16, JULHO, 2023.
TORRES.
Eu estou ali descansando meu corpo, mordido por espíritos. Eu estou aqui lamentando as ideias decompostas. Estou junto, indo até os cantos visíveis; tudo que vejo me rasga. A paz me parece inóspita, selada por cânticos antigos imemoráveis; ajoelho entre preces cósmicas, acertando meu crânio com pedras. Dão vistas a pulsões volumosas, aneurismas em cada fresta aberta pelo esforço; vida própria, rostos novos arremessados feito dados. Antagonistas, residem manifestando suas certezas diárias. Transmitem e confabulam, mas eu estou cá desnorteado. Dizer-lhes, mas parece confessar, conhecer os cenários é negar a mim, contradizer. Suplicar nem é mais possível, junto do tempo sou a traça de mim, coabitada por outros diabretes insaciáveis. Manejam meus dedos, tento trazê-los para cá, conversar. Não há diálogo.
O inferno manifesta pausas intermitentes como parte do sadismo. Abrem janelas e portas, deixam entrar possibilidades. Seis cabeças grudadas em tentáculos disformes, modulam-se e transmitem semelhanças com tudo que sou. Vejo-as chegar ao quarto, descansar ao meu lado. Parecem com algo que sou e queria ser. Convivem e derramam ideias, justificativas, saídas; para num átimo, desmancharem. Junto seus membros gelatinosos com minhas mãozinhas nos cantos, coloco dentro das caixas e lacro com fita-adesiva. Sinto palpitações nos ossos, costelas rangem pelos prognósticos de reavivarem. Cada tentáculo me é uma esfera lógica d’alguma idade, não surgem sem a violência daquilo vivido.
Deram a mim essa arma e disseram vá. Meus olhos ardem pelas cores translúcidas misturadas aos ruídos. Sempre há na distância esse choro agudo histérico, quando esqueço, volta a mim como um rasgo nas têmporas, derramando sangue turvando vistas. Todo afeto surge embaçado, tento desvela-lo por estar neblinado por gritos incessantes acuados, d’algum infante solitário. Planejo ir até ele, mas ruas entrelaçam e confundem-se, curvas, retas íngremes; então desisto misturando aquele choro ao meu.
Ela estava sentada próxima à queda-livre, segurava em uma grade balançante. Seu rosto pálido esguio, olhos pretos navalhescos. Sentei, descansando pela primeira vez em sete dias; tirei moedas dos bolsos, deixando cair uma a uma. Diante o mundo desmanchava n’uma cor opaca, bordas tocavam sutilmente aquele início, mas rejeitavam misturar-se; ela diferente das coisas, manuseava, dia a dia, mês a mês tornando-se disformia. Na primeira vez que a vi, tinha olhos verdes cáusticos, sentia-me revirado cada vez que era lambido por suas pupilas. Hoje, sua pele era esticada por ossos, e a luz pulsante se desfazia devagar; ainda assim, amava estar próximo. Minhas moedinhas flutuavam por alguns segundos até virarem a mesma cor. Nunca entendi de fato a razão dela deixar se tornar disforme ou idêntica àquela cor, havia um certo prazer na decomposição; vez ou outra notava entre risinhos marejados.
Usar a arma era tarefa difícil. Homens transmitiam sentimentos entre ações instintivas, gritos ressentidos contidos pelo tempo suficiente d’alguma morte. Esbugalhavam olhos acertando paredes com socos secos, abrindo frestas na pele, acumulando sangue. Homens pareciam preferir saltar, correr e quebrar, que falar alguma coisa. Silêncio não vinha meditativo, era descanso raso, rotinas freadas pelas circunstâncias. Aprendi enquanto me afogava, que nada é breve se ainda existe tempo para lembrar. Ondas empurraram, acertaram minhas costas nuas até moldarem feito um recife; mas constituído por músculos, ossos e sangue, não me deu tempo, quando assumi forma, uma última onda quebrou-me. Não queria puxar o gatilho, mas um som odioso iluminou o cubículo, apagando por seis minutos estáticos aquele choro histérico, por seis minutos desatou vendas dos olhos, expurgando centenas e centenas de diabretes. Cada um despregava dos músculos esticados com navalhas ao invés de dentes, ossos em testas e olhos sem cor. Por seis minutos o mundo foi refeito, fui salvo. Nada é breve, seis minutos pareceram seis vidas.
