28, MARÇO, 2023.
SISTEMAS.
Promessas saltitam da língua, fantasias ignóbeis tumulares e cósmicas. Olhos radiantes submissos aos requintes artísticos, trejeitos condutores; ser, intimidade ao ser. Nas visões implícitas gesticuladoras, organizadas pelas corrosões indissociáveis contidas na violência do tempo. Envelhecer entre saltos, sustos repentinos epifânicos, miseráveis cortes profundos próximo aos ossos. Ali, na fresta minúscula rompida uma luz germinava azulada, vivente e pulsante; a língua pequenina descansando contato, ferrugem, viscosidade, vida. Pensara repentinamente em coagular-se junto, com a cor constituída sanguínea, manchando a pele. Não podia virar uma gota d’sangue.
Sombrios ventos açoitavam o quarto, ruidosos homens caminhavam em círculos. A área retangular sob teto cinzento, luzes miúdas tremeluziam ao anoitecer; piso amarelado espaçoso indo até a calçada. Madeiras juntas por vigas de ferro envelhecido gemiam até ao toque pequenino dos gatos. Circulavam lentamente em seus ternos velhacos, chapéus redondos, alguns batucavam muletas; chispavam negociatas arrastadas das úlceras, cafeína nos dentes. Incessantes entre suas possibilidades quando átimos pacificadores surgiam, em átimo ficavam estáticos esboçando sorrisos amarelos, verdes e triunfantes; até algum germinar contradição, e desta conduzirem aos passos circulares novamente. Embora tentassem infinitamente respostas a alguma questão, vinham fins semanais, mensais, anuais e repetiam o mesmo processo. Luzes tentaculares mordiscavam o enrijecer das perninhas velhacas, sol, lua; tempo violento que os substituíam, clones burocráticos.
Carros variados serpenteavam pelas ruas, placas e cores diferentes, histórias continuamente nascentes dos rostos cativados entre lapsos velozes; filhas, filhos, pais e mães, vós e avôs. Conduções sistemáticas, manutenções viventes ao explícito absurdo que constituiria a diferença, pois são diferentes preposições, diferentes eternidades. Não se faz necessário pensar algo para constituir vida, em si o ato de ser vivente já se manifesta como sua própria história.
Uma caixa preta encostada no resto de uma árvore, tronco circular enegrecido e arranhado, cortado. Nuvens chacoalhavam histórias repentinas, iluminadas pelo amarelo mórbido; ventava timidamente, balançando a base simples daquela casa. A portinhola constituía-se por pano verde longo preso a um graveto grudado; dois quadradinhos mal cortados davam-lhe janelas. Por dentro estendia aos cantos, colchonete, mesinha e bancos; livros espalhados seguravam-na firme ao chão. Um computador estava aberto n’uma página em branco. Lá fora ondas findavam suas rotas, o som vinha arrastado sufocado pela distância e altura, caminhando até o tronco e subindo via-se uma queda livre.
A porta estava aberta, não quis ir até lá. Esticado pescoço, cabelos longos caíam pelos lados do rosto vazio. Dedos finos pontiagudos convidavam-no, centenas de vozes sussurradas misturadas em si iam feito ondas em um rio arrastando-se até seus ouvidos, diziam-lhe centenas de coisas. Onde ela estava via-se luzes piscando e com muito foco o estender infinito de um corredor. Parecia estar sempre se mexendo, feito manequim manuseado. Seu braço em uma das noites esticou-se até o teto, abrindo sua mão e com dedos de navalha fizera tique-taque-tique-taque. Mesmo assim não foi ao seu encontro, medo rasgava costelas, afundava âmago; não podia chorar, existia uma segurança inaudível contida na distância. Era um lugar disforme, caso nublasse só veria brilhos prateados em suas unhas.
Quaisquer odes serão em si desespero, epopeias epifânicas gesticuladoras. Dei-lhe um tempo inteiro, dei-lhe toda essa vida para testemunhar somente agonia e alegorias miseráveis. Desgraças, descontinuidades, desprezo. Medo inestancável, misturado às premissas delirantes que se descarregam aos montes por onde caminha e trespassa. Um fantasma, um torpe homem. Transeunte em si mesmo, ao notar cauteloso obras criadas manifestadas por si mesmo. Si mesmo como o infinito inferno, infinito esplêndido inferno. Seu ser, ao contrário dos outros quais, tange solenemente, cheio d’uma ternura invejável, cuidadoso e místico; seu ser não existe. Ao reler, retocar, remanusear seus próprios instantes efêmeros em vida; assusta-se, como vergastado por toda uma forma que não lhe é. Deem-no algum sentido, tirem-no desta inefável condição. Onde está o ser, o seu ser.
Prateado brilho ofuscante, manuseara descuidadamente o instrumento. Peso regular, cartuchos cheios; sonhos transfigurados pisoteados escalando suas mãozinhas até o cano. Coça, comprime, ossos inquietos contorcendo abdômen e costelas. Ombros arqueados, mordidas cáusticas entre lábios, dentes; rangidos temperamentais contendo um choro ruidoso. Dedo próximo ao gatilho borbulhando sussurros quiméricos, vida àqueles pisoteados gracejos antigos. Próxima ao olho, fresta minúscula para saída daquele projétil sistemático. Boca e língua sentem um gosto único eternizado em seu crânio nefasto. Espera um átimo semelhante à seis vidas suas. Espera sentido, prioridade. Espera vida.
Acorde, há isso ainda, há a vida.