CINZA.

CINZA.

02, JULHO, 2023.

 A vida repete uma história odiosa, traz consigo um musgo cinzento grudado na córnea. Dias rompem meu silêncio, abrem traqueias e músculos, expondo germes em agonia. São súplicas detestáveis amontoando-se aos poucos junto dos cômodos e a poeira deixando rastros desta vil decomposição. Sistemas autônomos reproduzem ignóbeis prognósticos, abrindo as costelas pelo dia porvir. Amedrontado pelos rostos contínuos nascentes, misturando cores e vidas ao simples ato abissal de amanhecer vivo em mais um dia. Estar na carcaça, possuir crânio. Voltem com alguma engrenagem, algum lugar para cair e ser sepultado. A resistência vai sendo consumida pela violência das ondas, este tempo que não desnubla, condição turva; estar aqui, tão turvo e cáustico, tanta dor. Tanto medo.

 Um eco sacudiu meus ossos. Tinta cinza caía dos cantos do quarto criando poças nas diagonais lentamente acumulando-se ao redor da cama. Contorcia junto ao horror, cabeça vinha ao encontro dos joelhos como prece, os abdomens viravam molas e o choro retido transbordava. Sombras saltitavam, escalavam paredes, pulavam para o guarda-roupas, me arrodeavam sem olhos e rosto. Exausto daquela agonia cedia ao silêncio mórbido, de bruços olhos selados. Era inútil, ainda que pusesse panos para tapar, ainda que arrancasse os olhos; veria aquilo chegar gosmento, tentacular e arremessar-se em direção ao meu corpo exausto ensopado. Quando vinha sobre mim, pulava e chutava o ar para tirá-lo, para não se juntar à minha pele, para não ser como aquilo, completamente incolor e sem forma. Mais uma noite igual.

 Existe amor em algumas partes quando lhe permitem que chegue, quando aceitam condições invisíveis. Não há escape ou rotina, não há sentido. Silêncio é feito uma lágrima, um choro agudo retido pelas premissas inúteis, daquela conquista mirabolante qual seria viver. Viver é um ato simples, uma condição inadiável daquilo que quer estar. Se não há um dia diferente do outro, se não houve contraste entre o primeiro choro consciente, não há vida. Os limites vão ocupando espaço nas tentativas deploráveis, memórias tumultuadas pelas quedas contínuas; vez ou outra, tempo e espaço são faces d’uma multidão, a dor mordendo e abrindo espaço, deixando buracos nos ossos do crânio.

 Desistir ou ir. Todos os dias são anos inteiros. Criar sem reconhecimento é feito dar vida pela violência da indiferença. Existir aos prantos, chegar d’algum lugar e cair, ver rostos como manchas de tinta. Sair até lá onde as coisas terminam. Dê-me saúde, dê-me contraste, dê-me instinto. Os ruídos cá torturam a alma, dão condições injetadas, é torpor, não aguento mais. Há is(s)to ainda, há vida. Meus olhos ardem mais e mais ao passar desta decomposição; há limite para tudo, meu limite está reduzido ao choro adiado como esperança de que não precise mais chorar.

 A você que me trouxe de volta à vida, me mostre outra porta. Tire a continuidade desta violência infindável, baques surdos, silêncios ruidosos, semblantes arruinados. A você, mostre outra sina, escancare outro sentido; minhas tentativas vão cessando, já não há esperança. Fiz o quê para meus dias serem chacinas, guilhotinas, ossos quebrados. Trazer corrosões do meu rosto, virar sempre outro. Fiz algo, não se faz possível, fiz, devo ter feito algo hediondo. Chegar nestes quartos e desmanchar ausente completo de forma e sentido. A quem levar o que sou, quem pode ver essa coisa.

 Lá fora os dias vão passando feito trovões ásperos. Despertar a quê, para quê, para onde. São saltos adiados dos lugares altos. Noites neblinadas pela substância que a mim parece o ser normal. Não existem vários caminhos, nem várias saídas. Tentar de novo, cutucar úlcera com unhas sujas. Tentar ter um rosto, um corpo, ser mais que meramente isto. Ser testemunha das temporadas no inferno.

 Desculpas caminham junto a mim, arrodeiam, vão deixando poças d’sangue e medo. Espirais caem sobre meus olhos ao ver-te chegar, ao ver-lhes chegar, ao me ver chegar. São réplicas de mim. Habita aqui um nada coagulado. E o pior deste nada é sua indiferença, não prende meus pés em canto algum. Me faz tentar sistematicamente, para provar a mim que não há esperança ou diferença, no fundo abissal, sou a mesma coisa.

 Arranquem meu crânio, deixem exposto ao sol. Guilhotinas, guilhotinem esta carcaça. Deixe rolar pelos degraus dos prédios em cada tentativa. Meus olhos não vão abrir de novo.

 Não forma de mostrar ou conviver com isso. A quem mostrar ou a quem ir, quando sequer meu espírito suporta. São fissuras metamórficas de um ser interminável, condenado ao crânio. Aos paradoxos. Ao horror e medo. Desculpa, amor, eu não sirvo para nada.

 Volte se quiser, mas não demore. Não escolho e já não tenho mais resistência alguma para falar. Nada mais a dizer.

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