19, JULHO, 2023.
MIRAGENS.
1.
O bar ficava próximo à ladeira das dores, era molhado por luzes esverdeadas e amareladas dos postes. A calçada ocupada por mesas apertadas, garçons apáticos e uma maresia de fumaças aleatórias. Gente especifica habitava aquele espaço, a diversidade pulsava. Abria da quinta ao domingo, entardecia movimentado e os preços traziam junto consigo jovens estudantes.
Juca despertou inquieto, vinha acometido por notícias tristes e semanas contaminadas pelo fracasso. Seus dedos rangiam congelados a cada tentativa, escrever virava uma ruína incontornável. Lúcia estava atarefada com textos e textos, Dismas não via há meses; sentiu-se só. Quando aperta esta melancolia induzida, arrasta os olhos para contatos, mesmo já enterrados, pois em si sabe que é uma desculpa para sair e beber. Augusto responde secamente, mas é sua natureza, concorda e define o horário. Ao confirmar suas entranhas reviram, ir agora se torna um escape, aquela profundeza diabólica do silêncio, dias e dias sem escrever; minuto a minuto pensa em ficar, se tornar mais cinza ainda. Desiste, algo mordisca a imaginação, hoje o bar tem um aspecto mágico.
Vai até a cozinha próximo das dezessete horas, bola dois sanduíches medíocres, um suco esquecido de laranja e passa café. Caminha pelo apartamento parando no batente, abre janelas deixando ar entrar pela primeira vez no dia. Seu cabelo desgrenhado eriça e sente-se bem. Diante ruas estreitas serpenteiam entre casas, prédios velhos e um enorme supermercado. À esquerda a chácara do Oto, cercada por arames farpados caídos, coqueiros altos e plantas variadas; murmúrios dos pássaros, cachorros e outra criaturas. Nos fios do poste em frente, dois corvos descansam. Mora no sexto andar, sempre sente falta do décimo terceiro. A sala contém duas cadeiras velhas e um sofá verde espichado. Sem lâmpada já há dois meses, vira um com a penumbra induzida.
Augusto avisa do atraso. Estava inerte há trinta minutos. Pega uma caderneta pequena qual rabisca trajetórias e cenários, descansa as costas na varanda debaixo da janela e deixa ir. Mas não enxerga nada. Grade enferrujada separa sua queda livre, plantas penduradas e outras na cerâmica. Flores, cactos, espadas de são Jorge e uma rosa do deserto, qual furtara da avó. Tenta novamente elaborar uma situação, mas cai em si mesmo. Morde a caneta azul até sentir sua língua espetada. Há uma certeza borbulhando, das asquerosas, suas favoritas sempre são.
Vibra duas, três vezes o celular. Vai ao espelho, bagunça cabelo e discrimina suas vestes. Camisa preta, calça jeans surrada, tênis preto. Seu rosto assume três formas, uma delas ele parece gostar e lhe é suficiente. Do quarto pega um casco com listras nas mangas e corre. Desce degraus, evita o elevador – e seu espelho – para não crepitar dúvidas sobre sua feição; prefere agora ver-se inebriado. No térreo checa se não esqueceu nada. Toda vez que pisa ali, sente um sopro morno, um silêncio estranho. Abre o portão velho, fala com o gigante Josias da portaria e encontra Augusto fumando.
Ambos desatam um abraço contido d’uma época inteira. Augusto era mais alto, esguio e de olhos fundos pretos cadavéricos, descansava as pernas sempre curvando; cabelos castanhos, cavanhaque grosso. Vestia calça preta esfumaçada, blusa preta com listras brancas e tênis branco. Juca não o via há muito, mas se evitavam pelo aspecto gosmento e vertiginoso do que conversavam. Era melhor deixar escorrer por meses as vezes, aquilo discutido.
– Quem lhe deu coragem, peste? Olha pra essa cara, lhe arrastaram no asfalto? – Ria Juca depois de se soltarem. – Mas então, tá do mesmo jeito? Que eu no caso.
– Provável. Daqueles dias necessários. Pessoas aleatórias e álcool. Tá com cigarro? Nunca tem, né, desgraça. Eu trouxe dois maços, um pela metade. – Sua voz era grave e carregada. Levava sempre um tempo longo para falar.
– É, não tenho, preservo pela saúde. Quero viver até os cento e quarenta, para ver se lá terei conseguido finalmente escrever alguma coisa. Tem visto a Lúcia? Nunca mais a vi. Depois que entreguei o manuscrito, pareço ter dado fim a um destino. Será?
