sangue.

16, OUTUBRO, 2023.

SANGUE.

O quarto morno turvo mordido por luzes inquietas, poeira e medo amontoando nos cantos. Breves súplicas incandescentes nasciam do corpo estirado, rejeitando os ecos odiosos daqueles chamativos sintomas de cura contidos na morte. Suas pupilas dilatadas feito tinta preta. Arrasta até a porta, arrasta a testa no piso viscoso e se levanta em um átimo. Sua memória está girando, não lembra que quarto é este ou aquele mais distante. Vida e caos grudaram nas veias, córregos incansáveis colapsando destinos quaisquer. Seu jeito é ir até onde nasce o turvo, inícios febris, letargia. Lá não sente pertencimento, mas também não sente agonia, há continuidade entre febris rompantes, imagens turvando horizontes; seu ser desfeito, movimentado para onde tudo deve ir, mesmo que ainda esteja vivo.

– O pior nisso, digo, o pior agora é perceber uma cousa simples. Eu prefiro mil vidas desta mesma a uma em que eu não me seja. Sério, juro, não trocaria o meu olho e minha voz, meus dedos, por outra forma. Não há sequer miúdos lapsos invejáveis; não detesto nada ao ponto de me desfazer, nem amo tanto algo para que me torture para mudar. Ser isto. – Diz Juca com os olhos brilhosos, sua mão direita tremia como depois de um esforço enorme. – Lá fora, onde as coisas não são como aqui, não me agoniza mais; ainda que não encaixe no mecanismo, não há vontade alguma de reestruturação, de esvanecimento. Ah, ah. Até as substâncias vão diminuindo. Não estou mais submerso entre letargias induzidas, agora são só as humanas nascidas de mim. – Pausa repentinamente ao sentir lágrimas mordiscarem.

 Embaixo as ondas acertavam o recife. Uma lua discreta escondida por nuvens cinzas, um horizonte desfeito e refeito nas frestas. Juca não estava só, é comum que esteja, mas não ao sair. Seus olhos misturavam-se aos de qualquer transeunte, confundindo-o; vê-los transfigurava seu próprio tempo. Melissa ao lado gesticulava consigo devagar tentado acompanhar seu pensamento não por alguma complexidade rara, mas sim pelo estilo. Tinha olhos pretos volumosos penetrantes, vestia sempre roupas com listras e cores frias.

– Lá fora até onde sei, Juca, as coisas não se repetem. Na verdade, é o contrário. – Ela pausava entre tragos mornos, deixava deslizar a fumaça. O tempo não existia ali. – Tudo é repetir, repetição. Até ontem, enquanto pegava carona para a recepção onde trabalho, senti uma inquietação estranha. Meus dedos gelaram, deu vontade de saltar, voltar. Mas para onde, sabe? Voltar para onde? – Sentou puxando a mão do Juca que lhe acompanhou sem recusa. – Até as ondas são as mesmas. É o mesmo mar. Talvez sejamos o mesmo ser. A mesma forma, o mesmo humano.

 Dois barcos surgiram lambidos por luzes esverdeadas dos faróis. Plataformas de petróleo como aranhas plantadas.

– Não assumo que seja, mas também não recuso. Há uma semelhança hedionda, mas há também tanta diferença que assusta. Ah, ah. Eu mesmo ontem estava pronto para mudar de rumo, não rumo factível, daqueles que substituem trabalhos por outros; rumo cá, onde estou. Sinto as vezes, lampejos petrificantes, de erros horríveis; uma vida estagnada indo até onde deve ir, ao nada. – As ondas quebradas começavam a molhá-los, mas não se moviam. – Família, sabe? Sangue. Não se escapa daquilo de onde veio, no fundo, o sangue nos prende a algo inanimado. Emancipar-se, virar um homem, que é isso? Ah, ah. Eu sei, eu sei. Vez ou outra sou acometido por sensações impalpáveis, e pelas histórias são quase idênticas às de um pai que pouco me ensinou ou vi. Viver é dizer não ao sangue.

