VISITAS.

VISITAS.

22, FEVEREIRO, 2023.

Juca estava cabisbaixo, encostado na parede; seu cabelo desgrenhado derramava-se pela testa. O silêncio beliscava a pele misturando-se aos ruídos da rua e dos andares acima e abaixo de si. Não se mexia há mais de uma hora, retendo um choro moído, calculado. As semanas vinham se tornando convolutas, depois de um desentendimento. Relações humanas levavam-no aos cumes, arrancando pedaços do seu imaginário. Não entendia sequer a razão daquele suposto fim, mas a si era real, pois ante um decreto, não sabia mais nada além de segui-lo ainda que tivesse sido um desentendimento. Dizeres sempre lhe foram imperativos, incapaz de notar algumas conotações ou disparates, tudo era sempre igual, tudo era sempre um decreto.

 A maçaneta desceu devagar junto do girar das chaves. Um homem parou na abertura, observou cada centímetro da sala e depois do girar violento dos olhos abriu um sorriso tímido. Trajando uma camisa preta debaixo de uma jaqueta quebra-vento vermelha, calça jeans surrada, tênis preto; óculos quadrados e largos, um nariz torto e lábios finos. Observou o Juca por uns quinze segundos até que decidiu entrar naquele espaço opaco e esvaziado. No centro um lustre segurava quatro lâmpadas, donde só duas funcionavam corretamente e as outras piscavam quase sincronizadas. Janelas cobertas por panos, papéis alumínios e frestas deixando passar agulhas de luz. Não estava tão empoeirado quanto pensara, parecia ter passado por uma limpeza profunda. Acocorado tirou uma lanterninha miúda do bolso da jaqueta, ligando-a; passou a luz pelo corpo inteiro, ao redor dele também. As coisas pareciam normais. Por que estou aqui então?

 Sussurros entrecortados tremeluziam pelas frestas, choros agudos de infantes; mover de pés, passos nas escadas. Sinfonias agoniadas transitavam por todos os cômodos. Dessincronizando-se, parando a tentativa de entender o homem ali imóvel, pôs-se a revirar o lugar. Na cozinha panelas limpas descansavam no fogão, geladeira intacta cheia de mantimentos; na pia somente uma caneca contendo dois goles de café. Voltou ao corredor, uma porta cinza entreaberta projetava uma cor menos opaca; não ouvia nada vindo dali, somente um mormaço específico. Abriu-a pressentido algum gato assustado, mas deparou-se com um novo silêncio; uma cama encostada, estante de livros e uma enorme janela redonda coberta. O ar não adentrava a no mínimo dois dias, dando ao mormaço quase uma forma viva. Abrindo a cortina com violência e piscando velozmente os olhos pela ferocidade da luz; o ar ainda que quente o fez sorrir. Lá embaixo um ou outro carro passava, calçadinhas miúdas e transeuntes escassos. A janela formava uma mandala com as frestas de vidro.

 Satisfeito enfim, voltou à sala; tirou da jaqueta uma faca prateada, com o cabo deu dois toques na testa suada do Juca.

– Olá, grande homem, como tem estado? – Sua voz era aguda e cortada por alguns átimos roucos chispados. – Pelo cheiro aqui e o mormaço suponho que ótimo. Mantendo as aparências ao menos, a sala e cozinha sequer uma mancha. – Dando outro toque, agora no topo da cabeça. – Vamos, reaja. Sabe por que vim.

 Erguendo o pescoço devagar como puxado por correntes, abriu os olhos e não pareceu assustado; diante de si, mas lhe parecia um gato que enfim despertara do que um homem brincando com a faca prateada pausando-a entre os feixes de luz.

– Você sabe que não sou o homem mais sociável. – Disse com o hálito envolto por hortelã e canela. – Porém, é nítido que chego a algum limite. Ah, não sabe um terço, Dismas. Estava com saudades. Vai querer café? Sabe que só eu sei fazer aquele com o gosto do mundo. – Bagunçando os cabelos, sorriu entusiasmado – Pois é, me encontrou assim? Ih, mais uma vez. Ah, ah. Logo passa, acho que estes níveis sempre passam; ao menos, espero né? Ah, ah.

 Dismas estava acostumado a vê-lo daquele jeito, disperso, desconexo e deslocado. Sempre recluso, inabitável. Ainda que presumisse a incapacidade dele se machucar diretamente, vez ou outra era atravessado por um desespero; seu coração chacoalhava dando mordidelas nas costelas, ecoando um ruído áspero de que enfim o encontraria caído e estirado. Não precisava que fosse morto, mas paralisado, consumido por todas as inquietações.

