17, MARÇO, 2024.
RUÍDOS.
Aos poucos o tempo reduz um homem ao seu rastro miserável. Vacilante, oscilante tal qual parasita com membros corroídos de um empenho egoísta, assecla honroso dos instintos inefáveis. Corpos reduzidos aos prazeres inevitáveis – a si – e os dias passageiros fragmentos voláteis. Vício sequer traduz suficientemente isso, despreza ordenações e pior ainda os outros, seu arredor são tangentes minúsculas daquilo que mais objeta. Alheios rastejam lacrimosos, feito crianças miúdas onde palavras insuficientes não brotam, a absoluta resposta é um choro ruidoso infernal. E ele robusto dentro das máscaras oscilantes, cada miligrama ainda pulsando suas veias, criando alternativas ignora; o choro mais lhe é mosquito malogrado, tapa para afastá-lo, assoprar. Há mais uma linha, mais um copo, mais uma madrugada. Quem está fora de si que lide consigo, não há outra forma.
Sou um ruído vil, memória insuportável. Todas latejam navegando rios de sangue. Posso sentir a língua tocando minha carne, olho invadindo meu espírito. Sou lacaio desta substância, dela que me puxou para si, para esmagar. Reflexos malditos, indisposições substanciais feito lágrimas divinas. Amanhã desperto enfermo, para outra peregrinação sofisticada. Meu corpo jaz aqui amaldiçoado, tamanha dor, tamanha desgraça. Volto a elas caído, fajuto trapo, sequer falo algo, descanso junto à miragem dos seus rostos e amordaçado pela penumbra, tamanha vergonha sinto que desmaio. Elas continuam vivas, inimagináveis ao meu ego mesquinho, simplista, rarefeito; suas vidas me assolam gravemente. Minha memória traz de volta todo amor plácido, mágico, esmaga meu dia e decaio miserável tal qual homem feito eu deve. Choro mas não passa, próxima vez estou de novo acometido junto da chaga.
Caminho serpeante ante mim, curvas insólitas lambidas por frestas de luzes amareladas. Nuvens acumulam-se entre prantos lamentosos atormentados. Vou devagar, cada passo arrastado milimetrado sentindo músculos enrijecidos tremeluzindo mordidas por centenas de noites anteriores. Suplicas atravessam meu corpo exposto, sequer amontoam-se causando viscosidade, tempo fizeste de mim apático e onde há agonia permaneço plácido; calmaria subjetiva adoentada, olhar que esquece qualquer rosto senão o transfigurado. Todo o tempo faz do alheio uma corrosão, amar ou adentrar nos corpos malogram timbres enxofrados. Diabos causaram ruína em qualquer prognóstico ameno. Pouco a pouco qualquer contato breve, afecção sincera, assemelha-se ao embriagar turvo, qual pescoço pende e lança cabeça abaixo feito desmoronamento. Se não me arrastar para ti, fico estático imerso em diagonais infinitas neste crânio detestável. Ame-me antes do meu puro esvanecer.
A manhã esgueirou-se afastando meu corpo assustado, ao lado ela jazia tranquila lambida por brisas leves escorregando por entre as cortinas acariciando sua pele lisa. Mirava-a atordoado, ardia peito e costelas comprimiam, tentei afastar a dentadas todo rompante desmedido que surgia, futuros mágicos, versos incessantes. Debaixo dos lençóis torneados por curvas serpeantes, angelical permanecia. Levanto vou até o banheiro, lavo meu rosto mas antes sou açoitado por brevidades quiméricas, cada uma trazendo consigo palavras, sensações e como ela derramava seu corpo feito tinta em mim; tremia e arrepiado sentia excitação. Meus olhos semicerrados vertiginosos, com traços vastos avermelhados e ali permaneci por mais de dois minutos; deixando torneira derramar água misturada ao meu sorriso irrefreável. Há muito esperava este dia, não calculara esperançoso por dias tateando imagens e mensagens, entretanto espírito e corpo mesclavam sentimentos. De olhos envernizados castanhos, lábios tenros e fartos, pele escorregadia algodoada. A estática cessou junto do seu questionar onde eu estava, então cessei aquela inquietação incrédula, do desmerecimento e voltei. Seu seio direito escapulia dos lençóis, estava pontiagudo e roseado junto de um riso divino desmanchara qualquer razão minha. Saltei e desmanchei eternizado.
Dias inteiros observando razões sendo devastadas. Meus olhos corroídos lacrimosos, meus sonhos pisoteados por premissas simples. Realismo, ouço das gargantas pútridas, realismo imbecil. Quero dizer-lhes tanto idêntico ao rasgar silencioso das frases. Há muito medo mascando minha carne exposta. Descanso mas não durmo; apago feito condenado, debaixo da luz inquieta que se arremessa atravessando grades d’uma prisão. Vou até você, meus joelhos torcidos lançam-me à frente, curvado pareço idêntico ao que sinto, mas não possuo culpa. Quero ter excessos de culpa. Você não me vê, ninguém me vê. Estou aqui mas não estou. Talvez esteja lá onde tudo termina.
Meu tempo está desfeito. Quando entro em milimétrico embriagar, assisto cores latejando variadas e viscosas, lambendo meu olhar incauto. Pessoas amontoam-se convolutas aos beliscares musicais iluminados, risinhos, conversas, passos coagulam e vez ou outra construo forma daquilo que vejo. Sei muito pouco do que é estar até o fim junto de uma premissa, todos os segundos gesticulam miraculosamente diferença inadiáveis. Mas pior, não me acometo ao ponto de agir. Somente atravesso mares indissociáveis daquilo que sinto e imagino sem ordem alguma. Não atoa, refém daquele qual me arrasta consigo, permaneço infinitamente em amor.
A morte junto ao mar, viraria sal. Estaria eternizado, memória horripilante ao outro; a mim não sei dizer. Há dias em que vida não me liberta, me aprisiona. Dias junto aos meses onde fé e medo entrelaçam-se com agulhas junto das correntes e me arrasto pelo piso fétido deixando rastros sangrentos. O nada e a morte não são iguais, a morte é um desejo latente volátil d’alguém que quer ser salvo. O nada nem sequer possui milímetros de vida para desejar morte alguma, do nada só há continuidade até que o tempo exausto lhe ceife.