 Os barcos produziam sons trovejantes, arremessavam de tempos em tempos algo ao mar. Das plataformas luzes fortes pulsavam misturadas a faróis e um amarelo tímido da lua.

– O sangue. Sangue. É a composição de toda semelhança. Da maldição da lembrança. Ainda que passe toda uma vida tentando transfigurar-se, o mapa do que você é está traçado com detalhes quase infinitos. É uma continuidade horripilante. Uma genealogia mortificante, prova cabal de que não há individualidade possível. Mecanismos geram mecanismos que geram catracas, que giram e voltam a si. É inumano desgrudar-se do outro, como se aí a vida enfim surgisse. Juca, estamos cá presos uns nos outros. Sangue não nega a vida, mas compõe cenários preexistentes e o futuro que lhe coabita. – Suas mãozinhas tremeluziam junto dos olhos piscantes mordidos pelo sal. – Lá fora, quando diz lá fora, o que não lhe é, ainda distante infinitamente, vez ou outra vêm-lhe feito vultos. Mortificam, pois, são semelhanças incongruentes pela distância um do outro. Feito pai invisível qual contam histórias, e seu rosto exprime o susto específico daquilo que só há semelhança no sangue.

 Nuvens cinzentas serpenteavam pelo céu obscurecido, vultos transeuntes na calçada distante. Postes acendiam luzes musguentas. Quiosques gemiam seus últimos suspiros.

 Juca não falou por alguns minutos, ambos quietos imersos na perspectiva dolorosa das tentativas cáusticas de não ser parecido com o sangue; todas as memórias do sangue. Tios, tias, primos e amigos desses vindo-lhes feito aparições sombrias entre passadas ligeiras voltando para casa. Exclamações volumosas tão parecido com o pai. E na alma, aquele urgir silenciado de mas não o vi, não me ensinaste. Como fazer parte do desgrude que insiste em voltar à tona. Acostumado pelos rompantes ensurdecedores do seu ego multifacetado, Juca caia em choro. Ela envolveu-o nos braços, pôs a cabeça no ombro e não disse nada.

– Há dias em que, há dias em que o sol arde a pele exposta, corrói destinos inefáveis. Quem fizeste ou moldaste esta fórmula? Sou-lhe tão ingrato, deus? De parecer-me mais com aquele caído e levado por Caronte? Vivo acometido das frestas, brechas feitas pelo acaso e disto vivo, lampejos e lapsos de vida. – Soluçava entre falhas da voz e fungadas. Franzindo cenho e sobrancelhas, dando mordidelas nos dentes evitando mais choro. – Sofistica-me, mas tira de mim no nascer, quando esboço o átimo suficiente, arranca as cabeças destas quimeras. Não, não. Ah, ah. Lissa, não viria de volta a vida sendo outro. Nem que repetissem imaculadamente todas as tragédias miúdas, rasgos, formas deste meu espírito. Sendo outro talvez não quisesse, talvez tivesse partido.

 Reticências acalmam almas mortas, silêncio perceptivo e reconhecido; um reconhecer ao alvejado por uma súplica incandescente aos olhos calmos e claros de outrora. Melissa não tinha costume e sequer compactuava com aqueles ditos amaldiçoados, sua razão milimétrica conduzia cuidadosamente estas metafísicas funestas, infernais. Sabia de chofre cá é lampejo metafísico d’alguma angústia. Então ficou saboreando aquele cinza raro dos céus misturados ao mar, ali parecendo-lhes infinito.

– Nunca pensei nisso. Se viria como outra, se seria outra mulher. Meu nome, caminho, tudo fez de mim aquilo que devia, caso o destino exista, se não; cá está o tempo coagulado. Não me parece mancha, sequer agonia. A memória que turvar meu próximo passo, desapego e acato outra melhor. Ah, não é ser máquina Juca, é aprender algumas partes possíveis maleáveis do ser. Tanto pensei em destino, se houver, então não foi eu quem escolheu outras memórias. – O dia desfeito dava início a penumbras sombreadas modificadas pelos feches de luz. – Logo é indiferente a nós, a mim, se há ou não destino.

