das mortes práticas, vem com um eco seco
De amor, ainda que seja um somente teu;

A tua condenação, Verde, é ante os choros infernais das vezes que amaste,
Tira não só vida, mas fica, para guia-los como ecos hediondos próprios,
Figurações letárgicas da própria soberania subjetiva, onde o amor decomposto
É idêntico aos teus rostos e corpos metamórficos, são infinitos;

Verde, tua agonia é não esquecer,
Trazê-la pra perto, para sentir
Feito a água que queima tua pele,
Feito o arder ásperos das substâncias.

Amar ainda que os cumes sejam intransponíveis e eternos,
Amar pois o mundo está aos dedos, aos olhos e a ti,
Como chaga do que precisa necessariamente dizer,
Ao jeito e a tua forma, um tipo de condição prática.

Os dias trazem no seu bojo anos inteiros,
A verdade é que
Ainda é cedo
Para dizer qualquer coisa.

Restos de pele sua,
Restos das imagéticas ideias
Restos dos sonhos mágicos
Restos de todos os cenários possíveis,

Restos condutíveis
Restos redutíveis
Restos miseráveis
Restos de nada.

Quem é você, Verde,
Para dizer
Qualquer coisa?
Quem é?

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