– Ih, lá vem. Ela é ocupada, traste. Você faz o quê? Ainda tá preso na rotina? Deve estar, pelo tamanho destas olheiras. Vai ver é por não ter ninguém, dos dois sentidos… amigável e amoroso. Seu apartamento parece uma súplica d’alguém que não vem a terra há anos. Mas toda vez que lhe tiramos daí, vem carregado d’uma vida nunca vista. Pulsante, delirante. Ah, ah. Estava com saudade. Ih, falo sério. Mas então, vamos pra esquina das dores? É, né? Dá pra ir andando.
– Não quero andar, na verdade, não quero voltar andando. Então é, vamos, gastamos um carro só. De lá você vai para casa? Se for, tudo bem, mas quiser dormir por cá, é tranquilo. O outro não tem aparecido, deve ter ido ver os pais. – Tremia enquanto falava, só há mais de uma semana, não falou com outro além de si. – Me vê? Estou afetado. Ih, só alguns litros para acalmar. Mas faz parte da rotina não falar com gente, há sempre algo para se ver no silêncio.
– O silêncio deve ser milimetrado, senão lhe engole. Dá pra ver nos olhos quando a gente fica muito tempo só, giram e giram, mas não enxergam nada. Só aquela maré violenta quebrando nas costas, uma vontade ridícula de voltar para casa. – Falava entre pausas sólidas, para durar no ar o que dizia. Já estavam a caminho do bar. – Então, se chegarmos lá, e você não sentir um frio nos ossos lhe guiando, criando situações para voltar; quer dizer que está bem. Não há evidência nenhuma, peste, mas não precisamos quando é sobre nós.
– Sim, sim. Ah, ah. És turvo quando diz as coisas que diz, chaga, que é isso. Eu tento abrir a boca as vezes, convidar diferenças. Diferenças no sentido simples, pessoas novas; mas não dá. Daí prefiro o gosto amargo das relações desfeitas, repelindo com altivez toda a possibilidade do novo. – Juca ia tremendo menos, cada frase desgastava as cordas que lhe açoitavam. – É um certo vício em miragens. Aquilo que é, pode, constitui o fantástico, mas se desfaz ou nem esteve, quando se chega perto. Ah, ah. Estava com saudade, peste.
2.
A ladeira das dores ganhara este nome pelo acúmulo de histórias. O asfalto virava à direita iluminado por um poste alto musguento, e em frente um deslize íngreme. Mal iluminado pela distância entre as luzes e sua altura, criando um ponto cego a quem vinha. Crianças com suas bicicletas, sentiam o aperto nas costelas ao notar a descida surgindo feito um portal. E então voavam tentando frear, mas deslizavam até embaixo. Dando com costas, cabeças e pescoço nas estacas cravadas e presas por arames lisos. Depois da queda e arranhões, havia o risco de ir mais longe; cair na mata. O tempo trouxe novas quedas, adultos entorpecidos voltando dos bares. As reclamações cessaram por decreto do público, avisos maiores foram colocados, cones e vez ou outra algum espírito bondoso instalava refletores.
Augusto e Juca chegaram pondo as mãos na entidade que virara o poste das dores, agradecendo por não deslizarem no asfalto úmido pelo chuvisco recente. Seguiram a calçada, passaram pela farmácia fechada, um bar morto com madeirites tapando janelas e portas. Das dores que antes chamava-se Chorar pra quê, aproveitava ao máximo duas calçadas paralelas. O movimento de automóveis era escasso, facilitando para garçons. Era um prédio pequeno, térreo com banheiro, balcão e freezers. Luzes verdes neon foscas convolutas pelo amarelo lá fora.
Sentaram perto da esquina. A árvore larga antiga plantada no outro lado criava sombras irregulares nas duas calçadas. Suas folhas verde-escuro descansavam entre asfalto, mesas, cadeiras, empurradas por brisas leves.
– Ah, ah. O clima aqui parece o do início d’uma hemorragia, não? – Juca abria seu sorriso largo cheio de dentes. – Ah, ah. Estou brincando, chaga. Foi só uma vertigem. Hemorragias vão aos poucos desnorteando a gente, né? Apagando a consciência se não estancar.
– Provável. Mas, ih, será que mais alguém vem? Você chamou? É, estão sumidos mesmo. Última vez que vi o Ernesto ele estava mal. Ele sempre está confuso, mas na feita, estava mal. José então, depois do término, virou uma poeira. – Caretas rompiam o seu rosto gélido em cada nove dito. – Poeira grudenta, sabe? Difícil de desfazer na pele. Mas os convidei ainda assim.
– Sim, geralmente eu não chamo ninguém. Um perdido, daí os outros seguem, até porque é da minha natureza. A sua não, a sua é burocrática. Sente faltas como se devesse preencher faltas. Ei, mestre, mestre; traz uma cerveja, dois copos, não, três, valeu. Nota? A gente não repete essas coisas. Há um tempo não amo nada. Nem sinto que devia ter, mas não amo há um tempo já.