 Embarcações pareciam fantasmas colossais e as plataformas seus Olimpos. Luzes amareladas cinzentas giravam enfurecidas com alguma circunstância intangível. Trovejou dos céus finalmente. Um clarão violento e choroso.

 Levantaram e cuidadosamente desviaram das partes mais escorregadias do recife. Pisaram na areia úmida, entreolharam-se e confirmaram caminho comum. A orla fazia sua curva tímida na distância, molhada por luzes amarelas, vozes e uma alegria incomum. Decidiram passar mais algumas horas no bar Troças, perto do ponto de ônibus. Dos quiosques próximos, era simples, protegido por telhado cogumelo bege e tinha cadeiras brancas, mesas bege. Haviam poucas mesas ocupadas; sempre os mesmos clientes e raros turistas curiosos atraídos pelo aspecto incolor. O dono era Silvano escapa-balas, por segundo si mesmo, ter desviado de tiros em uma fuga; diz ter visto a bala passar por cima de si e nos lados. Era gorducho protuberante empurrando sua camiseta para frente, de cabeça redonda e papuda, barba espichada e beiços largos; nariz quebrado e mal ajustado, calvo de cabelos ralos arrodeando o crânio feito uma aréola. Sua calça cargo surrada, botas militares pretas altas. Quando viu Juca esboçou um sorriso largo mostrando dentes amarelados.

– Ah, os vivos andam na terra. Já estava perto de dizer conheci um morto, daqueles, daqueles! Ha, se não é ele o Juca. Sentem, sentem. Melissa, não? Isso! Que alegria, já vou colocar outras músicas; os presentes já são antigos e antigos que se acostumem. Ha, ha, ha. – Ambos riram alegres. Trocaram olhadelas afetuosas e foram até a mesa. – Isso, isso, vão beber o mesmo? De sempre? Ha, ha.

 Confirmaram com um abaixar de cabeças rápido. Sentaram na mesa mais próxima a caixa de som. Puxaram seus celulares, responderam algumas coisas, observaram outras. Juca bem mais ligeiro neste aspecto, em verdade mal destravou tela, observou notificações, suspirou brevemente e descansou esticando as costas. Melissa já mais ocupada, tanto pelo trabalho, quanto por tímidas mensagens flertes, amigos e amigas; família. Juca em si não parecia manter continuidades, sequer conversas simples. Quando surgia era uma onda veloz eufórica, contaminada por saudades irracionais; trazia para perto aqueles enterrados defuntos, amigos já esquecidos. Amá-los era uma condenação ao eterno retorno. Vê-los reanimava seu espírito, escancarava feridas ainda abertas e um pulsar pela diferença do seu estado atual.

                                                                           2.

 Suplicar já não lhe fazia diferença alguma, então silenciara. Há dois dias não tangia tela sequer ou dissera palavra, seu corpo inteiro rejeitava pretextos, não havia mais espaço crepitante para martírio. Quando decidira ir mesmo hesitante, sentiu costelas comprimirem e um átimo desesperado romper traqueias, mas não agiu. A esquina protegida pela criatura negra de chifres altivos pontiagudos, presa por cordas à uma árvore robusta de galhos tentaculares. Era um bode alto musculoso, seus olhos alaranjados pareciam iluminados na penumbra. Todas as vezes que tinha de passar por lá tremeluzia, quase uma estátua a criatura não se movia; seu coraçãozinho gemia junto de um arrepio nas vértebras.

 Pausou desta vez, observou se a criatura se movimentaria. Esperou por alguns instantes breves mordido por raios solares ásperos, mirava transeuntes em seus passeios rotineiros se aquele bode causava mesmo espanto; mas sequer um compartilhara da agonia trazida, todos em verdade pareciam acostumados e um a outro até traziam no semblante certa veneração. Detrás, algumas quadras depois a igreja dos caídos permanecia intacta, na imaginação infante fazia crer que o bode não deveria estar ali tão próximo do divino. Seus olhos ardiam já, tentava penetrar no laranja fosco da criatura que devolvia um olhar ameno e tranquilo. Baliu repentinamente um de início agudo que minguava em um rouco fosco trovejante; seus olhinhos já cansados transfiguravam a situação, e até hoje jura ter escutado seu nome.

