06, SETEMBRO, 2021.
ALEGRIA.
Teu olhar penetrou minha alma, fiquei submerso Me contorço de prazer com a lembrança dos teus lábios Visito sem pressa as memórias recentes, entorpecido Cada palavra que surge dos teus dedos, me envolve Ficaria ali por uma época inteira, divagando sobre as frestas Cada curva da tua linguagem; Ver-te, foi como atravessar uma porta e cair num delírio O imagético que pulsava em cada centímetro de conversa A sobriedade que eu afastava com descuidos e lapsos Deixava lentamente o afeto transbordar pelas minhas veias E os dias que foram tornando-se pontes para aquele momento De cê vindo, chegando, como um sonho; A distância curta de uma cadeira a outra Meu peito que era pressionado pelas costelas A noite que ecoava um só sentido nítido E minha língua tagarela conduzindo formas O caos das minhas memórias Junto dos seus dedinhos, feito magia; Eu que derretia com a imagem do seu pescoço Com o teu olhar que me hipnotizara E ali então, navegava de onda a onda Feito o sonho que ao pisar no lago, transformara em mar As solicitações, idealizações, contornadas, desmistificadas Diante do teu gosto, do teu cheiro, do teu corpo; Os dias fizeram do afeto uma forma A noite afastara tudo que não nos era Os burburinhos, as ideias fora daquele ambiente Daquele oceano que expandia-se a cada contato da tua pele Na minha, da tua boca, do teu olho Ficaria ali, não desgrudaria do teu pescoço; Em pé, entrelaçado Impregnando-nos de cada um Tentáculos que viram a boca, os braços, as curvas Tentando eternizar na memória o gosto, o dia O afeto que envolve e dissolve um no outro E ao tentar adormecer, ser alvejado numa constante saudade.
27, OUTUBRO, 2021
SURREAL.
Meus delírios movimentam-me Acomete-me este teu traço Hipnotiza-me o teu olhar Descanso, tento, sempre mergulhar Passear pelo mar que vira, Naquele sonho, Passear e atravessar tuas ondas Ver de perto cada centímetro teu, Tento em todas as vezes, derreter Na tua pele, adentrar nas frestas dos teus dedos Tento incauto, deixar a sensação fazer-me um Movimento, como uma cor que nasceria dali; Surreal, pelos movimentos de cada encontro Faz da saudade um borbulhar Um cair onde quer que eu esteja, Um contorcer repleto de alegria; Despenco as vezes, nos sonhos, Em ideias que rompem a razão, Permito que tomem forma, por instantes Pelas imagens que formulam-se na córnea, todas tuas; Cada vez que teu olhar toca o meu, Sinto-me atravessado por um delírio, O ambiente parece borrar, as luzes ganham uma nitidez única E o teu gosto me atravessa, compõe um sentido; Sentido que possui vida e forma, Escapa do meus dedos, qualquer tentativa de controle Permito como algo absoluto, inegável De que cá e ali, estive completamente submerso; Há em mim cautela? As interpretações levam-me a curvas infinitas Labirintos de lógicas, que alteram-se continuamente, Então dentro do afeto que me morde, permito ser; Ser isto, como uma metamorfose de ideias que surgem, Pelos dias e guiadas pelo afeto, Sem a pressa ou exigência, sem medo, sem caos, Como algo que é, me transforma, Adoro os detalhes, O espírito que percebo, Que me devora, Me apetece ao êxtase, Noto a fantasia dos sonhos Noto pelas composições e gostos, Como me mordem, me trazem pra perto Como algo que sempre é, pelo que é; O caos das minhas memórias, como o tempo Sinto-me percebido cá, E fico, por isto, pelo surreal que observo aí, E fico, numa contínua explícita saudade.
25, DEZEMBRO, 2021
AINDA ESTOU.
Impiedoso o teu olhar Metafísico, intangível Transporta-me até lá Submerso na tua pele que derretia Entro entre pequenos entraves cósmicos Arranho meu corpo, detestando o fato De não ter dissolvido ali, eternizado Nesta imagem que será delírio contínuo Não há escape, sei, não há desejo É um tipo de forma, composta pelo ato Fato excruciante, detalhado, do conceito Estive aí, por razões que escapam-me Volto sempre, incauto, não desejo sentido A tragédia foi por dias ter tentado alcançar isto Decodificar o motivo de cê me ter inteiro, alma Espírito, e a continuidade do existir, Estar resumida, reunida, nos dias que nos fizeram Cada centímetro de prazer, riso O caos completo da minha existência, No toque dos teus dedos, era-lhe Vou retornar, sei disto Vou esquivar-me, e caso te veja Lhe direi que não posso, por ou não ser A metamorfose surreal que cê me introduzira Rastejo pelas minhas memórias, Sentidos práticos de um futuro distante, Dissociações, despersonalizações, Induzo, traduzo, entorpeço, Mas entre os cortes, Delírios, chagas Diante de qualquer mirabolante desgraça, Não há substância que de fato me expurgue, Na minha memória, volto Até todas aquelas noites suas, Das sensações germinantes de ideais mágicos, Dentre os contextos, meu silêncio entrecortado, Os comprimidos que se desfaziam, E na composição, de tamanha peste, Ia até o teu encontro, guiado, Por um sonho que hoje escancara-se, O afeto nítido, de que estive Estou, ainda, nas ondas do mar que virara O oceano que atravessa-me, por ser Azul, e a palavra simples, que se espalha pela minha pele Vinda da tua boca Um eco místico E o absurdo líquido De que ainda estou lá, Vão passar dias, meses Imagem, lembrança Vão arrancar pedaços da minha alma, Não se desfaz assim, devia, juro Ter me dissolvido na tua língua, Pele, Ter ficado, Eternizado detrás das tuas córneas Mas cá, em mim Sei, O tempo é cruel, Cê será forma e alma; e não mudaria isto, Saudade que desliza dos meus olhos Comprime minhas costelas Saudade por ser, Estou aí ainda; fico, não quero entender, curar, Quero ser.