QUIMERAS SUBJETIVAS.

22, JUNHO, 2023.

QUIMERAS SUBJETIVAS.

Fustigantes simetrias miraculosas, dias e dias entre quedas simples, introspecções asquerosas. Há lamento escorrendo dos olhos aos dedos, mormaço, cinzas. Ver torna-se opaco, sentir uma vertigem. Entre testemunhas transfigura-se, amedrontado pelo contato breve significativo que lhe traria a vida. Anos sistemáticos modulando a própria fantasmagórica forma, lampejos e vislumbres dos escapes possíveis. Cada engrenagem tocava sua pele e em si causava torpor, um desmoronar, quimeras perdendo suas cabeças; ser visto pelo outro, como materialização de si, o sentir, a si a morte.

 Desculpas movimentam a alma, cada passo uma dúvida crepitante germinada pelo aspecto prognóstico possível, d’algum final que viesse a ser aceitável pelas engrenagens embrionárias. Nascer condenado a imposições métricas, gesticuladas cuidadosamente por entidades intransponíveis, religiosas instituições invisíveis. Não há Deus, há isto. Jogado à traças rasas, dispostas ao contínuo espírito redutivo à palavra engrenagem. Portas aos corredores e curvas incontáveis, janelas miúdas escondendo humanos inteiros, calores degradantes queimando a pele. Mães e pais, sangue, família. Abruptas violências indissociáveis, inexoráveis, daquilo que lhe traz ao mundo como ser. Só, vier a ser só é um ato puro desesperado das circunstâncias. Pularia daquela janela hoje… somente se caísse junto das ondas, d’algum mar específico, feito lágrimas minhas ardendo escorrendo pela bochecha.

 Lembrar já parece premissa escaldante alienável, injeta-lhe indisposições cuidadosas para transfigurar futuros possíveis. Ruídos agudos mesclados ao grave timbre daquela voz mordaz, rasgando sua pele e abrindo costelas, expondo que entre curvas e ideias, vida e história, é em si idêntico a ele. Ser a mesma coisa, ser o mesmo, estar aqui como isto que é indissociável daquilo lá, borbulhas e úlceras ao possível, desgraça manifestada a todo desejo de diferença. Tentar ir até outro lugar, ser d’outro jeito, viver d’outra forma trouxe-lhe a esta certeza pestilenta inescapável do puro desentendimento. Desculpas não tirariam nem diferenciariam meu chegar aqui, somente serve de caminho ou arquitetura desta estrutura desesperada.

 Ontem, hoje e amanhã. Partículas quebradiças na visão ante si, imagens nítidas contrastadas por frestas pequeninas em cada gotícula de cor. O sol escorrega cores pelo rio. Sentado ao balançar da barca, mira árvores esverdeadas e transeuntes na orla. Seu peito palpita agressivamente pelo manuseio odioso das possibilidades, fantoches humanos entre prognósticos deletérios. Sentar ou descansar não lhe é possível, não lhe é possível descansar. Uma cor difere do claro absoluto entre verde cinzento da água e os amarelos caóticos do sol; opaca feito janela coberta convida-o ao revelar uma dissociação a tudo em sua volta, abre mostrando um vasto nada incolor. Com mãos abertas atravessa a janela, sentido uma desmaterialização, transformando-se em nada. Após minutos submerso já quase pondo todo o braço, algo desperta-lhe e puxa de volta entre soluços chorosos. Há algo ainda, mesmo ali, naquele dia em que pude ser nada. Deixei de ser. Há algo ainda, há a vida.

 Um homem deitado sozinho. A noite adentrava seu recinto com calma, deixando manchas. Um homem recusa levantar-se mesmo aos espectros árduos daquela luz inquieta. A vida está aos poucos mostrando lugares desalmados, lugares sem cor. Um homem sente fome. Sua placidez subjetiva onde o cômodo reduz ao colchão estirado, roupas empilhadas e alguns livros perdido. Um homem detesta imaginar mais alguma coisa. Disposições submissas ao caos, imagens e ideias injetadas por arbítrios próprios. Um homem não está só. Sem espelhos pausa frente a pia, escova, penteia-se, molha-se e sai. Um rio cinzento descansa suas ondinhas na calçada. Barcos e varas de pescar pausadas na estática, na promessa d’algum futuro possível. Um homem caminha até onde deve ir. A praça arborizada, crianças brincam aos risos histéricos; nas diagonais caixinhas de som, álcool. Um homem chega aonde devia. Sentado escuta centenas, milhares, imagens saltando aos olhos, das telas, dos ecos infernais da vida onde tudo já está ali. Um homem volta para deitar-se e ficar sozinho.

 As luzes estavam acesas quando chegou. Sentada a fumar, ela misturava-se ao ambiente feito uma estátua, curvada por dedinhos angelicais cuidadosos, moldada para uma condição específica. O baque miúdo da porta despertou-a. Transe ou não, seu movimento soou rachaduras em mármore. Vergastado pelo olhar cáustico castanho, mover dos lábios carnudos, recusou a si qualquer resposta áspera e reduziu aquele estado ao símbolo inevitável dela. Veio do trabalho tarde, bebeu três doses muito tarde, chegou uma fumaça de álcool entorpecida. Desculpas e culpa, ausência d’algum perfume, cheiro enobrecido pela solidão induzida. Suas doses foram a sós, na calçada onde tudo termina. Desejou quando pôde tocá-la sem sentir seu asco, desmanchar. Desmoronar aos sons mármores rachados. Desculpa, amor. Estive só demais, mesmo quando estar tão só não se faz possível. Alice cede, não por dever, mas a princípio por pena. Depois d’alguns anos, por amor.

