ESPERANÇA.
08, FEVEREIRO, 2024.
Um dia o corpo esvai, derrete. A vida mais lhe lembra se esgueirar e aparentar outras formas que não aquela anterior. Rosto novo desfeito, refeito, continuado. Retorno e ciclo, catracas desgovernadas para maquinário ultrapassado. Solícito e maltrapilho não recusa e se necessário exprime desculpas genuínas amargas pulsantes, vindas dos requintes santificados do coração. Alveja-se continuamente por misérias distintas infames, distantes e ainda prognósticas, nenhuma factual tangível; o futuro lhe parece corroído, decrépito. Seu corpo está sempre caído quando calcula porvir, decompondo devagar; e suas façanhas, ideias robustas vão tornando-se labirintos cáusticos entre curvas insólitas cheias de dentes. Janelas altas nos cômodos onde vive, tapadas por grades de aço prateado inalcançáveis sem um gigantesco esforço, o sol esgueirado pelas frestas lembra-lhe condenação. Assumiu este destino para se poupar qualquer outra tremenda agonia. Seu destinho continuado na corrosão da forma humana – Um puro negar do corpo, instinto.
Vozes ladravam pelos arredores do santuário, gemidos histéricos, choros entrecortados. Ordens imponentes ardiam como tambores trovejantes e aquela pequena comunhão obedecia, aos poucos minguando o barulho. O condenado levantou e pondo o sobretudo empoeirado acendeu algumas velas, a luz empurrada por ventos fracos expôs um cubículo tristonho. Uma cama de solteiro encostada, colchão velhaco surrado, cômoda com imagens suplicantes e um largo livro. Suas roupas pareciam ficar no baú em frente. O esforço junto à barulheira lá fora lhe fez arfar, costelas pressionadas por uma mão invisível roubando-lhe alguns segundos. Nestes lapsos rompantes onde razão e instinto colidem, cada centímetro tentacular das desgraças contadas, dos ajudados por ele, condenados, salvos; cada migalha é manuseada por diabretes soturnos. Logo a disformia repentina ruidosa, daquele servir que a si o salvara, transformava-se em uma colisão com o próprio dever. Ajoelhado traz as mãos pro rosto, diz algumas palavras santificadas e a cáustica visão aos poucos vai se desfazendo, luzes cessam seu tremeluzir junto aos ruídos dos passos ligeiros sombrios. Erguido com olheiras fundas como poços vai até a salinha, onde a imagem está estagnada e aos pés flores, colares, terços, livretos, cartas amontoam-se; oferendas suplicantes. Mais um dia arrastando grilhões introspectivos.
O sol ardia tanto que seus olhinhos lacrimejavam. Eram espetos arremessados por entidades sádicas. Maldizia como alguém que continuamente esteve exposto ao medo. Caminhava tropeçando nas fantasias químicas cinzentas, mundos cheios de tentáculos. Exposto bem cedo aos versos santos, misturou predisposição imaginativa às esperanças divinas; cubículos redondos contra as igrejas, eremitagem contrapondo estagnação. Suas invenções solitárias brindavam planetas inteiros novos, unidades específicas com vidas pulsantes diferentes. Difícil lhe era imaginar demônios ou infernos escaldantes. Hoje arrastando as lágrimas presas feito bolhas nas olheiras, nota que também era difícil enxergar o contrário alegrias ou céus infinitos. A si, mesmo infante diante do sangue escorrendo pelo corte miúdo, não lhe vinha chaga ou esperança, lhe vinha nada.
Minhas preces se arrastam pelo piso viscoso das manchas, minha pele decompondo noite a noite amontoando-se, germinando esta continuidade. Oh, Deus, há reviravolta para isto? Vim até aqui, cheguei tão longe, para o ciclo ser o mesmo. Meus dedos tangendo vórtices, lapsos, desespero em que há algo alienígena onde toda exposição não só é banal, mas é de uma culpa infame risória e minha. Peste, que joguete maldito é este, senhor? Vistas ou cenários, das sombras arrastando seus sobretudos pela casa. Arquitetura ou nada. Quando machucava tinha medo, quando amava tinha medo, quando quis tive medo, agora não resta nada. O material da vida rejeita qualquer saída daqui, a carapaça agredida pelo meu espírito que contorce e contorce. São ecos tormentosos de um lugar inespecífico qual manifesta-se somente a mim.
A embarcação guiada por uma forma coberta, seus braços esguios torneados marcados por cicatrizes intermináveis. Virava vez ou outra feito farol lento vagaroso girado por mecanismos seculares. Tinha a voz feito algodão leitado passando pela pele, demorava eternidades para compor aquilo que queria mostrar. Na madeira que atravessava o barco sentavam outros três homens encapuzados usando calças de pano, descalços, com hematomas recentes pelo corpo. Ele que pregava ter vindo ao mundo para movimentar-se, jazia contorcido no piso frente aos outros, não chorava pois seus ouvidos grudados no piso escutava uma mistura insólita de choro, pano arrastado, água soluçando nas lateiras do barco e o medo lhe calou. Há desejos possíveis, visíveis somente ao contato da alma de anima, eu lhe vi onde nada habitava mesmo quando alegria era espalhada. Nítido sempre parecia ser o medo, nada mais. Seu corpo estremecera envolto por cordas ásperas untadas em ácidos, um choro rugia das traqueias mas suas mãos retiveram. Aquele não foi um pensamento seu, quando ergueu seu pescoço viu que a forma coberta estava olhando para ele com o vão vazio do abismo que cobria sua cabeça.
Algo se alastrava nos córregos da alma, rompia certezas, rasgava projetos, rasgava vidas possíveis. Sua mente ativa preocupada, diante deles ali que esperavam ajoelhados lacrimejando, gemendo choros nebulosos das questões malogradas de um assassinato aos filhos fugidos, da pobreza escaldante ao tumor recém-descoberto; e ainda alastrava, seus tendões corroíam. Quis gritar e enxotá-los com seu cajado cerimonial, porém, coberto pelo sobretudo morno ficou estático. A mente arremessada, espírito puxado por grilhões do corpo e pôde se ver lá no piso batido recém-varrido, viu sangue escorrendo dos corpos e o choro ajudando a coagular. Tanta vida e dor convoluta invadindo suas palavras esperançosas, esmagando o conhecimento divino; algo material surgiu ali disforme, ainda precário mesmo assim balançou suas certezas. A palavra divina tentou tomar posse de si mesmo enquanto serviço clerical, agrediam seus ossos, mordiam seu pescoço; gritavam pelos corredores do crânio para que expusesse aos quais ajudaria ali hoje, quão amargo é o inferno do seu próprio espírito.
Não fez, os grilhões cediam, a vida continuava. Há isso ainda, há a vida.