24, AGOSTO, 2023.
LETARGIA.
Existe um sistema turvo apodrecendo folhinhas miúdas esverdeadas, mordidas por lanças solares púrpuras. Nuvens cessam suas espirais e expõe um céu opaco. Há saudade germinando continuamente entre súplicas distintas, não minguam enquanto há vida. Voltar ao processo burocrático degradante da sua primeira queda, ver santos plásticos imersos em leituras mornas; choram ao encontro das palavras chaves, ecoando glórias. Sentir modificar e diferenciar, acertar com violência a parede ao lado e assim pulsar uma nova vida.
Ardem olhos, escorregam lágrimas cáusticas; frestas em seu rosto. Quietude turva seu caminhar lento, afasta uma desordem inicial; deseja hoje plenitude mínima ao ponto de as memórias não virarem quimeras. Voltar ao dia específico pelo traço sistemático de um diário e dizer a si cá, naquele dia houve isso. Arrepia ao vislumbrar a possibilidade minúscula ordenada.
Seu rosto não está em si mesmo, sequer dentro do espelho. Seu rosto transfigurado manuseado por dedos miúdos infantes, tintas variadas modelando uma sombra inexpressível; há um ali detrás velado por esta mancha, entretanto não se encontra em parte alguma. Seus olhos criam ondulações lado a lado, mas não ganham fisicalidade. Seus ruídos compõem linguagem, sons atravessando estáticas agudas e graves, apitos uivantes corruptíveis; há tentativas pulsantes de desfazer sua moldura disforme. É um homem, destes que se assemelham a penumbras densas, lembram vultos.
Sinos tocavam estridentes nas manhãs da fé, lançado ao chão pelo pai que com os olhos encolerizados organizam todo o seu dia. Corria até o banheiro especulando entre a distância minúscula se hoje veria seu rosto como o dos outros. A lástima escaldante doutra vez não se assemelhar sequer corroía como antes, hoje sentiu somente indiferença. Vestiu as roupas da fé, descendo degraus aos saltos. Lhe esperavam com certa ansiedade, um ou outro ali especulava quando a coisa sairia de si e a fé tomaria seu espírito. Desde cedo notavam seu silêncio inquietante e suas caretas, poucos amigos, fala desgastada, imaginação mórbida; parecia ter sido tirado d’algum cenário horripilante ainda que vivesse cercado por alegrias ordinárias.
Testemunhar desastres cáusticos, solidões inebriantes, modular seu aspecto dentro das exposições alheias e dentro de si escutar os vórtices germinando semelhanças malditas. Há no fim do labirinto a saída, mesmo curvas variadas, lugares semelhantes, há ainda a saída. Entretanto tempo algum modificaste suas sensações ou projetaste discrepâncias, existe sim uma fala e sua linguagem exprime-se do seu corpo; infeliz nisto, é arranhado pelos raquíticos, abertas suas feridas, ainda não se encontra e então tudo permanece aberto, uma eterna hemorragia. Todos conseguem compor nesse mundo suas desgraças, erguer estátuas e manifestar vida. Vida, estar vivo não é manifestar vida.
Despencar dali, empurrado pelos diabretes costumeiros, fiéis ouvintes daqueles silêncios viscosos escaldantes; sentados ao redor, cada um em sua cadeira, esbugalhando olhos e gesticulando entre braços vermelhos graúdos com seus dedos esguios de unhas afiadas. Estavam acostumados aos requintes esperançosos, românticas preces diárias em qualquer momento solitário, escorregavam das diagonais dos cômodos, arrastavam-se debaixo das camas, cômodas e guarda-roupas; onde houvesse espaço vazio, ocupavam. Observar um homem caído, pelo tempo corroído, degradado por estar mais próximo do inútil, que da superação ridícula; a si, viam-no quase com compaixão até onde demônios sentiriam. Tentavam da esperança não corroê-lo ao ápice, somente arruinar para a possibilidade doutro entrave. Diabretes empurrariam, mas pelo costume de toda uma vida, seria para criar equimoses. Quebrá-lo, matá-lo, jamais.
A escada conectava dois instantes raros. Cada lado estirava até nuvens coloridas mescladas por raios solares. Janelões com vidraças esbranquiçadas, lustres pendurando lâmpadas amarelas iluminando um círculo preenchido por uma poltrona, estante de livros e no centro uma escada caracol escondida por alçapão. Sentar naquele instante, onde o outro lado reduzia-se a gritos chorosos, tragédias volúveis repetidas pelos caídos quaisquer; era feito cair em um balde d’água viscosa, grudava até os ouvidos e o sono virava delírio. Porém não se eternizava neste ou naquele lado, feito contrato, devia ir até lá juntar-se a água lamentosa e noutro tempo voltava à calmaria simples. Quando lhe sobrava pensamentos retilíneos tentava vislumbrar se houvera ou havia um meio-termo, onde o mundo não fosse ambivalente.
Entidades abissais contornam seus dedos, mas ainda que tente, volta ao semblante simples categórico de um homem. Nada reflete capacidade, há mares cáusticos irascíveis. É então antagonista, mas somente isto. Seus olhos claros ardem, empoeirados pelo aspecto raso das conquistas inalcançadas. Volta ao bojo d’um parasita, acostumado e fiel ao infernal sistema das falências rotineiras. Aprende como alguém tem fome, depois de saciar, não esquece mas também não lembra. Métodos, ideias, tudo lhe são quimeras. Mas a vida está entre todas as suas cabeças variáveis, arrancando-lhe a dentadas, todo vislumbre de melhora ou saída. Vais a ver, não é que quis fazer de tal forma, é que de tal forma somente lhe é possível fazer.