 Corria veloz arfante, curvava tornozelos feito molas grudadas às canelas, a bolsa socava suas costas e nuca. Mais duas esquinas e chegaria. Escutava passos rápidos ligeiros, cascos batendo nas calçadas e aquele balido feito vórtice dando coices em seu crânio. Pessoas riam de si a si ao semblante estupefato e esbugalhado, exagerado daquele meninote miúdo. Cabelos desgrenhados, testa e bochechas suadas. Virou mais uma vez e há duas casas de distância um dos amigos esperava Iuri abrir a porta. E então cessou, as miragens e ruídos, aquela memória recente devastadora dissolveu-se; Ivan que dava outras pancadas na grade salvara, sem sequer ter ideia. Ele tentou disfarçar seu sufoco, mas a respiração pesada e o gaguejar denunciaram tudo. Não contou sobre o horror, mas as especulações extraordinárias sobre o por quê daquele bode viver ali sempre surgia; mas somente ele passava por seu santuário, então somente ele compartilhava daquele horror tímido.

                                                                          3.

 Juca e Melissa ficaram quietos por alguns minutos, imersos naquela quietude plácida da companhia. Trocavam olhares afetuosos, miravam moleques brincando na areia enquanto a noite nascia devagar. A boemia pouco a pouco tomaria conta das calçadas, quiosques e bares lotariam daquele aspecto tentacular das euforias tímidas, melancolias exaustas e angústia. Ao observar mútuo, noites assim traziam consigo algo inadiável, ir embora viria somente como resposta de alguma pergunta do destino. Nesta parte os rostos afastados e amigos supostamente esquecidos romperiam a sensação do desmanche, ganhando a forma antiga do amor puro e genuíno. Ernesto costumava ir até lá, a sexta mais parecida com um sintoma impulsionado pelas místicas dos goles e concomitante às diferenças mescladas por sensações mórbidas das suas memórias inebriantes, cada minúsculo embriagar transfigurava os horizontes da sua vida; mesmo que ao dormir e despertar tudo estivesse desfeito. Havia uma sobriedade curiosa nele, religiosamente tinha de beber uma vez no mês, preces ao Dionísio ou para afastar navalhas das rotinas turvas.

 A noite inundou as ruas d’uma penumbra sofisticada, faróis e postes projetavam sombras. Entravam na terceira cerveja quando viram Ernesto atravessar a faixa de pedestres, desta vez não uniformizado, camisa enorme e larga, calça cargo preta, botas; suas pernas gorduchas e a protuberância da barriga davam-lhe uma característica de Eudaimonia. Avistou a dupla tagarelando arrodeados das diversas criaturas noturnas entre copos e doses, drinks. Areia cinzenta, ventos esfriando aos poucos, ondas terminando suas rotas ecoando uma amenidade específica. Silvano acenou alegremente e foi levando um copo para a mesa. Raro Ernesto estar sem o José, as notícias não se tornaram fato, porém tudo tem pressuposto que a Jéssica voltou para sua vida e com isso, desmanchou mais da metade dos costumes anteriores. O maior, os copos com Ernesto.

 Desmanchar continuidades mancham gravemente o espírito daquele abandonado, seja uma rotina desfeita ou encontros comuns corroídos; sempre alguém será contaminado pela falta. Ernesto parecia disperso, confuso, suas saídas solitárias e companhias cada vez menos necessárias. Vez ou outra isso tem um teor tranquilo daquele soberano sobre si, independente dos alheios, contido por uma autonomia sofisticada. Mas as vezes denunciava desespero, tentativas mirabolantes de repetir cenários. Sem o outro as coisas findavam.

