TRÉGUAS.
22, JULHO, 2023.
Viver não lhe trouxe trégua, escasso, Viver lhe prende nos grilhões ácidos, raso, Chora desde o primeiro instante, germinando agonia, asco, Testemunhas infinitos decompostos, por ordem divina, abjeto, Divinos escaldam sua pele nos caldeirões malditos, Suplicar já lhe é insensível, deixa-se ir; Ao contemplo contínuo nefasto, dos invisíveis; Cair nos desgastes metafóricos diários, dos copos cheios Ternura alvejando costas nuas, colapsos Sangue coagulado entre a língua e os dentes, Soluços agudos infantes crepitam pelos tímpanos, Corroem os futuros possíveis, Lamentos são açoitados por chicotes dos outros, Chacotas convolutas variando seus rostos e premissas; A paz lá fora pulsante, esmaga seus ruídos imponentes, Jura ajoelhado novamente, ante a estátua santa, Reverbera tons pueris, abandona todos os lugares, Quer grudar-se ao mármore, imitar o espaço dos santos, Virar ode, virar um com a coisa, escapar da carapaça, Dos gemidos altivos imemoriais nas noites simples, Desfazer-se em completo num ato milagroso, despedir-se; O mármore reprova seu gosto insólito amargo, suas agonias, Empurra a santa para recantos esquecidos, diabretes e marionetes, O vê condenado a contradições, todo degrau alcançando multiplicado, Sons misturados mesclados por traumas e vãos no tempo, Talento ou diferença são decompostos para que retorne, À mesma agonia todas as vezes, notar lapsos da mesma queda, Ruir e gemer em todos os abraços, Erguido com os olhos fundos tempestuosos, mira cabeças alheias, Deseja explodir, tomar posse d’alguém que não a si, Grita por um silêncio excruciante, jorra sangue das gengivas, Descalço sobe degraus até encontra-la, aos prantos o envolve, Solícita espera, escutá-lo já é inadiável, Observa com seus dedinhos esguios, as manchas infernais da sua língua, Tê-lo, certa do que há na próxima ida, se não levarem sua cabeça junto; Sol alaranjado pelo seu choro, nuvens girando canções mórbidas, Azulado fora o dia em que dormiu e não despertou, ficaste imerso, Nas mãos tenras do puro não-estar, físico, carapaça Palavras feito chagas nascendo úlceras no futuro das suas tentativas, Cair, apreço alheio, reconhecido como um grilhão mórbido amarrado, Na boca d’algum demônio inquieto, todo salto lhe derruba, Comprimem joelhos, derrama-se nas calçadas feito tinta, Soltar das mãos, deixar ir, sempre vai mas não volta, Não muda, a estática forma, uma linha reta caótica, Onde rostos caem derretidos moldando nos ossos, Modificando sentimentos, como roubados odiosos, Relembra feito própria vida, contendo no outro o que não é, Todo outro na reta lhe lembra melhora, lhe lembra vida, Não está vivo quando desperta, está em outro lugar flutuando; Seus dedos ardem pela violência vista, Suas pernas tremem volumosas inquietações, Descansa junto ao colo daquilo que esvai, Diz ao amor tudo imaginado especulado, Prognósticos metafóricos cheios de fé, Abandona sua carcaça moribunda, Mistura-se ao mundo que não é seu e desaparece; Ninguém pode vê-lo ali, Ninguém pode chegar a sentir, Onde dorme e como troca peles, Das pestes manchando paredes, Enchendo seus olhos de água, Decapitando seus sonhos, Ninguém pode vê-lo despertar e correr; Com olhos vendados, sentido o bafo gélido, Tocar seu cangote suado, Arranhadas vertigens, Portas gemendo trancadas, Quer não estar ali de novo, Quando voltarem talvez o levem, Aqui já não dá mais. Outros dias chegam, Melhor tocar o mundo, Ao modo de sempre, Que alterar sistematicamente, O que é, Sonhos infernais, dedos infernais, A vida não está diferente lá fora, O mundo qual diz está inteiramente em si, Labirinto pior do que o espírito, Ser isto, Envolvido, Na decomposição, Da vida impossível, Lá fora.