QUEDA.

07, JULHO, 2024.

QUEDA.

1.

Alegrias alvejavam-no, caídas dos galhos arremessadas por bracinhos miúdos festejantes. Incessantes, seus olhos brilhavam aflitos por este prenúncio; antevia alguma ruína incorpórea, visita malograda. Seus olhos castanhos enlameados recusavam simples ofertas, formas plácidas quaisquer. Magricela esguio tateava troncos envelhecidos misturado aos passos reticentes vagarosos. Dos seus lábios finos palavras minguavam inférteis, pestanejar sequer lhe era possível. Era tarde e a madrugada aberrante tumultuava sua mente escarninha, o fazia degradar futuros possíveis; havia consolo naquela mistura sentimental, fleches espectrais entre frestas iluminadas, luzes amareladas pulsantes derramando no asfalto um vigor mórbido que lhe fazia festejar a pureza e em contraste toda futilidade, toda mequetrefe finitude socava-lhe a testa, amordaçava. Viver era contraditório, a carapaça mantinha sua existência, fraquejar uma sina. Havia em si toda a saudade cósmica, infelizmente nenhuma tangível.

Desmédus acordara enfim, noites inquietas feito esta sequer apertavam a mente. Derrete até o chão, banheiro banho e dentes escovados, veste uniforme amarelado e inconsciente visita cada diagonal com cautela. Seu corpo caminhava inconsequente, deslizava vez ou outra, caretas reativas há introspecções; seu celular um tumor benigno, habitava-o mas sequer tocava. Não fossem obrigações imperiosas esquecia-o completamente. A manhã exigia de si algumas entregas importantes, verdes podiam ser adiadas mas as vermelhas eram decretos divinos; uma destas ficava na outra parte, um bairro escaldado por memórias turvas, desgraças contínuas. Borbulharam duas visões entorpecentes cáusticas, nenhuma porém mortífera, era um homem plácido ante qualquer assalto sequer tremeria ou falaria, entregaria exigências, continuaria vivo. Entretanto ante o tranquilo espírito jazia aquela bocarra aberta diabólica, donde horizonte enegrecia manchado coagulado pelo próprio sangue caído, por reagir enfim abandonando sua carapaça. Balançava violentamente a cabeça quando logrado por miragens trágicas, quando ardiam forte se beliscava despertando. Viver era condenatório.

Próximo à praça das dores fez uma pausa sistêmica. O quiosque do Járgos Largos Primeiro, servia salgados feitos no cantar do primeiro galo, sucos e caldo de cana, pequenas fileiras alegres. Chegasse quinze minutos atrasados ficaria com pouquíssimas opções. Járgos era cativante, usava um mullet curioso visto ser calvo clássico, juntava os cabelos resistentes dos lados e seguiu dali. Contava histórias absurdas, de abelhas misturadas com vaga-lumes para trabalharem durante a noite e até vezes em que bebeu garrafões de álcool, atravessou o rio e trocou longas palavras com o nego d’água. Seus olhos tinham aspecto musgoso cinzento, sua pele fosca negra dava-lhe um teor imperial, era forte torneado com uma protuberância firme da barriga, dura feito cimento. Tinha uma cicatriz triangular do antebraço até o pulso. Quando mirava Desmédus chegar iniciava um caldo de cana, dois salgados, café com bastante canela. Trazia a bandeja esquivando transeuntes ou pedidos extras, seus olhos brindavam-no abraçavam-no e enternecia, porém sua reação entregou uma melancolia, serviu-o apertando firme os ombros. Voltou a servir. Aquele afeto transcendia a linguagem, Desmédus vinha com olheiras poças debaixo dos olhos, sentou como carregando agulha entre as vértebras. Mesmo assim comeu satisfeito, tomou aquele café misterioso e seguiu.

2.

Um poste se erguia lamentoso sobre árvores e a última casa daquela reta-esquina, lá embaixo brincava uma criança gorducha, cabelos longos desgrenhados, uma verborragia sobre criaturas, heróis e planetas. Os bonequinhos variavam humanoides, dragões e outros esverdeados, a qualidade desfigurava seus rostos mas isso era raso para aquela imaginação pulsante. Levantou o tal poderoso herói sem face cantarolando um verso estranho e com um tchbuum enorme decretou a morte do dragão nefasto devorador de terras. Lá em cima o céu azul minguava lentamente trazendo a mistura cáustica das luzes heterogêneas, pouco a pouco alaranjando o dia. A criança entristecia, não era seguro ficar até tarde; ouviu várias histórias terríveis juro, puxaram o menino pelos cabelos bem aqui da esquina, olha, olha até o topo do poste e lá balançou ele até desmaiar. Seu cérebro acometia-se em sono profundo daquela miragem moribunda e arfando violentamente despertava acordando quem estivesse perto, nessas horas sempre o irmão mais velho. Tem também daquela vez, lembra? Vinha a sua memória feito um comprimido fazendo efeito, Ugo contando-lhe sobre a menina e o buraco infinito ela corria dos homens altos sem rosto, não tinham, segundo ela! E corria muito, corria sem parar. Quando chegou aqui ó, vê, na esquina, parou e seu grito foi esmagado não saia voz, devia tá mijando de medo; correu até o fim daquele bosque, mas por pouco não caiu. Depois de vários minutos sem olhar para trás decidiu voltar, parou próximo ao buraco e escutava várias vozes misturadas umas nas outras, não reconhecia nenhuma, mas o “ei guria! Vem cá! eu conheço seu pai! Ei!” não parava! É perigoso aqui quando anoitece. Levantou tremelicando quando a visão nublava um tantinho reconhecia sua deixa para voltar para casa, ainda que fosse o habitante daquela esquina.