 Surpreso pelas presenças ali não conteve o sorriso que precede lágrimas alegres. Abraçou-os com força, fazendo Melissa arfar entre risinhos abafados. Não saía há muito, então tinha coisas a dizer ainda que poucas, era daqueles que poderia ver o nascer de um santo; ainda teria muito pouco a dizer. Resumiria drasticamente, como se o mundo fosse altamente mecânico ao ponto do surreal se tornar simples descrição romantizada. Suas rotinas denunciavam este modo, responder burocraticamente perguntas que abriam novos labirintos até a exaustão do ouvinte, lhe causava ulceras ardentes. Pensava constante noutra forma, mas tão distante quanto luzes esverdeadas das plataformas ou sonhos mirabolantes infantes; estava arruinado, concursos prometem estabilidades capitais das quais alguns espíritos não se recuperam; há algo ainda, há a vida.

– Boa noite, camaradas. Quanto tempo, em? Melissa, querida, alegria te ver. – Seus olhos pretos enormes esbugalhados transbordavam genuíno, ambos sentados saltaram para abraça-lo. – Hoje saí cedo, Deus estourou algum cabo ou fonte, os portões falharam, foi infernal sair da caixa. As ligações pararam e o pior, a senhorinha estava prestes a resolver uma questão, crê? Ali resolver qualquer coisa é motivo de missa.

– Oh, oh, se não é ele! Ih, belíssimo o traje, preparado para o caso de as entidades marítimas saltarem contra nós; seria belíssimo. Certeza as arrebentaria com estas mãos que mais parecem martelos. – Juca tremeluzia enternecido. – Trazidos de volta a vida, então? Por mim aquela caixa derretia, ainda que você precisasse achar outra vida, por que não caçar baleias? Ou apagar as luzes das plataformas.

– Meu amor, gostei do traje. Encontrei esse aqui hoje, sabe vontade de ver? Pois é, chamei e veio, coisa rara. Mas e o senhor, como vai? Tem visto o José? Há denúncias graves, ele teria voltado para Jéssica. Não sei bem se seria ruim, acabou tão mal para tal? – Já com os olhos marejados falava enquanto prendia o cabelo. – De qualquer forma, celebremos.

 Sentou com uma exaustão ruidosa, encheu seu copo vorazmente entre risos e engoliu o líquido d’uma vez, Ernesto não esboçou mínimo esforço e como para acompanha-los, vendo as garrafas já bebidas no chão, encheu outro e altivamente ergueu pesadamente os braços brindando antes de virá-lo novamente. Soltou um arfo longo e rouco, lacrimejava. Contou então do José, como o mesmo vinha tendo sonhos cada vez piores, mulheres saltando entre árvores, sombras desenhando formas em paredes, ruídos e gemidos. A vida tornada calabouço daquela especulação rotineira, mentes ociosas ocupadas pelo aspecto miserável das imposições, toda brecha Jéssica rompia seu silêncio e manuseava cenários mágicos e erros milimétricos de suas próprias decisões; José então chorava cada vez mais ao sair e beber na presença dele, em nenhum estágio aquilo lhe cansara, entretanto o em desgraça sente enfim vontade de saná-la, seja pelo ridículo ou heroico – ainda que na mente do arruinado ambos têm o mesmo sentido. O trabalho vinha também sendo árduo, não só para ele, quanto pro próprio Ernesto; as viagens reduzidas, posições alternavam quase caoticamente, atendiam chamadas e outras vezes gerenciavam setores, em seguida lidavam com vendas, o Chefe panfletava propostas feito santinhos políticos; eram sempre chefes variados, como se até no alto cargo as coisas tivessem girando como rolar de dados macabros. Por serem concursados, tinham seus sonhos anteriores abandonados e não engavetados, não discutiam sequer outra forma; estabilidade, saúde, não há na coragem isso.

 As reações foram cômicas, preocupadas, mas enfim complacentes. José atribuía ao fim daquela relação o fim da vida. Um futuro robusto e mágico, esmagado pelo martelo odioso do real; ainda que passassem duas vidas inteiras, não entenderia nada. Ela ir foi a si o fim d’uma parte inteira, talvez tenha ido junto tudo. Hoje mais parece um reanimado defunto que um homem, então caso tivesse ido como as histórias vinham surgindo, atrás dela, teria feito um ato diferente daquele reanimado por diabrete maldoso, qual vida vem a ser somente rotinas substituíveis por qualquer outro homem. Jéssica um mártir suplicante inquieto, d’alguém que não lhe aparecia fisicamente há mais de um ano. Então, esse desejo avolumado por noites delirantes, especulações ululantes precisavam acabar e ser definido. Não obstante, Ernesto lhe ouvia e criava concomitante àqueles choros detestáveis, uma semente que provavelmente deu fruto. José teria ido até ela.

