12, JULHO, 2023.
DESESPERANÇA.
A última visita trouxe consigo emaranhados incontornáveis, ruídos mordiscando os ouvidos. Lua alaranjava seus passos lentos, germinando o último choro. Pensar já não lhe tirava das perspectivas abissais, via-se mais como traça e parasita que um homem em formação; pestanejava, socando a testa. Tentar ouvi-la, tentar sentar de novo e reter a cáustica forma dentro de si. Não há paz sequer entre os horizontes apresentados, ternura sufocada pelo horror contínuo entre madrugadas infinitas. Trazia consigo toque santificado, pueril, envolvia braços feito algodão nos lapsos malditos. Ela em si parecia-lhe vida. Não desmembrava suas exposições, fosse caos ou simples medo, ouvia com atenção arquitetônica; imaginando requintes, cômodos, o que amparar naquilo visível. Despedia-se continuamente de si a si, não dela, mas de si mesmo; supondo quedas livres, diferenças catastróficas, situações hediondas ou mágicas, para desmanchar na calçada.
A rua larga movimentada, casas próximas e lojas espremidas umas nas outras. Postes lambiam o ambiente com seu amarelado tímido. Parado do outro lado, arranhava pulsos, palpitando o coração ao martelar das costelas. Vida ou futuro estava ali adiante, questão simples, atravessar aquela condição contínua dos carros, motos; gente indo e vindo. Ir e permanecer ali junto, ao âmago era guilhotinar a circunstância amarga que lhe era explícita desde os primeiros instantes constitutivos da memória; testemunhava a dor feito condenado. Súplicas tímidas, olhos verdes ácidos. Seu corpo injetava curvas ao labirinto empoeirado dos restos da própria pele e choro. Malograva aquilo, quando aos poucos, mesmo aos saltos no nada, era recebido pelo afeto vivo d’alguém que cria na possibilidade, na esperança da morte desfazer-se como destino e algo triunfar entre os vórtices corrosivos daquilo que lhe era ser; ela circunscrevia-o em pura esperança. E isto rasgava o rosto, ardia. Ser amado e visto.
Ir ao encontro com grilhões nos calcanhares, nublando as vistas para indispor qualquer expectativa. Trazia junto aos ossos desesperança, manchava e deixava rastros chorosos até os degraus da casa. Anterior ao toque feito curto-circuito da campainha, lacrimejava. Atrás de si, sombras dançavam ritmadas pelo retorno ao desespero e nada. Não só ali a vida rompia silêncios, linhas tênues funestas; mas estruturas surgiam calmas, trazendo junto de si ao futuro de uma existência possível. Ao tocar esta imagem, é espetado, perfurado até arfar. Porta aberta e seu rosto invade qualquer outro dia especulado, resume mundos e épocas, ao semblante sorridente plácido dos olhos castanhos claros. Sobe um, dois degraus e se envolve nela. Memórias convolutas serpenteando junto aos beijos acariciados, primeiras vezes te amo. Donde vieram ecos decompostos, que fez racionalizar e desmanchar aquele destino desfeito.
Ventos fortes, lugares altos. Janelas abertas, pontes, ondas distantes. Sempre o violenta, uma despedida que lhe trouxe ao nada. Manifestado pelo silêncio mórbido, covardia harmonizada por aspectos racionais. Angústia vira rotina. Vislumbrá-la novamente, uma chacina. Quem deu-lhe a ordem para permitir o resto da vida uma agonia.
Desatava o choro retido, contido; lembrança ignóbil. Sequer mantém consistência ao que fora dito, só vem feito quedas moribundas derrubando cabeça e ombros. Observava, mas virava borrões molhados pelo desaguar explícito d’último choro em vida. Gesto, um gesto cáustico imperdoável, visto mesmo há distâncias imensuráveis, que fora covarde; não só por não haver razão alguma específica, mas por ter pensado em si como um incapaz de constituir vida. Aquela calçada amordaçava, torcia cordas vocais; mesmo junto ao amor calmo, transcendente, queria gritar. A morte lá a passos largos, derrubando homens e mulheres dos lugares altos, não lhe cessava.
Vejo-me como condição inabitável. Amar aos poucos remonta santuários para sacrifícios, onde eu me refaço. Sinto a saudade sufocante daquela mulher, visto que troquei vida pelo medo. Vida pelo estar só. Do que se aprende, do que se lê, cada sujeito rememora sua história com feridas abertas ou atos incontornáveis. Abandonar, derreter a esperança me faz escrever sobre tudo que se desfaz, sou alguém que preenche e coordena futuros fantasmas. Um gesto covarde que se movimenta pelo meu sangue desde o dia, deixei a vida de lado, para testemunhar a morte diária como rotina.
Risos pueris, risos contínuos. Anões e neve. Músicas que trazem consigo cheiros e situações. Esse sujeito não articula qualquer oposição a si mesmo. Devasta, consolida-se nas alegorias, peregrinando por tudo que lhe afasta. Não mostrou a ninguém, não consegue ser de novo aquela possibilidade; a vida transfigurou-se por um gesto. A covardia trouxe consigo uma história inteira junto ao mormaço do nada.
Ela não só lhe viu, como constituiu a forma. Sentir hoje, sentir que trouxe para o tempo depois daquele desmanche. Uma permanência latente envolvida à desesperança.
Não há desculpa possível para restituir, alguns gestos definem o que somos. Eu preservo tudo aquilo que desmancha, tudo que não é esperança e futuro. A vida traz estrutura, família, tempo e espaço. Eu não estou aqui para deixar nada além do toque amável que surge entre os lapsos. Somente existe nos lapsos que o nada me deixa surgir. Noutros dias, estou só. Como aquilo que é e deve permanecer em silêncio.
Desculpa.