– Faz, preciso mesmo. Talvez você mais do que eu. Sei que reconhece quem entra e sai da tua casa, mas eu poderia ter te matado aqui facilmente. Não que quisesse ou fosse, mas na minha rotina, queria eu encontrar casos assim tão simples e dispostos a morrer. – A palavra lhe escapou por desatenção, morte não era o mais forte dos atributos ali. Juca era sensível a isso. Podia considerar algo sério. – Desculpa.

 Recebeu somente um olhar penetrante, durou uns três segundos lentos, mas tornou-se logo um riso eufórico. Na pia limpando uma cafeteira de alumínio pequena, colocando o pó usado na lixeira; indo ao armário com passinhos ligeiros, abriu um recipiente redondo e o cheiro contornou as curvas da cozinha e lambeu o rosto do Dismas. Notas de caramelo, canela. Duas colheres, girou a cabeça da cafeteira italiana acendeu o fogo e enfim com os cotovelos no balcão.

– Agora é esperar. Mais uns instantes ou alguns minutos. Não entendo muito bem do tempo. Anos usando essa mesma máquina e nunca quis saber quantos minutos levam. Participo do fogo, do borbulhar, do borbulhar e do fogo. Ah, ah. Vez ou outra esqueço, volto e está com gosto amargo ou queimado. Vê? É como uma função.

 Surgindo na metade da fala, relaxando o corpo na quina. Tirou a jaqueta, colocando em cima de uma poltrona.

– Sim. Você sempre foi desse jeito. Devia dar-se o luxo de tratar esses objetos como objetos que são. Eles não são vivos, você sabe, né?

-Ah, ah, sim. Dismas, eu sei. Mas é que tenho horror a me tornar uma máquina. Se começar a presumir e manusear tudo ao meu redor com total controle, me tornaria idêntico ao mesmo objeto, não? Ah, ah. Meu amigo, quanto tempo?! – Juca ia ganhando mais vida a cada palavra. Como se não somente estivesse despertando, mas tomando conta de quem estava ali. – Eu juro que não lhe esperava hoje. A limpeza fiz ontem com a Lúcia e o Dante, bebemos, limpamos e bebemos de novo. Eu sei que não crê, mas ainda não paguei a ninguém para limpar isso aqui.

– Fico feliz que ainda os mantém por perto. As vezes penso que vai ficar enfim completamente só. Mas então lembro de quem você é.

– Eu não os trago pra perto para me salvar. Acho que eles me amam. Amam mesmo.

 Um chiado miúdo iniciava, virando a cabeça feito um gato e esticando os dedos para levantar a tampa da cafeteira Juca ria alegre, como se o ritual estivesse chegando ao fim. O café escorregava por duas aberturas, viscoso feito tinta preta. Próximo das aberturas, com bolhas e espuma esbranquiçada-amarela, desligou o fogo. Jatos de café claro jorraram para os lados e aos poucos resumia-se. Hipnotizado pelo maquinário arcaico, sequer piscava. Dismas notava com carinho a repetição daquele processo, todas as vezes que me fez café, teve esta pausa, esta adoração.

– Ah, é tão lindo, não é? Mágico, mágico! Vê quão opaca é a cor, quão viscoso se torna. Vem, pega uma xícara ali. Põe quanto quiser, já tomei um bocadinho antes de descansar na parede. – Pondo na mesma xícara que ainda continha café, deu dois goles longos e tremeluzindo, ria em aprovação. – É, depois de alguns anos, errar a medida se torna um crime.

– Tá gostoso mesmo. Se desloca pelas glândulas, injeta-se e no final, todo o rosto reage, aproximado ao calor tímido d’uma fogueira em seus últimos suspiros; nem insuportável, nem fria; morna, perfeita.

– Ah, Dismas! Isso, é isso.

