06, JULHO, 2023.
VER-TE.
Um gesto pequeno realizado pelo açoite contínuo dos olhos alheios. São empurrões para saltos, empurrões para tentativas. Humanizar uma convivência áspera e ruidosa, silêncio cáustico aos ossos. Pausar diante da queda, não para evita-la, mas contemplar. Sussurros inquietos antipáticos, beliscando toda calmaria; imagéticas condições, prognósticos novos. Os dias vão amontoando perguntas indigestas, estáticas moribundas, o horror das épocas reduzidas ao abismo que se abre ao lembrar. Ver-te ir, moscas mordiscando a decomposição do que seria. Sombras escalando paredes entre murmúrios, gemidos inebriantes.
Os ventos gelavam arranhando a pele exposta. Nublava aos poucos, nuvens viravam manchas no céu. Desejava juntar os olhos ao clima, à lagrima rompendo aos poucos toda ternura do dia; juntar, virar algo que não lhe era, deixar de ser o que é. São unhas cravadas no pescoço trazendo à tona todo semblante raquítico anterior, toda mesmice volumosa odiosa chacoalhando dentro da carcaça. Rostos gelatinosos movimentando-se pelo crânio. Ver-te chegar comprimir costelas, umedecer olhos, ruína. Não estamos aqui para isso, sabemos, mas voltamos todos os dias. Arde chegar ao mesmo lugar com as mesmas epifanias.
Vier a ser outro aspecto, vier a ser outra coisa. São coisas gesticulando umas com as outras, despejando robustos significados retilíneos que se tornam íngremes quando tocam os olhos, antíteses escarninhas. Não reduzem razão, não transformam sistemas, só agridem. Rastros abertos na pele. Caos, mergulhos ríspidos em respostas hostis. Ver-te desmoronar arquiteturas propostas da sua língua à minha. Sentir mãos miúdas escalando o corpo, descansando nas partes, contorcendo membros em sintonia. Receptáculo composto, consumido. Não volte.
Chegar traduz sintomas ínfimos. Chegar e ser movimentado pelos tentáculos sanguíneos. Fatos e quilômetros arruinando saídas. Parar não lhe dá sequer controle, parar e ir não lhe modifica, está no destino esta tua vida malograda; lhe deram rosto, mas não lhe mostraram o que é, quem é e seria. Lhe deram carne, membros, dedos, lhe deram vida. Não mostraram o que é, quem é e seria. Tremendo o horizonte ante si, desmontando curvas; trazendo consigo a chacina diária da esperança. Amor, a vida não se introduz em mim nem que abra minha cabeça com um machado; o sangue escorre, mas não modifica, sequer prejudica o que sou. Nada ser naquilo que está vivo, é a contradição mais sádica. A carcaça, o corpo, isso. Não é meu. Onde está aquilo que seria?
A lâmpada tremeluzia com os dedos fracos da brisa leve, tremeluzia ritmada enfraquecendo os fios que a prendiam. Debaixo sentava um rapazote robusto, esmagando a cabeça nas mãos, gemia um choro tumular. Vinha lamentando algum processo seletivo qual falhou miseravelmente, misturado às dores físicas e o quase afogamento; estava próximo de um colapso. Vivia só amargurando qualquer detalhe possível, mesclando rotinas corrosivas a qualquer contato semelhante. Alguém havia deixado ali uma dor cíclica, pêndulos entre pausas calculadas entre cada contato, chacoalhavam tímpanos desatando novos choros na nostalgia d’alguma visão torpe. Absorto já não se mexia, lágrimas desciam e desciam. Tremeluzia mais e mais e os fios avisariam como homens de obra para saírem, correrem, mas fios não podiam fazer nada; desgrudavam, desmanchavam e a lâmpada caia. Em cheio estoura no topo da cabeça, d’altura cacos prendem no couro cabeludo. Sangue começa a escorrer, mas coagula, pois nem assim ele vem a se mexer.
Semanas passam, meses passam. Alguma coisa deve mudar. Algo deve deixar de ser. Não se faz necessário uma ruptura entre divino e homem. Somente um minúsculo lapsos cognitivo do que é sentir minimamente alguma parte de si como desejo, como futuro, como vida.
Ver-te é uma memória amarga daquilo que surge nos finais da agonia, submerso em águas abissais; sentir contato, percepção e ser uma mancha eterna desta descontinuidade. Visto que lhe ver já não é mais possível.