07, NOVEMBRO, 2024.
IDO.
Decaído gesticulo sentimentos dando-lhes formas próprias. Abstratos trajetos formando labirintos turvos entre curvas ásperas. Perdido há uma década, manifestando todos os requintes apavorados silenciados pela catraca contínua da vida. A vida rejeita meus trejeitos, escancara minhas falhas robustas altivas, e lá fora arde um sol. Respirar asco, tanta dúvida, tamanha dúvida ministrada pelos diabretes fazendo-me fantoche dos sonhos impossíveis. Não estou só, sequer estive quando a colisão tamanha desfigurou meus dias, caí contorcido nas cerâmicas empoeiradas. Inveja humana, inveja do ser humano.
Meus dias estão cáusticos, descobri uma raiz sólida subjetiva, qual altera e mortifica os horizontes possíveis a esta vida. Lá são três de mim, nenhum me conhece para salvar-me. Arrodeiam causticamente minhas laterais, diagonais, estou acostumado e perseguido por faces alheias. Rejeitam meu desespero, agonia. Pedem semelhança. A robustez dos anjos caídos em suas falas reticentes, mordiscando esta pele exposta lamuriando qualquer futuro diferente. Minhas quedas distopias práticas, espelhos gesticulam rostos transfigurados e assustado me esquivo do que sou.
Eras inteiras açoitam meu corpo exposto. Verdes meus olhos derretem, tamanha súplica espinhenta arrasta-se por cordas vocais e deságua puro silêncio. Amar tão inalcançável, corpo outro para visitar-me, descansar junto e contendo as agonias quaisquer, estar ali comunhão. A metafísica escorrega sangrenta a cada palavra inaudita, viscoso coágulo expõe minhas catarses inquietas não manifestas. Todo o tempo fracassado rasga minha traqueia, saber algo sobre mim trouxe perplexidade e adiante mais medo ainda.
Os dias são repetições, isolar-se já contém método defensivo. Existir onde arde aquele último sol escaldante, fissuras fornidas feridas. Caminho até práticas simplórias, pesos erguidos, caminhadas letárgicas. Ouço-o disposto, meu silêncio escancara minha escassez introspectiva, sempre populada por rasuras linguísticas sofisticadas, demônios imperiosos. As formas vivas construindo seus pequenos impérios cheios de ímpeto, onde todo ser está feito manifestado e inquestionável. A mim, então resta cair.
A vergonha nasce factível ante transformações da fala. Cada fala esquiva-se, reconstrói e manipula destinos inalteráveis pela imobilidade. Ser e estar manchado das tintas purpúreas indiferentes, falas mequetrefes vazias das diferenças. O horror está entre nós a machadadas expondo vazios opacos, injustificáveis. Trazer até mim qualquer subjetividade alheia ao declínio delírio contínuo, qualquer ser humano ao esboço sempre oposto dos horizontes deletérios, desta quimera infernal que sou.
Amar ou falar, línguas desesperadas. Amores cá refletem espetam as vistas, raios solares constantes. Machucam devagar essas agulhas pequeninas furos fazem e injetam lentamente movimentos involuntários, contorcem o corpo inteiro. Ela me olha esperançosa manifestando saídas possíveis, magias disponíveis no ambiente concomitante. Estamos cá iguais locais, sistemas, destinos, futuro e passado igualados. A diferença ato poético, potência. Toda poesia está manchada, pura inabilidade transfiguradora do real.
Os atos descritivos escritos amordaçados pelo sentimento. Sentir traz consigo diabruras, requintes caóticos dos destinos evitáveis ou inefáveis. Sentir mais é uma chaga secular condenatória, sua forma ácida corroendo espaços, dos quartos aos apartamentos aleatórios, visitas propostas pela vida. Chaga borbulhante a pausa mirabolante antes de qualquer fala, por um desejo sentimental. Sentir transforma todos os planos existenciais em reticências malogradas, onde a resolução pura é ser independente ao sentir. Ir até outro lugar, dizer até outra reação, escapar dos tentáculos condenatórios ocupados pelo desejo. Ir autômato, quase sem vida, mas ir.
Continuar é lamento, transfigurar é causa para os efeitos. Sobreviver acoplado feito crânio paralelo a outro, mesmos olhos, mesma boca; outra consciência. Nada me fez de tal ou tal jeito, nenhum trejeito roubou minha forma pura. Sou somente decadente, anualmente insolente, e ao futuro puramente impraticável. Condenado medo sinto quando sou forçado a objetivar, seja minúscula ou gigantesca criação. As contingências ululantes, desde aquele dia mágico ao passado metamorfo e trágico. São consciências e seres dentro do mesmo crânio, onde toda diferença é possível somente entre lapsos, cada imaginação retida pelos lados acessíveis quando bem querem. É pura desgraça tentar por em prática o que não é meu – mesmo sendo dito de cá, de mim.
Arrependimento angelical, traz consigo contexto bélico. Ir até ponto b naquele momento traria ruína amedrontada, por ainda não estar pleno e plácido. Hoje plácido rejeito a palavra desgraçada sentimental do arrepender. Sinto que posso ir até os cumes, observar todos os abismos, mas naquele dia não pude fazer nada. Vivo posso continuar, somente vivo posso conhecer o limite desta agonia. Queria ter ido, porém só sei deste fato por ter ficado.