Seu pescoço esticado pendia a cabeça curvada, trouxera-me pela promessa divertida. Cansou rapidamente, a vida para ele eram tarefas divididas; ao fim dormia. Meu ânimo apagava ali, talvez por entender algo sistemático. Pai aparecia somente na brevidade intervalada da sua rotina. Súplicas intermitentes entre noites violentas, todas plácidas fisicamente, estava em cama ou colchão arrodeado por familiares, amigos; mas tumultos, tambores e dizeres apocalípticos manifestavam-se. Vê-lo então caído em mais uma visita, empurrava meu corpo miúdo para os cantos tumulares. Meus olhos infestavam os dias de desgraças. Mas não havia pedido ou sequer inventado alguma.
Uma escada caracol depois da porta enferrujada com vários furos, cerâmicas quebradiças e iluminação escassa. Mas soube onde estava. Cada andar possuía três portas em madeira enumeradas, sininhos foscos e lâmpadas amarelas. Ia até o topo para encontra-lo, não conseguia chorar, mas ao menos amenizava. Vivia na exceção da estrutura, somente a porta redonda com suportes de ferro e o andar inteiro para si. Livros, teias, mesa, cadeira e uma cama larga debaixo da única janela. Estantes com degraus serpenteavam pelo recinto. Era corcunda, sua pele cinzenta costurada em várias partes e embaixo da testa um olho vermelho esguelhava para fora, nariz pontudo e dentes arame farpado; perninhas curvadas e pés de corvo. Sua voz mesclava graves sonolentos e agudos infantis. Passava dias inteiros ouvindo suas histórias medonhas, alegres e trágicas; ensinava-me muito. Nunca lhe falei nada ou contei, também consigo não trouxe placidez às minhas súplicas, entretanto abstraía-me por sonhos convolutos e mágicos. Certa feita despertei no topo da estante, parecia uma queda enorme e lá embaixo, ele movimentava-se felinamente. Entendi então que a si aquilo era um laboratório.
Meu suor coagula-me à minha memória. Viro membros que tentam desgrudar de si. Eles não me deixam em paz, mas dão a mim o mundo inteiro. Queria um dia deitar sem ouvi-los. Descansar enfim como ouço dos outros humanos.
Corredores iguais, tentativas iguais. Empurrara-me d’algum lugar e afundei a cabeça no chão. Sangrou por vários instantes e virava um rio. Um gosto surgia nos centímetros daquela agonia, eram pinicos simplórios, mordidas intervaladas por insetos. Suava aos vislumbres, sangrar trazia um sentido histórico, sangrar vinha abraçado pelas rotinas da morte. Adultos altos com articulações gemendo engrenagens, vozes robóticas desmentindo-o não vai morrer, é corte raso, que é que sabiam? A maca era enfeite para sua circunstância, então não deitou; agulha entra e sai desenhando a pele como roupa. Livre para cair novamente.
Sou a testemunha nefasta disso. Não há eu na memória. O tempo trouxe certezas inefáveis cascudas, virulentas predestinações indissociáveis pelas consequências da solidão inquisitiva. Fui construído aos manuseios caóticos das vidas repentinas inescapáveis. Afetos viravam manchas púrpuras. Livros repetidos. Livros repetidos. E eles, eles que ainda estão.
Eu talvez resista, mas a vida não parece trazer consigo a diferença, para que eu me desfaça deles e seja um. Desculpa.