EM MIM./DENTRO.

18, SETEMBRO, 2022.

EM MIM.

1. 
Estive lá, estive
 Vi de perto
 A pele 
 O corpo

 Somos a mesmice 
 A identidade 
 O raso
 O cáustico

 Respire,
 Transborde-nos
 Tente dizer
 E falhe

 A decomposição
 É aqui, eterna
 As vistas turvas
 O infinito

 Nada lhe escapa,
 Nem lhe tira,
 Tudo cá lhe rói
 Lhe rasga,

 O risório é vê-lo
 Tentar
 Vê-lo cair
 Aos prantos

 Na idêntica parte
 Infante
 Detalhe contínuo
 Nas espirais, destas tentativas.
2.
 Os teus olhos, os teus
 Olhos, 
 Teus olhos ficaram aqui
 Eternizados na cólera,

 Teu desprezo, tua lógica
 Tuas odes e quedas
 Epopeias
 Gestos

 São a ti, somos a ti
 Este vínculo 
 Esta junção
 Dos cosmos

 A minha inabilidade
 E os teus dedos
 Tua língua
 Tua imagem

 Imagético, detestável
 Simples e calmo
 Pois a mim, 
 A ti, o mesmo corpo.
3.
 Cauto, o que sente
 O que lhe habita? 
 Quem há de vir
 Ou chegar,

 Vamos assistir 
 Esta queda, de novo
 Vamos deitar ao lado
 Do teu corpo;

 Calmo, resquícios disto
 Do princípio
 Neste retorno
 Nesta espiral,

 Ver, ver de perto
 Ao espelho, o reflexo
 Do que cabe somente aí,
 Dentro, amor, dentro

 De mim, de ti
 Onde vamos abrir teu corpo com as unhas
 Suas costelas, seu âmago
 Nos é, inescapável

 Amor, acorde, respire o ópio que lhe damos
 Respire-nos e rejeite,
 Tente fazê-los não nos ver,
 Quem iria lhe crê?

 Oh, não tenho pena de ti
 Não perderíamos tempo
 Nos labirintos da tua alma
 Criamos as curvas.
4.
 A brevidade cáustica deste dia
 Desfeito entre meus dedos
 Como água
 E areia

 A brevidade latejante, das minhas indisposições
 Do meu caminhar aflito
 Não reconheço este dedo
 Esta mão

 A brevidade meticulosa desta madrugada,
 Onde teus olhos decompõem-se junto da penumbra
 Lhe vejo corroer,
 Decompor,

 Sei que é o último dia,
 A última estadia junto,
 E cá, nos tentáculos que manuseiam
 Já sabiam, e hoje vão rir.
5.
Tragédias precisam d’algum sentido, amor
Tragédias não são esta coisa, 
 Este detalhe
 Esta condição.

 Crie, crie se puder
 Tente, se quiser
 Verá, não nos tira
 Crie algo que não nos é.

 Todas as noites, desde a primeira
 Em que lembra, que consegue
 Lembrar, todas elas juntas
 Somos eternidades aqui,

 Desde o choro agudo contido no morder dos dentes,
 Dos lábios,
 Na primeira ferida aberta, 
Do sangue escorrendo pela cabeça, no queixo, no sal.

 As vezes um átimo, um minúsculo sentido
 Nexo, lógica, misticidade
 Agarram-no para longe, onde o reflexo não corrói
 Onde vê-se formado como corpo,

 E dura alguns segundos,
 Dura o tempo de a lágrima nascer,
 De um feche de luz entre frestas,
 É raro, não se repete, a alegria está em decomposição.
6.
 Vê-lo aí, 
 A água perfurando teu crânio
 Vê-lo aí,
 Nas convulsões;

 A quem mostrar ou dizer,
 Que hoje,
 Como ontem,
 Os tentáculos trouxeram

 Movem-no
 São-lhe todos os princípios
 E isto, amor
 Que diz através da tua língua
  
É a composição química
 Reações químicas, pulsantes
 Desta tua simples
 Ruína.
7.
Vê a mim
 Que habitado
 Respiro, o enxofre
 Deste meu corpo maldito.
8.
 Há amor
 Na minha linguagem que aos poucos se torna rasa
 Se torna pouco
 Se torna?

 Torna-se neles, amor
 Neles,
 Pois lhe deram
 Tudo.

18, SETEMBRO, 2016.

DENTRO.

Há um passado sarcástico na caricatura do homem
Sempre torto, com os olhos de um peixe morto

Verdes ou azuis, sempre tão tocantes
Nunca esteve distante de qualquer suave sensação

Espectador perfeito, para uma peça ridícula
Completa por atores já mortos, almas penadas

As roupas são uma mistura de cura e dor 
Não fazem nada, estão parados lá em cima

Sente um aperto no estômago, que caminha até a cabeça
O cérebro com sua capacidade infeliz, tornou o dia santo

É um momento raro na calma incessante de um suicida
Disposto a assistir qualquer coisa que o motive

Mas não há nada no palco, somente vultos de sua magnitude
Passeando, reproduzindo um roteiro jamais escrito

A platéia é sua cabeça
A peça o que sobrou de sua destreza

Ah, percebeu
Infelizmente tarde

Há dentro dele centenas de possibilidades
Mas o dia cessou, a peça acabou e não teve

Um começou belo
Ou um fim esperto

Só acabou, com um gosto ruim
De algo que jamais deu vida

Como tudo, quase tudo
Sempre algo não nasce, por estar dentro dele.

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