– Caralho, o José então além do emprego de vocês ter se tornado um joguete sádico das mega corporações, está atormentado pelo rosto dissolvido da Jéssica. Ih, ih. Aí tem um final belo a surgir ou enfim a resignação, há algo surreal deleitante naquele disposto a encarar reavivamentos introspectivos das decomposições amorosas. Aposto com os dois, Ernesto e tu, tu mesmo, Melissa, que cara é essa? Aposto que José reata e casa, seu apartamento recebe de volta a vida. – Juca estremecia e de chofre gritava ao escapa-balas por três doses esverdeadas. – A vida nem é feita daquilo lá (apontava pros prédios altos ofuscantes na outra calçada), e também não dos carros. Em verdade, a vida não está feita de forma alguma. Nem resolvida sequer. Não estamos aqui pedindo a cura, ah, ah, cura para uma vida inteira. Mas há certo teor condescendente em dizer todos tem altos e baixos (falava a frase com repugnância, em careta e gesticulava aspas), se todos tem, ninguém tem nada. Ih, ih. Lá vem, vamos, vamos toma-las em homenagem aos olhos.

– Aposto, tá bem, aposto! Não sei o que! Você nunca aposta nada, tem até a regra tatuada na nuca; ah, ah. Ele não tem essa coragem, é um homem resignado e quase burocrático. Leva a vida com extrema simetria. – Ernesto segurou o copo com as duas mãos escondendo-o e deixando só a boca e virou. – Meu deus, que diabo verde é este. Não riam, meu deus, meus olhos.

– A vida ganhou significância repentina a você em, Juquinha, parece até um lamento. Diabo verde é muito forte mesmo, nossa. – Sua voz escorregava da boca feito brisa leve e de repente seus olhos avermelharam seguido por uma crise de tosse. – Ah, ah, meu deus. Se o José a tem de volta, eu visito a pedra furada; vou até lá andando pela praia.

 Monotonias borbulham em qualquer espírito depois de vislumbrar prognósticos cáusticos. É um açoite inesperado, beliscão, mordidela; o corpo reduz o estado atual ao susto d’uma vida distante, indiferente à sua e então deve lidar com aquilo para não permanecer. Os três deram uma pausa breve, tanto pelo líquido verde despertar certos estágios quietos quanto as imagens da vida do seu amigo. José e Jéssica, José e um apartamento empoeirado pela sua própria pele caindo aos poucos. Vida e alguém, vida e estar só. Não há simetria entre pensamentos, são as vezes até diametralmente opostos; porém, há uma intromissão especulativa em todo humano, quando abstrações são trazidas à tona. Estar só ou não, prédios, carros, rotina; a vida não veio a nenhum ali preparada e modelada, a vida sequer as vezes apareceu(ia). Quartos mornos emplacados por uma escuridão gelatinosa, vozes feito bater de asas, sopros violentos; passos distantes sem destino, luzes piscantes, vidas surgindo e esvanecendo entre lapsos. Cada um, na brevidade miúda de suas vidas cedeu ao âmago aquele instante inebriante quase melancólico da disposição compartilhada no afeto pelo outro e enfim, chegaram ao mesmo ímpeto: José não sou eu, ainda que o ame.

