DESGASTE.

24, JANEIRO, 2023.

DESGASTE.

 Observa-me cá, de soslaio, basta um lapso; vê aos poucos o derretimento deste rosto junto dos ossos, juntando-se à poeira. Aos poucos, vou me tornando algo áspero e asqueroso, um asco milimétrico que de ponta a ponta dos labirintos das veias, me transforma nisto; neste desespero, nesta causa infinita; um rangido latente, um ruído torpe.

 Em outros dias, sentava-me e mordiscava os dizeres quaisquer, nas rotinas transparentes dos viventes ao meu redor. As luzes agudas maltratando peles, injetando cores nítidas aos olhos alheios; sentado nos bancos, sentado em qualquer instante, manchava ou atravessava-me disto, destas observações fustigantes, desnecessárias. N’algum dia vi que podia caminhar desatento, caminhar mirando meus pés pequenos saltando calçadas, esquivando de linhas de cerâmica; injetando neste ir a qualquer lugar, um vislumbre inquieto de uma ideia que não viria a ser nada; descobri ali que preferia isto, a ser manchado pelos olhares. Aqui todo transeunte não atravessa, todo transeunte me lembra algo; uma nostalgia de um futuro intangível.

 A hora escorregava pelos degraus, latejando e deixando frestas; vinha açoitando os corrimões, expurgando expectativas anteriores. Sobrecarregava os cenhos, empurrava homens e mulheres ao quase escorrego, a quase queda. A hora letárgica como um corpo sonâmbulo perambulando por ruas e corredores apertados, pressionando crânios, têmporas; fazendo latejar os ossos, asfixiando aquele instante plácido, como a memória de uma agonia; a hora nunca vinha neste recinto como simples presente tornado passado, vinha como um desespero. Desespero contido nas horas serem inteiras rotinas. E estas frestas em degraus, corrimões derretidos, eram amostras do que o atraso em si era, o atraso era uma ruína.

 Eu lhe vim, visto que não tinha outra forma. Ou vinha ou sucumbia ao deleite metafórico de não ter vindo. Ao deleite do rancor, da mágoa apertada, do choro contido. Caminhar até esta porta, bater uma duas vezes, vê teu rosto manchado pelas nostalgias, pela saudade; ver um rosto amassado pela mistura das cores, como um borrão encandeado. Não vi algo hoje ao lhe ver, senti somente medo; senti a decomposição de uma ideia, de um prognóstico desfeito.

 As coisas devem seguir algum tipo de rotina, algum tipo de catraca; não existe nenhuma diferença no tempo, ao menos, continuamos explícitos animais. Contínuas exigências delirantes, vontades suplicantes que as curas sejam as mesmas. Que não somente a minha vivência lhe salve, mas seja verdadeira. Trocados, montantes; rotina que escalda a pele, rotina que arremessa meu tempo a um lugar que viver está lá orbitando, mas eternamente distante dos meus dedos.

 Burocracias vertiginosas, labirintos; há uma pergunta constante na chaga do espírito, que é o para quê. Vertigens ou vislumbres, andarilhos exaustos das suposições, ideações entre incertezas e quedas, a angústia substitui a esperança, visto que não há mais você no tempo, somente o que se pode fazer; e diferente de outro tempo, fazer agora é sustento e vida, há um desaparecer completo no ato. Você é aquilo que faz para sustentar o que é, e acaba no que faz. Para onde então caminha o futuro de estar presente hoje, se toda aspiração, todo ápice da vida está contido na possibilidade do que eu faço, prover. Prover, dinheiro, prover, capital, prover isto que é a vida.

 A dívida, se é que há dívida religiosa ao divino, donde o barqueiro viria bater na porta e esta calçada quebradiça, cheia de frestas de plantas miúdas ruiria transformando-se em um oceano neblinado, acinzentado pelos gemidos aflitos das almas perdidas. Dívida, se este barqueiro cauteloso esticasse seus esguios dedos cadavéricos longos, chamando-me como se cumprisse uma ordem inadiável, inevitável. Dívida, se eu sentisse não só a razão pura ao ir a seu encontro, mas sentar na incômoda embarcação, construída com madeiras escuras e musgosas, em ambas as pontas curvas longas erguendo círculos lapidados, cruzes e caveiras. A cidade vira um emaranhado de ruínas apodrecidas, cimento, concreto, árvores tomando as mesmas colorações, juntando-se uma a umas como ordenadas e tremeluzindo como ondas, neste oceano que é uma dívida.

 Alarmes soaram deixando agulhas caírem do teto empoeirado, alvejando olhos fechados. Desperto, mãos esticadas tateiam cômodas e mesas buscando uma navalha. Não encontra, levanta-se ainda semiacordado, escutando um pontiagudo ruído contínuo, piscando, piscando. De pé esquiva um animal deitado, bate com a unha no cabo, manuseia cauteloso, leva até o lábio e baixando o nariz funga; sente um gosto específico de lâmina, de corte. Arremessa ainda com olhos cerrados na porta que fica defronte, ao baque seco, o som pontiagudo cessa; uma cortina se abre e um círculo de vidraças miúdas ganha vida, lambuzando o quarto com cores azuladas, esverdeadas, prateadas. Na cama há uma mulher descansando, na cerâmica não há nada. Abre enfim os olhos e soltando um gemido, coçando as têmporas respira aliviado, como se ver lhe fosse substancial.

 Devir.

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