Intervalos germinam travas na linguagem. Esperar os goles é um processo ritualístico entre amigos solitários, visto que, o tempo não traz diferença dos escombros acumulados naquilo que conduzem suas vidas. Ser só ao modo dos dois; quais afeto e amor trazem rasgos na consciência do que os construiu. Há sempre um desejo dialético entre a paixão avassaladora e a melancolia daquilo que poderia ter sido.
Judas trouxe garrafa e copos presos nos dedos, esboçou riso alegre coadjuvante àquela visita rotineira. Conta uma piada sobre a cerveja ter sido tirada d’um poço aberto e então corria risco de sapos, rãs e peixes. Abraçou ambos, pelo hábito. E seguiu. Chegaram cedo, poucas mesas preenchidas, vários rostos repetidos.
– Como anda a livraria, traste? Vendem muito lá? Quando era criança soube desse trabalho, de vender livros. Lugar fechado, ar-condicionado, vida boa. Não é, né? – Mordido pelos dentes gélidos do álcool, Juca desatava a língua. – Ah, ah. No futuro, quer dizer, no tempo em que estamos, não há vida boa nenhuma. Dinheiro vem com requintes de puro horror.
– Eu gosto, rotina legal. O pessoal lá é tranquilo, do chefe aos como eu, que vendem. É estranho, mas ficamos passeando por prateleiras; mudando livros, trazendo livros. Leio pouco lá, mas conheço muito do que leio entre capas e nomes. Me apaixono umas seis vezes por mês. Mas também é rotina.
Augusto acende um cigarro azulado, relaxando as costas pela primeira vez. Bafora de gole a gole. Acostumados pelo que têm a dizer, esquecem. Observa mulheres indo e vindo, homens. Seu rosto arde derretendo grudando aos ossos, passa língua nos lábios e aspira apavorado. Empurrado pede licença, seus olhos embaçados borram tudo em frente até empurrar a porta do banheiro, encostar sua testa suada no espelho, ligar a torneira e molhar-se. Cada banho d’água lhe traz aos poucos de volta, pessoas entrando e saindo. Mija, enquanto acende outro cigarro e se deixa relaxar.
Lá fora Juca batuca dedinhos, oscila entre desejo e medo. Atarefa-se para dissipar convulsões introspectivas, adiar ou enterrar rostos antigos, sentimentos agudos. Doutros tempos cairia na tentação dos milagres corruptivos, donde a substância lhe levava pros contornos impossíveis dos amores decompostos. Hoje, pelo contrário, cada vislumbre desta sensação, é guilhotinado. Há uma esperança emergente, seu espírito nota nas folhas flutuando, ventos breves lambendo sua testa. Existe alguma coisa a ser vista.
Volta com duas doses nas mãos o homem alto, curvando joelhos feito boneco. Abre dentes, erguendo a sobrancelha como se assinasse contrato. Juca não precisa de outro aviso, estica os braços, puxa pra si e vira a dose. Batem vezes e vezes na mesa, se abraçam.
– Ah, ah. Lá se vai. Lá se foi. Hoje é um dia em que alguma coisa será vista. Isso, Augusto, é a vida! Ah, ah. Peste.
Caretas seguidas pela volatilidade continuada, as doses repetem-se mais duas vezes. Cervejas vão se acumulando, o mundo além daquele estado mesa é afastado. Por duas horas inteiras, são gracejos, pestanejos e alegrias onde épocas misturam-se e tempo inexiste. São parecidos na solidão esmagada na presença, como se resgatassem dos lugares cinzentos. Ali não os cabia, então esqueciam a maior parte; viravam impulsões metafísicas. Substâncias em corpos tão sozinhos, conduzem rostos novos, máscaras. Mas nunca deixam de sê-los, nascem ali e perpetuam em lembranças mágicas, nunca repetidas.
3.
Olhos marejados translúcidos, espetam braços e testas para afastar embriaguez densa. Pedem cada um, garrafas d’água e as engolem eufóricos. Já estão submersos, eufóricos. De pé, próximo a desconhecidos, pedem isqueiros, cigarros. Vozes femininas lambem seus tímpanos desnudos, criando sonetos mornos. Dançam das violas aos eletrônicos dispersos pelo caos diverso, dos presentes. Juca misturado ao suor dos abraços trocados, perfumes esfumaçando suas narinas e confundindo seus gostos. Augusto gélido com danças puxadas por cordinhas, pés arrastam, sabem que dança pelo sorriso escancarado.
