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28, JULHO, 2024.

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O medo jaz cá saltitante delirante. Medo traz consigo inexplicáveis momentos vis, angústia e irascibilidade. Onde infante não estiveste esmagado pelo horror entorpecente. As cruzes iluminadas, velas crepitantes e ainda ao som daquelas trombetas angelicais, dos ruidosos chorosos santificados; ali ainda vergastado, aterrorizado. Lhe vi aos prantos, caído questionando até onde irá isso, até onde, desgraça e não pausei, sua agonia retumbante cessaria logo, mas os centímetros autênticos, tamanha genuinidade horrorizada, marcou minha alma.

     Fomos infantes um dia. Crianças pequeninas divertindo-se naqueles últimos sóis. Hoje o tempo está estagnado, veloz, ruidoso e desnecessário. Somos chagas agora, atormentadas. Há horizontes germinantes convolutos, quero estar longe e perto tão perto. Posso ouvir chiados rudes bélicos, covas rasas manifestadas. Há ainda algo humano decaído e pisoteado. Divino tão divino sufocante, somos imaginários corroídos amontoados em salinhas miúdas. Meu quarto possui o cheiro do infinito.

     Meus dias são idênticos. Os anos caem trovejando às costas nuas. Manchas roxas, espectros cinzentos argumentando de si a si ante mim.

     2.

     Borbulhando afecções nefastas. Somos caídos, fomos caindo e levados pelo mar áspero. Quaisquer sonhos vão esgotando a esperança, caídos, fomos caindo. Ouço alheios sentimentos robustos arquitetando saídas complexas para uma realidade pífia minúscula. Quais mortes gerariam diferença utópica, toda diferença já em si é utopia, onde o foi e o será sequer surgem. Estamos desconjuntos, fragmentados. Séculos inteiros em um átimo de tela.

     Mães e pais, famílias.

     Um horizonte qualquer, um horizonte oposto. Lá longe brilhará último sol, nefasto, caricato. Brindará toda chaga, arruinará todos os dias. Meu horror é ter sido aquele grito esmagado por qualquer um.

     Certezas, mistérios e o nada.

     Dedos meus geram palavras e frases retilíneas. Lógica alguma modifica aquilo que é, há de existir ser sólido, contínuo. O precipício da razão é sua utilidade.

     3.

     Sofisticar uma vida não a modifica. Capacidades confundem-se. Para onde levar o que se é. Onde devemos ser alguém. Humanos, utopias, a história universal frente ao meu olhar ruidoso, hoje mortificante e sequer noto diferenças gigantescas. Somos o mesmo corpo; a mesma mente, não obstante a ruína só foi sofisticada.

     Ideias devem acontecer. Ideias necessitam de mim.

     Acreditar, meu amor.

     Velar tragédias. Talvez o tempo tenha anunciado, jamais entenderemos o que é ser. Ser algo, ser alguém. São bilhões, como estar nesta vitrine guilhotina, sufocado pela reposição surreal dos novos nascidos. O ideal cáustico desgraçado capital, maquinários perpetuamente substituíveis.

     Ser sujeito, é enfim alcançado. É não ser nada.

     4.

    Raciocinar alcances capitais gigantes, interpretar se há razão pura para tamanha riqueza. Melhor ouvir milionário há um sábio. Melhor ter dinheiro a qualquer coisa.

     Adoecer requer grana,

     Viver requer grana,

     Sonhar requer grana,

     Continuar requer grana,

     Existir requer grana,

     Ser requer grana,

     Não sofra se o dinheiro faltar. Houve época possível de ser algo, talvez sejamos sempre dados numéricos torpes das conquistas pequeninas. O mar transforma recifes. A história nos acostuma com a desgraça.

    5.

     Inquietações, ânsias. Há em mim todos os sonhos, em mim todas as vidas. Mas amanhã sou outro menor ainda. Guilhotinas diárias. Não há espírito, não há forma, não há prática.

     Possuo em mim todos os horrores, evito olhar, sentir. O amor quando rasga permanece intacto pelo eterno da minha vivência. Amanhã um mesmo machado.

     Mesmo infante senti tanto medo,

     Medo daquilo,

     Disso,

     De algo,

     Sempre perpétuo em mim.

     Amar e explodir, amar e derreter.

     Prometo existir.

    6.

     Continuar.

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