19, JULHO, 2024.
LAPSOS TÉCNICOS
1; A inércia humana ante o pegajoso lacrimoso futuro decrépito. Horizontes previsíveis substituíveis, são chacinas claras nítidas, dias inteiros se desejo houver banhado será do sangue contido nestas telas. Humana inércia contaminada, individualidade moribunda nascida naquela cruz. Quando salvos for salvar-se, ninguém estará seguro. Caminhos metafóricos, justificativas para o além.
2; Sofisticadas técnicas trazem no bojo ruínas deletérias. O pensar antigo ou futuro, arqueologias incessantes d’alguma utopia moribunda. Somos radioativos detestáveis, organizando orquestras fúnebres diárias, quando nasce e adormece o dia, ninguém está pelo outro. Talvez n’alguma parte do olhar desperto sinta um fisgar violento, logrado por toda a miséria universal e hoje ante a melhora miúda, técnica gigantesca; fome-morte pelo desperdício. Tudo está aí, mas nada nos salva.
3; Diante aquele eco cáustico. Toda placidez derretida. Há vozes sussurrantes agonizadas, lacrimosos infantes saltam das covas rasas; olhem ao céu, a torrente germinal despertou. Há razão para o mundo ser esta coisa, como coisa dá-se nome ao detestável. O ser aqui jaz indisposto semimorto, adoentado. Vejam, lá longe brilha a diferença, nela não há humano.
4; Há um homem longe desperto. Um poste inquieto pisca sua luz intermitente. Sua forma é esguia alta quase gigantesca. Atrás crianças brincam alegres, seus gritos minguam toda uma tempestade. Chuva assola este mundo raso pequenino. Há algo inefável ali. Não estamos perto de lá, estamos mais próximos aconchegados no nada.
5; Veio mais um decreto simples. Veio mais uma vida simples. Vieram com seus grilhões puseram em nossos pés e levaram-nos. Ouvi linguagem angelical inalcançável sentido. Todos próximos chorosos lamentos. Tornozelos pouco a pouco em carne viva. As ruas desertas, casas quadradas iguais, postes cinzentos iguais, vozeiradas idênticas; todos olhavam escarninhos de esguelha. Ninguém sentiu pena. Entendi que éramos condenados, nossos feitos arruinavam e negavam algum decreto. Uma praça surgia vasta, colunas pontiagudas formavam um losango, correntes encontravam-se no alto segurando uma esfera azulada. Ali sentado no centro um raquítico velhaco trajando túnica cerimonial fosca, seu rosto derretido junto das covas ossudas. Disse duas palavras trovejantes. Caímos.
6; Suplicar até o fim desta vida, suplicar e pedir. Aquela cruz organizou a nascente deplorável deste indivíduo. Somos então salvos, salvemos famílias nossas, vidas nossas. Todo o oceano das diferenças, dos humanos retidos reprimidos. O horror da memória, das nossas histórias. Desses povos. Quais mantiveram hierarquias suficientes, quais não sofreram genocídio. De humano nos resta o medo.
7; O ruído como todo ser nascido mantém a vida cá. Ruído ocioso deleite, fustiga qualquer desavisado planta semente odiosa. Ruído qual arrasta-me para o inferno. Todo vislumbre é objeto prático, uma diferença esmagada por si mesmo. Ruído faz nascer ao ponto que decepa. O machado está aí mas não é sua mão que segura.
8; Medo é o verdadeiro universal. Finitude acoplada em si, finitude organiza todo o nosso futuro. Único fato inefável. Somos criaturas deste medo colossal, desta vida significar medo. E não viemos do pó e do pó voltaremos, somos criaturas organizadas pelo facínora amedrontado. Um serzinho inescrupuloso deplorável na sua arquitetura. Se há um horizonte oposto ao medo, é pelo medo que nasce.
9; Quais verdades trazem consigo suficiência para esmagar um desejo. A razão grandiosa corrói lentamente durante algumas horas quaisquer. Palavras medonhas, reticências calculadas. Nada remonta e desmonta, motiva tal qual um desejo qualquer. Pulsa latente germinante, a razão amiudada grita mas somente um eco resta. E estamos lá, guilhotinando a história, por um desejo.
10; Grilhões e penumbra. Estamos açoitados pela epopeia da imagem especulada, esperança de algum humano. Política tão clara nítida, gesticula prognósticos descartáveis. Há uns, outros tão plácidos em arruinar que o mundo parece joguete. Tal qual aposta, tal qual bolsa de valores. É despótico e deus está morto, na verdade substituído pela conquista individual. Há uns capazes de nos comprar, compra países, comprar terras, destruir terras, mandar-nos embora. Deus morreu pela troca, pela moeda. Há um deus terrível habitando e mortificando nossas eras; o dinheiro a moeda, deva e me sinta vivo mordendo seu pescoço quando lhe tirar tudo e a morte ser mais que um desejo, uma punição, pois aos seus ainda vou atrás até que me pague.
11; Corpos sem órgãos, contradições hediondas. Há em todo olhar um futuro. Há em toda vida algum passado. Linguagem traz consigo coragem, mas desta coragem a certeza escapa. Ver já está pretérito ao tentar dizer. Então nasça e esqueça. Esquecer é o ápice do eu contra a máquina. Máquina nenhuma esquece, permanece lá enquanto houver energia. Humano hoje em seu ápice, pois é capaz de esquecer.
12; Técnica alguma trará satisfação. Arranquem meu crânio, ponham-no naquela engenhoca pífia. Eu mesmo ativado me desativo e parto. Se formos levados ao imaginário eternizado na impossibilidade de esquecer, eu mesmo me deleto; esquecer me faz alegre feliz, nostálgico. Como o gosto raro daquele toque mirabolante, língua em língua, dente nos lábios, ruído escorregadio musical. Tudo está na possibilidade d esquecer.
13; Memórias e tempos distantes. Máquinas e sua infinidade. Óh, tão angelical, tão divinizante. Em si, genuinamente tão diametralmente oposta a mim que lhe rejeito.
Somos ruídos. Tangíveis ou intangíveis, esquecidos e encontrados.
Usar da técnica como aquele ir até um lugar, não nos tornar decaídos inferiorizados pela quantidade.
Um eco trazido do humano. Assim como não há nada na morte que a vida não esmague. Todo o ser habita a possibilidade de esmagar a técnica.
14; Lembrar amaldiçoando o fato que toda a razão é esmagada por um desejo.