 A hora estava certa, correr adiantaria somente ao imaginário. Atrasar certo horror poderia mudar e trazer a tona outro destino. Multidões jovens, sonhos rasurados, mesclados. Sua hora passou, por alguns minutos. Aos prantos silenciados descansava a cabeça nos joelhos. Pedir a quem por ajuda, gritar a quem. Foi mesmo assim até a sala quadrada, bateu na porta envernizada e esperou pelo nada. Um homem gorducho, bigode espesso e olhar avermelhado recebeu-o já cheio de uma pena marejada. Estático mirava aquela cor avermelhada dos olhos, esboçando intransigência e rancor. Burocracia podia arrancar um pedaço da sua história. Comovido por palavras amenas, sonhos imaculados, estudo e destino, destino, o gorducho perguntou-lhe se de fato queria aquilo, se queria estudar. Esboçando apatia genuína, disse-lhe sim num timbre pestilento turvado pelas quimeras surgidas ao futuro daquela decisão. Aceite, conheceria seu melhor amigo, mesmo que a tormenta daquele período se mostrasse minúscula. Alguns períodos escorregam feito água entre dedos, permanecem sensações, permanece alegria-agonia, permanece a memória daquela vida que só volta à tona se quiser, se eu quiser.

 Chuva caía feito pedregulhos arremessados pelo ódio d’algum infante inquieto. Acertava telhados, janelas e seu corpo exposto. A primeira curva vinha próxima à estrada larga, veículos jogavam suas pressas e olhares rarefeitos. Banhos entre poças próximas demais, estreiteza e calma. Chorar rompia linhas tênues, já a ver seu prédio cinzento detrás dos postes distantes. Chorar para emular uma gota, emular chuva na própria carne. Alice detestava vê-lo aos prantos quando chegava, estudar aqueles pontos arrancavam pedaços de si, afirmava com timbre tempestuoso. Mas a vida não lhe deu tanto, nem sequer muito, para ser diferente. Sentir, ser ao choro soluçante pelas imagens borbulhantes dos imagéticos infinitos. Alice escorregava sua pena adocicada, pelos dedinhos algodão. Pausa repentinamente para encharcar-se. Vê o banco donde ligaste suplicando amedrontado pela queda livre, e do outro lado a voz amena, tranquila, da mãe. Quedas são rotinas inescapáveis, principalmente quando não se pode decidir nada.

Preciso descansar. Suas pernas ardiam junto aos passos lentos amordaçados pela madrugada inacabável. Álcool despedindo-se aos poucos, a cada metro e um peso enorme volumoso caindo nos ombros, carregava dois de si naquele dia. Não tinha algo em casa, não tinha por que ir para casa. Aproximando-se do banco frente aos prédios se deita, entre duas largas ruas, postes de luzes esbranquiçadas, um céu cinzento. Celular vibra junto da carteira que carrega para a circunstância fúnebre, não quer causar incômodo do deslocamento para reconhecimento, a notícia iria nítida eu não estou mais aqui. Madrugada adentro entre pessoas voltando para casa, fantasmas e tudo que ali habitava. Um homem parou de repente, vendo-o ali a deriva, quase em sono profundo; despertou assustado pela voz rouca grave, sem desaforo ou raiva. Pediu desculpas e foi andando para o apartamento.  A poça estava plácida, um espelho. Parado frente a ela, tragou profundamente o cigarro e riu, seu rosto borrado, olhos baixos, cabelo curto, barba desgrenhada. O torpor aos poucos consumia músculos, ossos, trazia sensações tranquilas adocicadas, quem tocasse sua pele seria manchado por ele. Pensou um pouco se devia ou não, se estaria ou não, era ou hora ou não; mas ficou parado. Mulheres começavam a repetir rostos, frases, olhares vinham-lhe feito tentáculos úmidos deixando rastros na pele; específicas surrupiavam-no para pontes, caminhos donde caíam em baldes virando tinta. Ali sem movimento algum há dez minutos, ria abobado pela premissa absoluta contida na alegria d’um momento que se esvai devagar, permitiu ficar, esqueceu qualquer outra parte do âmago. Existiu somente tudo que poderia existir.

 Tenho saudades sistemáticas,
 Lembro das continuidades afetuosas,
 Transbordares mágicos entre olhares quaisquer,
 Afeto reduzido ao instante que vi;

 Sentir lá ou cá a mesmice tempestuosa
 No coração que estronda
 Ao toque do olho no olho
 Da voz abrindo espaço na alma,
 
 Sei aos poucos reduzir-me ou distanciar,
 Mas o espírito não recusa toques feito esse,
 Mergulha incauto e lá fica por horas ou dias,
 Incessante feito delírio d’um amar meu,

 Vejo-lhe traduzir a linguagem infinita ao tocar
 Com dedos, olhos e voz
 Meu espírito caótico,
 Descanso depois de uma vida inteira,

 Sem pregar os olhos,
 Ao vê-la entrar pela janela,
 Disso tudo ou pouco, que sou,
 Mas fique, permaneça até virarmos um lugar específico.

 Se for,
 Se vier,
 Se ficar,
 Que seja;

 Algo para 
 Ver que
 Tudo aqui
 É absoluto.

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