 – Nossa, se deixasse perderia a noite nisto. A relação deles parecia tão encaminhada, trilhada. Para longe, bem longe daquele clichê isto é a vida. Não é a vida. Até por obviamente não termos ideia. Leio algumas histórias românticas e outras mais simples, sinto o mesmo apreço; existe mesmice nas duas formas. Supor agora que o José será romântico no sentido quase crasso, do suplicante desejo daquilo que era e não sendo mais, talvez ainda nem sequer triscando uma semelhança. Vislumbrando a Jéssica hoje violentamente diferente, quase irreconhecível, anularia o desejo crasso do nosso herói ensandecido José? Creio que não, a contradição do romântico aí está na vida continuar ainda que a sua razão tenha sido diluída. José que esperava o mesmo, o que era, lidaria e aceitaria aquilo desfeito pois ela ainda seria Jéssica. – Melissa empolgava com o cálculo lógico ligeiro e a comparação espontânea de não existir diferença possível naquilo que o romântico deseja. – Então é inevitável que ele vá. Ou, senhores, eu não iria.

– Justo, diametralmente oposto a ele, amo isso em você. Há aí uma perturbação lógica sistemática, uma organização quase milimétrica dos prognósticos. Talvez, só talvez, depois de dezesseis retornos à vida, nasceria uma Lissa capaz de ser insana. Mas não há nada insano contido nesta atitude possível do José, há a vida somente. Ser daquele ou desse jeito, explicitamente voltado a relações não conduz a razão alguma. É deprimente, ensurdecedor, absurdo; mas é isto, é a vida. – Juca brilhava seus olhos claros, gesticulando vorazmente, dando tapas na mesa e em si. Apontando para nuvens como se invisíveis santos retrucassem. – Se nosso amigo for até lá e diante dela seja esmagado, nele nada morre. Nela algo já terá nascido. E o destino continuará indiferente.

– Eu não sei o que faria. Vocês dois provavelmente sabem. Juca talvez não, em verdade, difícil que ele vá e faça; geralmente elas fazem. Um homem que vive de decretos entre humanos. Porém eu não tive essa experiência, minhas relações evaporavam com o tempo, nunca senti amor ao ponto de sequer pensar nisso. Quando sinto a dita paixão são ulceras, causam um horror nítido. – Ernesto falava laboriosamente, deixando as palavres as vezes formarem fumaça ante si. – Paixão adolescente talvez, mas eram como um desejo curioso, não de afeto; era experimentar um novo chocolate. Tanto que, ah, ah. Das vezes que curti não fiz julgo, beijei tudo. Talvez prefira o sintético, ali surgem sensações, mas de nenhuma permanência.

 O céu abriu nuvens feito garras expondo o azul cinzento lambido por uma lua tímida. Clareava e as músicas abriam caminho entre as mesas, uns levantavam para dançar e fumar. Próximo ao mar outros juntavam-se e voltavam para comprar mais bebidas. A madrugada virava um sistema interligado por olhares e ideias nascidas dos desvios, dos lapsos contidos entre frestas desejantes aleatórias. Sentir aos poucos virava redemoinhos e da introspecção nascia e morria futuros possíveis, mesmo que ordinários como o trocar dos nomes. A mesa deles agora arrodeada por garrafas e um ar inquieto feito neblina das palavras recentes, onde não só tentou-se ver até onde iria amar mas que talvez nenhum quisesse. Juca caminhava fumando dando baforadas azuladas dançando entre acenos reconhecidos e breves sustos de rostos familiares. Ernesto lembrou que d’última vez qual cedeu às cores, acordou no banheiro do bar; lembrou dos dedinhos pontiagudos rasgando sua memória quando vinha a tona alguns detalhes, arrependia ao ponto de grunhir. Já Melissa compartilhava da euforia robótica compartilhada pelo Juca, ambos se misturavam e soltavam-se entre passos inventados e risos alegres.

 A vida pulsava e diante disso restou-lhes viver; ainda que ninguém precisasse ver. Viver nessa madrugada tornou-se algo simples, toda gesticulação com conceitos, com existência resumiu-se a alegria de estar junto e dançar junto. Coabitar aquele instante infinito germinante de uma nova saudade.

                                                                           ~~

 Eu voltaria ao olhar petrificado, mas também permaneceria estático. Ir até lá e movê-lo, infante, não reorganizaria nada só me faria não voltar até lá; talvez existir indiferente ao destino como ele mesmo é indiferente a isso. São súplicas, são corrosões, é ser impermanente.

 A vida está lá fora como tudo aqui dentro não está comigo.

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