ANJOS.

ANJOS.

02, NOVEMBRO, 2023.

 SOBRE ANJOS. 
 
 Ruídos cessam entre seus desejos próprios, gesticulam formas incessantes;
 Há calmaria germinando na alma, lá onde nascem espíritos nítidos;
 Esferas dos vultos fantasmagóricos açoitando incessantemente portas e janelas; 
 Vou até eles com olhos cáusticos chorosos, abro a boca, mas não consigo dizer;
 Nada tende a manifestar, nada consegue dissipar o sentimento vil ululante,

 São sistemas simplórios, maquinários robustos e altivos nas articulações;
 Maldizem e corroem os olhinhos santificados infantes, usurpam da alegria;
 Vultos das memórias inquietas confundidas pelos aberrantes estímulos próprios;
 Tudo é feito a sós, tudo está calejando os ossos, ferindo a garganta e interrompendo;
 Dizer, qualquer dizer é poeira arrastada, arranha até rasgar e então cessa sua razão,
 
 Se eu não fui capaz de dizer, ao mesmo tempo que não perguntei, ao mesmo tempo que;
 Nada nascia, malogrado pelos tentáculos abissais do medo, algum medo infernal;
 Mas é meu medo, é meu desespero, é minha desgraça, tudo aqui é simples;
 Tudo nasce feito letargias, despertares assombrosos, esquinas viradas e sons;
 Rostos modificados ao toque do sentir, córneas, pupilas, recebe e rasgam as imagens,
 
 Nada permanece estagnado, os deuses não lhe dariam ou me dariam o óbvio horizontal;
 Retas acertam outras viram curvas labirintos e lá onde brilha a luz, brilham cem outras;
 Turva desgraça incauta, quem organiza está decomposto, quem mira já está morto;
 Vou até ela arrastado pelos diabretes miúdos, coçando e alisando seus chifres;
 Línguas longas partidas ao meio lambem minha testa lisa e desmancham os futuros,
 
 Então volto ao mesmo, a mesmice, pura lamúria corrosiva, deste mesmo estado;
 Lá fora arde um sol infernal, peles rasgadas adoentadas, maldizeres contínuos;
 Placidez remota e distante feito gozo alegre infante delirante, nada repete, nada volta;
 Mas estou nas mesmas instâncias, gesticulando as mesmas sombras e tentando expor;
 Um mesmo choro, um choro último idêntico ao grito vertiginoso dos mortos,

 Liberdade dos grilhões soltos, a voz já não mais requisitada ou implorada pelo outro;
 Dedos já feito linhas incongruentes, mãos dissipadas esvanecidas, perguntas herméticas,
 A mão é minha, está aqui? E a costela comprimida, um bater violento no peito suplicante,
 Chega a vez de sentir o óbvio, o sentido simples de todas as vidas humanas, caminhos,
 Que em si esboçam diferenças, quais são pisoteadas pelo tempo e a história.

 Tudo acaba, o infinito se reduz ao átimo sentimento rompante, 
 Guilhotina qualquer mísera razão material, qual conduz,
 Com violência ao dizer miraculoso, bestial,
 Traz consigo a língua dos demônios,
 E diz tudo que é possível dizer,

 Os olhos entorpecidos pelo milagre da palavra,
 Corpos dissolvidos,
 Delírios manifestados incessantes, tempo futuro derretido,
 Existir sem cruz,
 Existir sem história e medo;

 Mas não se foge do medo, ele volta feito um urro horrível na madrugada quieta,
 Dissipa qualquer paixão metafísica,
 O inferno do real,
 Do estar hoje cá,
 Não lhe traz vida alguma, prognóstico nenhum.

                                                                          2.
 
 Nuvens fumaça de incensos
 Choros histéricos pontiagudos
 Horizontes malogrados 
 Sistemas elaborados
 Ao ser aquilo que desmancha,

 Santos desfeitos pelo horror
 Dos homens empilhados nas covas rasas,
 Despertem, despertem aqueles que quiserem
 Diz a voz berrante aguda,
 Os que quiserem voltar, arder de novo entre paixões
 Sentir cada centímetro repetido da agonia,
 
Voltem a mim, ouçam, voltem,
 Deram-lhe covas rasas, 
 Perdidas balas, bombas, crimes,
 Não houve divindade para lhes tirar,
 Nem sequer germinar alegria,
 
 Ainda que nada significativo eu possa manifestar
 Nem a vida alterar sua forma horripilante,
 Onde úlceras borbulham estômagos infantes,
 Doenças celestiais infernais destroem os ossos,
 Que de humano, qual parte humana deus terá tido prazer em criar,

 Ah, ainda assim, aos reanimados, quais preferem outra vida
 Onde tudo rói, tudo padece, esvanece, nas agonias 
 Simples horrores metamórficos dos débitos,
 Do preço maldito para adoecer,
 Há até nisso miséria,

 Então, aos altivos, imaculados
 Condenados ao eterno retorno,
 A quebra exclamada da metempsicose
 Não há alma, não há nada, sequer espírito
 Toda nova vida é uma chacina,

 Mas, a voz pausa feito cessar de trovão, o corpo é outro
 As dores são novas,
 Mesmo nas poças infindáveis do ser, exista inconsciente memória,
 Do inferno, da fé, dos céus,
 Escolher voltar ao caos puro e genuíno, do rolar de dados,

 Onde se nasce, como se vive, e o mérito deplorável
 Do nascer ali ou aqui,
 Ser isto ou aquilo,
 Conduzido pelo nascer constante inefável,
 E perguntar na última súplica,

Outro rompante silêncio ardente, o céu alaranja, avermelha e explode
 Para quê? Para quê? Para quem?
 Estar imerso, submerso, entre lapsos do sangue,
 Lapsos aleatórios da vida,
 Conhecer, desfazer, e ver tudo morrendo
 
 Como se nisso houvesse natureza humana.
 O normal aos outros ou a mim,
 Humanismo, união resplandecente
 Guilhotinas aspirantes, conquistas mirabolantes
 Reduzindo homens ao pó.

 Labor,
 Dinheiro,
 Liberdade,
 Ser,
 Mas enfim ser nada.

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