09, AGOSTO, 2023.
FORMA E VIDA.
Alguns passos depois da mesa, sombras convolutas entrelaçadas movimentando formas d’outro plano. A visão tenta traçar organizações possíveis. Choraminga soluços entrecortados; ao lado uma janela miúda redonda, um horizonte nublado. Está em algum canto idêntico ou está no mesmo canto e somente seus olhos transfiguram as imagens. Dúvidas ácidas mordiscando seu imaginário, rasteja pelas mesclas possíveis, sistemas ou não; ruína, nada há de semelhante. O horizonte diante não lhe pertence, chiados, murmúrios e ondas alternadas chocando-se em recifes; ruídos misturados ao imagético que depois d’alguns instantes mirando com cautela, vê-se ondulações contínuas.
Ardem olhos, arde o espírito, arde o corpo. Testemunhar, vislumbrar quebradiços lapsos incongruentes; não há razão alguma. Suplicar pelo horizonte desfeito. Cada parte sabe uma língua, sente uma forma, sente um jeito e é exposto ao esboço de cada; não há organização, das falas ou das nascentes, melhor seria não ser. Mas se é, então fica. Vivo, existe, reflete e malogra, derrete, corrói; somente a si, visto que tudo lá fora transcende e cresce. A quem coube submergir esta criatura ali junto aos ecos odiosos d’um inferno inevitável.
Verdes são os teus prantos, minúsculos, simples; daqueles ruidosos histéricos, agulhas milimétricas aos tímpanos próximos, traz mais agonia que caminho possível; só esperneia, reduzido ao ópio turvo. Turvo pois não demonstra nem sequer próximo chega d’uma palavra, então esperneia, grita; ao horizonte ondulante. É mais semelhante àquilo misturado, coagulado. Aos outros semelhantes nas carapaças transeuntes, notórias pelo destino inefável; defuntos ambulantes. Sinos precisam tocar, céus cair, aí então a diferença talvez surja. Chutem-no se o ver, não sente, já não sabe onde está; mas deixem chorar, talvez um dia pare.
Sossegar depois d’alguma conquista inebriante, descansar daquele gosto específico arrepiante semelhante ao destino. Calçadas, postes e luzes germinando expectativas polidas. Sons odiosos, choro, agonia; noutra esquina um grito míngua, corpo cai pela última vez. Passos rápidos, corrida. Brilhos entrecortadas, lâminas e armas. Capuz, ofegante criatura lhe reduz ao minúsculo átimo infinito dessa sua vida ordinária; mira-o pés à cabeça, articula na velocidade de um piscar e continua correndo. Os gritos misturam-se, pelo tropeço quisto, pela pausa; mas em resposta, depois da sua conquista, decide correr. Corre ao ponto máximo, costelas empurradas, vômito deste esforço raro. Nada diz ao porteiro, nada diz ao amigo; deita e esquece. Algum diabrete áspero gesticula nos confins do seu crânio bem que podia ter caído também. Noites feito essa, jogada em uma mistura ardente, poço fundo de luzes escassas, membros girando saltando pelo horror d’um topo que não chega. Desperta, outro dia.
Vasculhe seus olhos se puder, vasculhe violentamente, abra espaço nas córneas. Deixe não estar mais, se o visto não lhe apaga, rememora, reverbera e permanece aos cumes do existir, entre noites e dias jamais minguantes. Vão chacoalhar seus ossinhos, tenho dó, mas minto, não tenho nada. Vão conduzi-lo, torna-lo inaudito e inadiável, acorrenta-lo na sela infernal que é esta tua cabeça. Maldizer, decompor, tudo lhe será robusto e estranho, fascinante e horrível. Descanse pelos dias porvir, já caminhaste até pontes intransponíveis e voltaste, vitorioso; porém, este desejo autônomo se reorganiza, invejando caídos, invejando mortes. Morrer não lhe é possível, tempo e espaço trazem pesos inebriantes, dor, chaga, serão teu deleite. Visto que lá fora, só o amor lhe é possível, nada mais. Capital, burocracia açoitam-no, mas aquele afeto traz-te de volta feito fênix. A desgraça cá, é que morre todos os dias. E ninguém o ama todo dia. Ao menos, neste seu contrato, não deixamos escolher o amor. Desculpa.
Levanta enfim. Uma tontura desconforta seus passos, aproxima-se das ondulações fazendo rasuras no espaço frente a si. Não há mais cômodos, mesas, cadeiras, diante há somente rasuras. Passa alguns minutos parado, olha pra janelinha e nota luz lá fora. Não pode saltar da janela, não existe outro caminho. Caminha mais um pouco, os sons vão virando espirais aleatórias junto às rasuras. Vez ou outra observa variações do seu rosto, dos seus olhos, do seu corpo. Está maior, menor, gigante, minúsculo. Noutros está caído, n’alguns nem mais está. Líquidos começam a pingar pelas frestas abrindo buracos na cerâmica. Sem som corrosivo ou calor, somente mais rasuras. Atrás delas não há nada senão uma mesma cor, como que o mundo dos seus olhos estivesse virando sem forma e cor.
