12, MARÇO, 2024.
INQUIETO (15)
Volta e meia formas solidificam-se, sombras disformes caminhando em desespero tentando achar simetria. Vozes ruidosas rompendo quietudes raras entre passinhos miúdos. Sou-lhes grato, há épocas que detestei estar cá nesta carapaça funesta empoeirada, desmanchando amontoando pele derretida nos cantos; talvez hoje não me seja ruína, seja só isso, a coisa me é. Socos secos dos ossos inquietos tentando rasgar a pele. Virtudes jazem crepitantes escalando suplicantemente meu corpo, acertam pontos centrais atravessam pele músculo e injetam torpor nas veias; como um eco áspero nascido das profundezas dura meio minuto e a epifania entorpece o imaginário tateante qual soluciona passado, futuro, presente uma nova vida resplandece magistralmente mas é desfeita, corroída perpetuamente esquecida ao fim do meio minuto.
Morte e tempo esculpem sistemas mirabolantes, épicas traiçoeiras, religiões profundas abismais. Há vida pelos cantos quaisquer, ecos pueris e odiosos convolutos, emaranhados tentáculos. Somos causas pretéritas contínuas, presentes inadiáveis infinitos colapsos; época qual tudo invade olhares distraídos, foco já é causa menor nefasta. Notícias mágicas das fontes rejuvenescedoras, memórias contínuas dos fracassos, comparativos fúnebres dos outros inalcançáveis em suas riquezas sempre expostas; conhecer torna-se miséria subjetiva, nada mais é saber, tudo pode ou não ser. Dinheiro substituindo a fé pura, o horror da dívida, horror da doença, horror de ser-humano quando tudo está aos centavos da própria possibilidade; perdão senhor capital, pela tragédia, nasci tal qual um caído e como tal a mim só resta a morte? O dinheiro hesita, porém toda chaga econômica dura alguns dias, quedas da bolsa, países quebrando tudo é um manifesto de um deus impiedoso cruel infinito, a discrepância absoluta entre ele e o outro é que dinheiro não espera morte alguma para punir, pois até na morte, o débito feito tentáculo gruda em outro alguém. Perdão capital, já não há mais controle, não lhe resta mais nada de nós em ti.
Olhos cáusticos, feito pessimista mesquinho rasgando a dentadas qualquer prenúncio fantástico. Do que brilha sente só arder vistas, do que promete sente só a quebra. Verdes horizontes sem emancipações, palavras filosóficas rastejam pelo piso tomando formas odiosas quais esmagam formatos diferencias positivos, chaga perpetuada pelo próprio afeto causado naqueles timbres espinhosos, abissais. Sujeito talvez rompa seu próprio silêncio quando átimos borbulham sensações carinhosas, quando seu ato mira diabretes arquitetando futuros decrépitos e se anima, diz como fosse si mesmo, como aquilo lá organizado para pura ruína, fosse seu. Humano, humanizar formas e almas, adentrar naquilo desmanchado desmotivado, perceber qualquer resquício metafísico próprio, ver até onde há espírito e onde nasce o eu e se não houver nada, talvez seja um que resistir seja antinatural.
Correr por ruas iluminadas, arranhado por raios solares. Vida pulsante. Estar na próxima esquina, próxima curva, próxima vida e descontraído saltar para outro plano, livre da carapaça voar para nuvens, assistir cores desintegrando-se pouco a pouco e aquele nada tentacular estar manifesto. Braços nascem das suas costas, olhos nas mãos conseguindo enxergar todos os lados de si. A visão lhe causa euforia, feito esfera deixa ser empurrado por correntes opacas e aquela vida incolor lhe injeta calmaria. Há ruídos sussurros, passos e vida lamentando em algum canto, mesmo esférico perpétuo não encontra da onde; suas mãozinhas inquietas de olhos claros giram giram, até arder. Mundo tão nítido na ausência pura das cores. Vê ondas abrindo frestas nos recifes. Sua memória pouco a pouco esvanece, qualquer vida antiga, qualquer sentido do contato entre cores é feito delírio, pesadelo mórbido. Acostuma-se ao nada, guiado por correntes caóticas. Não há nenhum outro, todos ficaram submersos eternizados nas cores. Talvez tenha morrido, talvez tenha virado nada.
Conheço-te, vem a mim como princípios possíveis, cura e vida. Há recortes do tempo, risos alegres sofisticados, dias diferentes. Entretanto mesmo lá, estou estático de repente, olhos cravados em ponto algum, arrodeado dos amigos dos risos dos gritos. Mesmo assim imagem formada detrás de todos eles, talvez a curva talvez o horizonte. Até voltar, já terão sentido falta, com pés cravados presos ao chão sinto que vou voar e acertar o poste. Eles tocam a bola para mim, recebo, driblo até sentir um encontro forte, não caio, levo para esquerda ouso passar mas hesito um cai ante mim, chuto. Há certa alegria ali, mas não estou nos detalhes daquelas decisões, nem antes ou depois, estou observando aquela coisa imagética na curva. Me abraçam, aplaudem, perguntam se colocamos mais dois gols e digo que sim, um sim escorrega dos meus lábios e tange seus ouvidinhos atentos; gostam do que consigo fazer, não lhes sei explicar, são atos sequencias e só. Quem apareceu ali, quem aparece aqui, quando algo viria a ser autêntico.
Meus olhos ardem. Está tarde. Melhor ir. Dormir jamais conheci, medo letárgico até apagar. Vidas anteriores e novas. Tudo está manifesto pelas diagonais do meu crânio. Vou cair mais algumas infinitas vezes. Ruína, saúde, ruína, saúde. Não há grande horror entristecedor, há certeza de que isso não tem fim. O mundo real, mundo real, até que ponto ficará distante dos meus dedos e qualquer outro parecerá magistralmente arquitetado, capaz e inevitável.