Longe Desmédus observava aquele menino presumindo o horário e sua deixa para ir jantar. Fora ele que alertara sobre o buraco infinito quando entregou as cartas do pai. Seu corpo recusava aquela crença mas sua imaginação não. Há sempre uma migalha irrefutável das crenças mirabolantes, associava à minúscula probabilidade a quantidade de sumiços nessa região e adicionando ainda um tanto os jamais recuperados. Os sem rosto da história podem ter sido perseguidores reais. Chegou até a esquina arrastando os pés já exaustos, falou com o rapazinho se poderia receber a encomenda, ele com aquela quantidade gigante de brinquedos amontoados junto da barriga disse que sim e quis morder o plástico da caixa e carregar, mas Desmédus rejeitou e disse poder esperá-lo guardar seus heróis, trouxe um longo sorriso ao gorducho, num salto estava de volta e despediu-se, mas lembrando do calafrio que sentira alertou ao homem sobre os perigos daquele lugar e se foi.

Ali ainda era a área verde. Se aconteciam desastres, crimes ou qualquer imaginário fértil infantil, eram despercebidos e sequer anunciados. Furtos prováveis, acidentes simples, nada catastrófico. Mesmo assim aquele bosque iniciava com duas árvores largas como colunas e seus galhos entrelaçavam-se por cima, se colocassem placa nomeada lembraria o início de uma chácara. Faltavam duas entregas, tirou do bolso uma agenda encouraçada folheou-a tremeluzindo dedos, viu onde ficavam e por uns segundos imaginou a rota mais tranquila. Abriu seu sorriso pela primeira vez no dia. Caminhou por aquela curva insólita e do outro lado notou a ausência luminosa, o próximo poste daquela rua iniciava só no semáforo enquanto a paralela era quantidade comum. Não haviam casas e a calçada era terrosa musguenta, vários arbustos seguiam caminho adentro e as árvores misturavam-se com eles. Entrou onde julgara ser a chácara e caminhou lentamente, seu uniforme claro pós vários metros minguavam em coloração. Flores e árvores substituíam aquele cheiro morno ululante dos esgotos fechados, veículos choramigando suas descargas quentes e então o ruído súbito confundido por pássaros e mosquitos, era o silêncio. Atentou-se subitamente quando a memória imaginou sua queda infinita e uma sensação tentacular, sentiu prazer.

Chacoalhavam galhos, folhas caíam. Ondulações luminosas escorregavam nas fretas das folhinhas e galhos, pontiagudos arco-íris formavam nas diagonais. Seu coração acalmara, puxou com força o ar, descia pelo corpo tão raro escasso por pouco não desatou choro, lhe vinha junto de cada violenta respiração as roças longínquas imemoriais; quando arrastado por tios e tias tão longe daqueles maquinários, toda eletricidade. A lágrima descansou sorridente na poça de sua olheira, já passados seis minutos despertou. O clima mudara, as luzes reduziam. Longe donde tinha vindo um homem alto cabisbaixo apoiava sua mão esguia em carne viva, com a outra trazia cigarro aos lábios pálidos esbranquiçados. Um chapéu redondo escondia suas feridas cranianas e tufos de cabelo quase completamente brancos caiam pros lados. Seu rosto era largo, dentes amarelados e escuros. Arfou tão asperamente, um cilindro furado, fuuuushhhh, a fumaça derramava azulada e sumia. Olhou para Desmédus como se visse algo santificado, lacrimejava e balbuciava palavras desconexas e roucas, Desmédus lhe devolveu a mesma encarada, franzindo a testa. Torpor lhe tomou, ficou tonto. Cambaleando até o homem qual lhe espelhava indo cada vez mais para trás. Continuava balbuciando palavras desconexas sobre alturas, ventos fortes e crianças. Não hesitava, estava desgovernado pelo torpor, seu peito era espancado pelo coração, tateava galhos e pendurava em troncos, tropeçou mais de uma vez; vasculhou se consumira alguma substância, se tava sobre efeito doutra, mas só estava insone e de ressaca. A coisa finalmente parou, e assistiu. Desmédus caíra, o vão tão súbito escorregadio que jogou o corpo em vertical acertando a quina do crânio em uma raiz tentacular. Sua visão nublou-se enegrecida e por trás daquele véu cósmico, o homem estendia-lhe a mão. Todavia a oferta foi negada.

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