 A sofreguidão não manifestada ia aos poucos ganhando vida. Entre os goles rápidos, beiços lambidos; troca de olhares. Os gestos reduzidos e a euforia desfeita. Peso este que derrubava os ombros, deixando-o cabisbaixo de novo. Juca rangia violentamente os dentes quando queria chorar. A expressão convoluta e disforme, entre horror ao fato e agilidade para desmentir; desde pequeno desenvolvera esta mania degradante, de evitar o choro ante qualquer ser. Vez ou outra testemunhava infernais desgraças, ao invés de chorar, contorcia-se, mordia dentes e língua, arranhava os braços e pulsos. A última pessoa que o viste chorar, hoje, lhe vem nos sonhos ou sombras; depois dela tornou-se um convulso. Semanas como as que antecederam este encontro manchavam e acumulavam as diagonais dos cômodos do apartamento, poeira envelhecida e perpetuada. Não atoa preferia encostar na parede, quando não conseguia deitar na cerâmica. Foi um decreto, de novo, um que não veio de si. Socos secos na parede com força medida, um lamento exausto e acostumado.

 – Que houve? Sério. Não lhe vejo há o que? Um ano? Daí passei mais de um dia inteiro sendo acometido pelo medo de lhe ver caído. Geralmente não passam de lapsos curtos, tipo miragens agoniadas e que no máximo causam-me um susto miúdo. Porém toda vez que se arrasta por um dia inteiro, sei que preciso lhe encontrar. – Dismas não parecia brincar, as palavras lhe saiam organizadas e cuidadosas. Como se agora estivesse diante de uma situação peculiar. Mesmo tratando-se d’alguém que lhe significava tanto. – Soube até que decidiu enfim mudar de rumo. Que criou coragem e entregou seus textos a Lúcia, e ainda assim, estamos desse jeito?

– Não suponho mais ser sobre estados. Isso não se modifica. Isso é o que é desde sempre. A diferença é que estou leve, penso, leve enfim. Ah, ah, como pensar nisto sem querer chorar? A leveza se é possível elaborar, vem da resignação; vez ou outra tento me afastar dela, como se houvesse superação! Não há, Dismas, não se decompõe o que se é, o que somos não derrete ou morre, somos. – Silenciando de repente pressionando os olhos dando mordidelas agressivas nos lábios. – Não há coisa pior. Tanto contraste, sabe? Tanta diferença. Dizer parece um ato sempre choroso vindo dos túmulos abismais, das coisas metafísicas. Só sou, irmão, só sou essa coisa. Coisa. Ah, ah. Café assim, café. Nem isto mais acontece, sabe? São tão burocráticos, burocráticas. Não a esqueço. Nem me olhe assim, não esqueço mesmo.

– Quanto ao ser isso. Não tiro nada. Penso em mim até, das decisões, das viagens… Ah, as coisas que já fiz. Mas veja, não vim aqui para lhe cobrar. Vim só ver-lhe, a saudade traz sentido, mesmo que se desfaça ou se prove o contrário. Discordo das razões e motivos, guio-me pela saudade. – Puxou um cigarro mordendo a ponta algumas vezes antes de acender. – Eu repito alguns mantras, sabe? Gosto de aprender ou tentar. Mas nem sempre funciona. Em verdade pouca coisa funciona. É um tempo estranho, lástima.

– Você viu o Luís? Como ele está? Ah, velho, sinto ter visto o traste há meia década; mas pode ter sido ontem. Sempre sinto que na casa dele o tempo se torna um espiral. Rostos, memórias, ideias. Sabe? Sim! Como se pudéssemos dizer. Enfim falar. Ainda com seus julgamentos violentos, bebedeiras insólitas, músicas profanas. Ah, mas sinto tanta saudade dele. – Seus olhos brilhavam açoitados por lembranças bagunçadas, onde presente, passado confundiam-se. – Vai vê-lo? Ou veio de lá?

– Vim. Vim. Vim. Precisei ter com ele para tirar uma dúvida. Sabe, as vezes sem um apontar violento de dedos não faço nada. Luís é capaz disso, ainda mais lá, depois de subir os caracóis, acertar qual cômodo ele está. Sempre só, né? Lembra você nesse aspecto, a diferença é a literalidade da palavra mesmo. Luís sempre está só.

 Caminharam até a janela expondo uma larga queda apática. Lá embaixo a cerâmica pintada com diversos símbolos geométricos lambidas pela escassez do sol tímido. Em frente calçadas serpenteavam entre casas e prédios. Postes longos com alguns fios caídos. Bicicletas encadeadas e uma ou outra moto preenchiam a pequenina garagem.

– Veio para cá há muito tempo? – Dismas perguntou plácido tendo os cabelos mexidos pelos dedinhos fraquejados daquela brisa.

– Sim, na verdade não, acho que alguns meses. Não sinto muito essa experiência do lembrar, andei demais com o Luís. Mas precisei vir.

– Aqui é legal. Mesmo que caia, creio que não morra.

– É, acho que não morro.

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