Sonhos mirabolantes pelo sentimento lhe fascinam. Nota tê-la visto uma única vez, calcula este absurdo rindo sozinho ao despertar. Sequer sentiu pele ou rememora efeitos da voz, há somente a história desta sensação germinando delírios infinitos. Olhos oceânicos, ilhas cinzentas e vislumbres azuis. Há algo nas sensações, sabe, talvez volte a vê-la. Talvez permaneça só e aos poucos as coisas virem sem forma e cor.
Sonhar para que isto não se transforme em tudo que é. Já que aos poucos vão faltando maquinários e métodos traduzíveis, dos horizontes infernais que sente. Nas alegorias transcendentais de todos os seus recusares mórbidos, ela vem como a premissa delirante do mais puro fascínio. Se vê-la lhe trouxe um sentido, não houve escolha alguma, está no contrato.
Sons e ruídos, sem forma e sem vida.
Formas e nada.
Situações mordem meu corpo exposto, A vida escalda empurra alma aos cumes; Embaixo vejo-os gritarem meus nomes, Cospem chacotas detestáveis; Salto e sou espetado pelas lanças, Derrubam-me e chutam até o último pranto Já não há choro ou súplica, Desfeito e caído, permaneço; Ninguém tira desta conduta, Condições não dissolvem-se Somos repugnantes, Constantes ruínas; Sou um parasita, Abro costelas nos dentes, Permaneço no pulsar da vida alheia Farejo amor para apodrecer minha alma; Olhem lá, lá quem vem, Outro igual a mim, Este reconheço, É falso! Sabes e sabes daquilo que quer, Joguem-no ao rio preso em correntes, Deixem morrer de fome Oferenda aos diabretes; E cá fico caído, Como ser nada que sou, Deixem escrever ou falar, Mas não me vejam; Desculpas ocupam toda uma parte cá, Este espírito é um perdão repetido, Melhor seria cair E não estar mais; Vivo, óbvio que vivo, Não poderia dizer que caí, Se não estivesse vivo; Mas talvez a morte transfigure tudo E persista, crie e organize Um sentido maior, Maior que o caos dos afetos, Da saudade dos abjetos feito eu; Lá fora todos pulsam, Eu pulso nada, Lá fora todos são, Eu desapareço; Ah, ah, somos aquilo lá Mesmo nada, Ainda é, Se estiver vivo; Menos que a morte persista, Crie e organize, Um lugar Onde o nada é; Mais ainda que o vivo, Mais ainda que o permitido, Mas ainda que o contínuo, Mas ainda que o parasitário; Desculpas já nem mais se pedem, Cinza é o existir, Cinza é ter tantos rostos, E não mostrar nenhum; Donde as palavras surgem? Donde vem? Se não as pedi? Nunca as quis. Ah, ah Amor, O tempo e o espaço, Existem para me esmagar; Mas há serenidade, Quando o fascínio chega Em forma de cê, Na saudade daquilo que vi uma vez. Existir aos gritos minguados Choro eternizado nas paredes dos quartos, Nunca estive pleno entregue, Ainda assim choro aos prantos Qual peste condenaste, Que desgraça fiz, Para sentir o mundo coagular Continuamente e despedaçar Quantas desordens e cores iguais Nunca repetidas Quantas métricas e histórias Sempre corroídas ao chegar; Falo e sinto Como convivo Com tantos Mas todos conjuntos Se detestam, Nunca estão Nunca são Sempre querem mais; Mais o quê? De quem? De mim? Da carapaça? Ah, ah Perdão, Por pouco não virei uma cor Só de tê-la visto, Feito verde e azul Cinza, cinza não O existir inteiro é Cinza, por eles e eu; Sol, mar, Vez ou outra perversos Me arrastam lá Dizem cá devia ter ficado À deriva, afogado Uma mistura de ondas Correnteza e ondas, Talvez me seja, A impermanência pura Das ondas, Donde devia ter ficado E estado; Eternizado pelo sentido ausente Pela forma ausente Sem cor e sem vida Metáforas que gesticulam; Ao inevitável De ser convívio Com rostos Que não estão; Juro, mas juro, Se viesse, cairia misturado A tua pele, entregue Faria o que quisesse; Talvez seja então o delírio fascínio No amor, de sentir algo que destoa Esmaga todos eles, Me faz escravo e servo; D’alguma coisa real. Não sou. Não estou. Nunca fui real. São eles, Não? Eles, E o nada -eu.