25, FEVEREIRO, 2023.
ACORDE.
Incendeiam-te, em verdade, mostram-no semelhanças, não entendo o medo. As razões mistificadas, todas despersonalizações organizadas milimetricamente para seus dedinhos miúdos transitarem lentamente por frestas, curvas e detalhes. O horror rompe a traqueia, amordaça, pelo fato nítido desta coisa que lhe habita. Inebriado por circunstâncias simplórias, cores translúcidas, breus, penumbras peculiares. Vendo oscilações temperamentais transformarem o que lhe circunscrevia. Desperto enfim caminhara até uma cabeceira, esticara pernas e braços, evitando algum choro agudo demais, quis ali evitar despertar algum deles.
São súplicas, desejo abrupto por salvação destas rotinas detestáveis. Dois miúdos pálidos arrodeavam a cama com passos cautelosos, peles manchadas por veias expostas, chifres pontiagudos e olhos alaranjados. Cochichavam entre si nas diagonais, mirando aquele deitado como se esperassem seu despertar. Rabos tocavam vez ou outra a cerâmica, pontiagudos como seus chifres. Estão aqui de novo. Como não notam que sei? O menor deles veio até o lado direito e mirou-o por um minuto inteiro, passando a língua azulada pelos lábios. Em um vacilar a criança abriu um olho e foi pego no ato. As coisas pularam na cama e passaram por cima como gatos, ambos pararam descansando o corpo no peito, balançados seus pezinhos de corvo.
A janela de vidraças quadradas dava vistas a sombras transeuntes, algumas paravam e com seus olhos opacos miravam-no. Chapéus, silhuetas e óculos, formas nas mesclas cuidadosas das luzes. Amedrontado saltava, se escondia; vez ou outra rastejava até embaixo, embora não criasse coragem mesmo assim para olhar o que quer que fosse. O mais próximo disso veio em um dia chuvoso, trovejava amargamente e gotas d’chuva caiam como tijolos, só em casa como era típico, não se preparara. Cada baque surdo açoitava suas costelinhas, pelo que viria com algum apagão. Relampejou, surgindo um homem alto na diagonal das suas vistas turvas, um homem alto gorducho trajando chapéu de vaqueiro, feito outras aparições ficara estático; a diferença deste era a ausência do vão em seu rosto, este tinha olhos alaranjados. Arremessando um copo d’água que estilhaçou em vão, misturado a mais um relâmpago que fizera-o sumir. Tentáculos desceram do teto musguento, acariciando seu rostinho e levando-o até a cama. Não dormiu ali, tentáculos continuavam serpenteando, arrastando-se pelo cômodo. Suor amontoava embaixo de si até agulhas do sol enfim atravessarem frestas afastando as coisas pegajosas.
Sinto que estou desperto, enfim. Sal grudava nos lábios, ondas martelavam seu corpo exposto. Nuvens juntando umas as outras. Gente conversando, nadavam deixando-o estático. Um pequenino magricela com olhos esbugalhados parou junto de si, manuseava longas mechas caídas sobre a testa e inquiria donde vinha, nome, parentes. Aquilo esvaneceria, água entre dedos, memórias infantes eram vórtices opacos. Mas divertia-se, disse confessando até desgostar do sol. Disse também ter medo, medo absoluto. O outro esbugalhado rangia dentes, ria feito gralha, confessando também ter medo. Simpatia surgia, mas escaparia do controlo, logo seriam chamados. Contou enfim da possibilidade, arrancar ciscos abrindo forte as pálpebras; jurava na pancada da onda, uma salvação. Esbugalhado ria alto, entretanto anos depois submerso em insônia por um bichinho mastigando a córnea lembrou daquela conversa e salvou-se. Cada mergulho tirava pedaços, restaria pouca pele quando voltasse à beira. Talvez não devesse voltar.
Beliscava o braço rechonchudo dela, roçando a cabeça feito gato. Dizia-lhe histórias fictícias, memórias opacas. Seus olhinhos cinza-esverdeados manchavam pintando marcas sombrias. Sua pele era feito chocolate derretendo ao toque, cabelos longos e pretos. Descansou a cabeça pela última vez no colo, tocava-lhe em despedida, mas não haviam lágrimas. Era uma ode. Promessas infantis sobre futuros invisíveis.
Descia cuidadosamente a escada caracol, lá embaixo José brincava com uma faca entre os dedos. Era alto e de ombros largos, queixo quadrado, olhos pretos sem vida. Quando o viu correu jogando para cima, com cascudos e abraços apertados. A sala atrás de si expandia-se para todos os lados, sofás, quadros pendurados, espelhos, mesas. Cerâmicas quebradas n’alguns cantos, janelas redondas arrodeavam todo o recinto. José não o largava, ambos vestidos para praia. Duas mulheres tagarelavam em alguma parte. Mesa posta, café, leite, pães, presunto, queijo, bolo. Não tinha fome. Tinha medo. Largado enfim, caminhou atento ao que havia além da porta. Piscina e grama, chuveiro, churrasqueira. Um sol fazia arder cores lá fora, vento escasso cutucava folhas coloridas e irritava cachorros gorduchos escondidos nas casinhas. Nada peculiar. Olhou para suas palmas d’mão, cheirou dedos, cheirou pulsos.
Entrara ali, descansou com seus braços retorcidos e contrários, pernas curvadas, pescoço envergado para baixo, puxado pelo peso esticado, longos cabelos arrastando no chão. Olhos acinzentados, sem vida. Caminhou e escalou as paredes daquele corredor curto iluminado por respingos d’uma lua exausta. Silencioso, vestia shorts, camiseta longa. Esgueirou-se enfim ao quarto, assistiu-o dormitar agoniado, fustigado pelos pesadelos infernais. Parou ali, aranhesco como era, movendo sua cabeça humana retorcida esticada pelo pescoço deslocado, lambeu o teto até esquecer-se dele. Deixando cair uma gota gosmenta de suor que acertou a testa. Fazendo-o pular reativo, contorceu-se por alguns segundos eternizados e enfim exausto da luta; não dormiu. Não lembra se dormiu. Sua memória convoluta estica desejos até a forma que descansou no teto sobre sua cabeça. Mas como toda memória, é um vórtice opaco.
Acorde, há isso ainda, há a vida.