28.
15, JANEIRO, 2025.
São dias iguais continuados, repetidos, rarefeitos. Dias cósmicos arremessados ao ar, alcançados por uns e outros. Minha língua sequer projeta, está retraída, omissa, ridícula. Vim como um arruaceiro para destravar continuidades, desequilibrar o manifestado, rasgar o eterno. Não trouxe comigo nenhum sentido prático, somente aquilo esboçado pelo trajeto, a história do ser. Toquei o mundo como se a morte estivesse lá, aqui e aí, não houvesse outro jeito, trejeito, tudo estivesse dado organizado e breve uma morte viria. O nada sempre esteve pulsante, ululante, arrodeando minha face opaca. Incolor permaneci estirado, com pescoço esticado acoplado em seus ombrinhos, chorava mil épocas, mil eras, todo o choro do mundo.
Não há saída ao pai, à mãe. Os labirintos contornam meu devir, projetam vislumbres espectrais, mágicos e nefastos; não há equilíbrio de formas, é um pulsar delirante ou desgraça. Evito a vida através deles, me rastejam dias inteiros, pressionam unhas, lambem minha nuca exposta, sussurram verdades inauditas. Deixar guiar-me por curvas, curvas que enfim se encontram e causam torpor; repetir causa-me torpor, horror. Chuva podia levar-me, água podia dissolver-me, mundo este não feito para mim, nada parece existir a mim. Amor deixei ir pois não queria ser visto desse modo, desse jeito. As comparações nascem esmagadas, pouco importa o outro quando o cubículo comprime meus ossos.
Ecos secos acertam janelas e portas. Crianças esperneiam seus cânticos mágicos, epopeias minguantes dos entardeceres. Crianças sabem misturar cores, laços, miragens. Pedrinhas amontoados castelos, dores e choro, chorar para libertar o espírito. Crianças saltam piscinas azuladas. Correm para mirar, mostrar aquilo lá que seja. Medos obscuros das sombras amontoadas pelos cantos, diagonais contendo mistérios inadiáveis, todo voltar a casa um mistério, anoitecia e consigo as criaturas arrastavam-se esgueiravam por frestas, pausas luminosas d’algum poste nublado por árvores altas. Um medo pulsante eterno, dormir mais uma lamúria, paz nenhuma.
Os mundos colidiram. Ninguém crê na falta, na carência mórbida destes detalhes fustigantes pueris. Meus dedos sangram, minha língua exausta. Todos os futuros derretidos coagulados, juntos formam faces espetadas. Sonhar tem trazido chagas, sonhar substituindo vidas possíveis. Sonhar e apagar.
Volte se quiser. Já não estou bem, já não me faço bem há tanto. Já não percebo o tempo como antes, nunca entendi o tempo. Todas as figuras jorram verdades sórdidas, todos sabem tão mais que eu. Ouço atento, esquivo ranger dentário, lagrimas ofuscantes. Meu corpo jaz cá contorcido, retraído.
Eu entendi tudo. Sei tudo. Não preciso de ti, não há tardar qual lhe quero. Não há futuro em que estou junto a ti. Ah, todos os futuros são previsíveis nesta tua carcaça. Seu crânio é um labirinto interminável, suas dores são dores abissais. Eu entendi, não lhe quero perto. Nenhum de nós quer. Todos estamos satisfeitos, inquietos e silenciosos atazanando sua vida ridícula. Quando anoitece, quando deitas, já estamos preparados. Dormir a ti é um sepultamento.
Observava-me. Desista.
2.
Cheguei até cá amordaçado, minhas palavras resistiam e adormeciam profundamente. Observei aquele outro chegar com roupas azuladas, chapéu preto. Seu dizer era laboral, palavras pareciam acimentadas até escorregarem dos lábios. Causava torpor, seus olhinhos miúdos pretos engoliam o recinto. Afastei-me cautelosamente, sentei há alguns passos. Ele pedia cerveja e copo, dose de whisky e cigarros. Ali todos fumavam. Virou-se veloz e por pouco não me roubou olhar profundo. Trouxe seus pedidos até uma mesa e lá permaneceu estático, como esperasse sinal divino. Um sino pareceu tocar distante, duas três vezes. Seu corpo tremeluziu e devorou as substâncias como promessa e dívida. Havia algo sublime na suposição caótica dos tempos, sinos significarem um ato; minha vida era recheada de miudezas, mas nenhuma era divina. Esperar um carro, esperar um trabalho, esperar uma diferença em completa inércia. Meus movimentos não existiam, jamais chegaria em canto algum com olhar torpe e vil. Meu ódio e rancor estavam soterrados ao lado das mesmas alegrias.
Meu medo rompe a traqueia, todos os movimentos são em falso, quedas ligeiras subterrâneas. As vilezas vão acorrentando meus pés, estou afundando em águas mornas. Grito, mas o som é triturado, várias partes dispersam feito feches de luz e não há ser vivo que me ouça. A queda é eterna e livre, os tentáculos lacrimejam inábeis. O labirinto está fechado, não há mais curvas ou resistência. A queda é eterna.