Existe alguma coisa a ser vista hoje. A frase pulsante na língua vertiginosa, esguio observa rostos e corpos, tentando ser açoitado por uma sensação. Juca está imerso, mas sem perceber, seus olhos giram vórtices devorando tudo aquilo que passa; cores, vibrações e músicas. Misturadas entre ápices e quedas, vai e volta com cerveja, copos cheios. Mija, estapeia-se frente ao reflexo do espelho, molha o rosto. Sempre volta iluminado, altivo. Em busca inconsciente daquilo que iria ver, quando visse.
– Lhe amo, chaga! Ah, ah. Lhe amo! Foda-se! – Pula enrolando-se ao pescoço largo do Augusto. – Lhe amo, chaga. Que volte, que voltemos, sempre! Enquanto houver vida.
– Ah, sim! Ao eterno, meu irmão, ao eterno.
Separados, enfim, cada um decide seguir. Augusto encontra um amor antigo, reanimado pelo sopro eufórico. Envolvem-se sem dizer muito, as carnes entrelaçam traduzindo ao espírito do que não é possível dizer quando se sente. E então esvanecem dissolvidos no afeto. Juca não se irrita, acostumado por estes casos humanos em que instintos convergem em atitudes não ditas; a si, tudo precisa passar pelos caminhos linguísticos. Até chegar a isso, que o amigo tranquilamente mergulha, seria necessário mata-lo; reconstruí-lo.
Derretendo junto aos cigarros acessos, encostado no poste pingando luzes nos olhos alheios. Flutua, já desinteressado do que se constitui seu pensar. Ninguém do convívio foi visto, ninguém das rotinas, caso raro. Estava enfim completamente só. Vai ao Judas, pede uma última cerveja, abraça despedindo-se. Cambaleia por alguns metros até acostumar, e lentamente prossegue. De repente nota à sua esquerda, ela, que devia ver. Mais baixa um pouco que ele, pele morena com sinais no rosto, cabelos pretos descendo até a nuca, olhos pretos labirintos brilhosos, uma prata arrodeava seu pescoço; lábios finos avermelhados. Sua imagem traz consigo um silêncio repentino ao mundo em volta. Juca para e espera desmanchar o delírio.
Volta ao bar quase correndo. Uma multidão está vibrando cantarolando, dançando. O suor trazido pelo medo, daquilo está desfeito em vislumbre. Não lembra com quem ela veio, com quem estava. Vai de um a um, aos que conheceu no dia, dividiu cigarros e isqueiros. Ninguém parece reconhecer ou saber de quem fala. Está contagiado pelo aspecto mágico, mas não encontra em parte alguma. Anda pelas calçadas, girando os olhos perto de se nausear. Não, não é possível. Que agonia. Sua imagem está derretendo junto da fumaça. Cada segundo mergulha-o neste desespero legítimo, daquela infernal condição de sentir tanto por algo que nem sequer viu ou ouviu.
Cabisbaixo descansa retendo um choro miúdo. Metáforas são momentos idênticos a esse, captações sentimentais borbulhantes alvejadas de repente em dia comum. Vê-la desnorteou condicionando toda a sua vida naquelas horas, como algo que devia ser visto, desvelado. Ouvi-la não só impulsionava a vida, mas lhe era. Sentir fisgadas agressivas do que poderia ter sido, mais uma vertigem dolorosa para sua rotina.
Exausto, sente a sobriedade chegar. Madrugada, beberrões aos gritos e risos alegres. Transeuntes assumindo suas formas esquecíveis. Arranha os braços, pedindo desculpas. Então, sente um choque, a vê com outras duas mulheres, pegando carona. Seu espírito treme e manuseia cautelosamente cada centímetro visto, para manchar-se e banhar-se daquela miragem. Ir até ali em desespero, correr, dar toques na janela, dizer uma coisa básica, perguntar uma coisa simples, saber seu nome. Se é daqui se vem sempre. Ir em desespero, por estar ardendo, ardendo. Sentir é sempre assim, sempre. São vultos, memórias, miragens. Nem sei o que é, quem é, mas esteve ali?
Suas pernas falham, a razão não permite desespero. Os meses não trazem de volta, nem sequer uma amostra, aquilo reverberou por um ano e dezoito dias. Uma miragem sistemática, de uma alegria inadiável, perdurando todos os segundos coagulando-a em seu espírito feito sangue. Sentimentos desta violência não se desfazem, permanecem feito traumas; deslocam e transfiguram memórias.
Ela é algo que não foi e é. Todo sentimento jaz distante da razão, quando razão chega, esvanece. A sua miragem ao Juca, trouxe vida, trouxe coragem para ir; ser chacota dos outros, ninguém perdoava, a mulher que só ele viu.