INCOMPREENSÍVEL.

25, MARÇO, 2025.

INCOMPREENSÍVEL.

Corpos caídos da minha pele, estirados. Mesmices diárias rotineiras, fracassos misturados aos goles pútridos deste café. Vozes alheias introduzem processos químicos magníficos, mesclam originários maquinários homéricos contínuos e cessam repentinamente, ordenados por diabretes miúdos. A linguagem desta pele opaca vazia, metamorfose constante mirabolante conduzindo os dias inteiros a quedas nefastas. Caído permaneço cauteloso, pisando suavemente nestes cacos de vidro, pele rompida. Vez ou outra embrionários mágicos prognósticos surgem distantes, organizam vidas inteiras; processamentos, catracas giratórias perpétuas. Desistir sequer rompe a traqueia, sequer gesticula formalmente, desistir é impossível quando a primeira face caída jaz impossibilita de voltar a dizer. Cada queda é em si uma face substituída, não ser o mesmo todos os dias, não ser o mesmo em nenhum dia.

 Arma nenhuma, desejo nenhum. Nossos olhares mastigam o minúsculo lapso d’um chegar ao outro. Amarelados os postes infestam, vozerios, sussurros e passos ligeiros a lugar algum. Você me observa caído com os olhos pressionados, meus joelhos torcidos projetam-me a uma queda. Não caio, antes renasço cândido e plácido; a fresta, o risório artefato odioso, feche de luz milimétrico, a pele deste rosto anterior derrete e carcomido é substituído. Nova força, novo olhar, nova tentação. Não há religião prescrita, não há louvor ou fé, aquela face caída é tão minha quanto o dizer e pensar das novas palavras. Mordaz vem a ser os silêncios inquietantes impossíveis; adormeço reticente populado por vozes alheias, sons alguns, detestável transformativo é o silêncio, tal qual inferno dantesco. Desculpa.

 Quando infante desejava dois mundos. Das sombras pude sentir seus primeiros movimentos rasos, arrastando longas unhas pela cerâmica quebradiça; a escassa luz misturando-se organizada pelos mestres diabretes miúdos, davam formas e rostos, homens sem face. Minha infância rangia afundando os dentes, choramingando entrecortados soluços. Ao lado ela dormia pesadamente entre roncos ocos arrastados, na sua direita ele apagado permanecia estático. Todos podiam dormir pensei, todos estavam sólidos em seus mergulhares, nas suas investidas psíquicas; eu não, eu não posso dormir, dizia uma das coisas tentaculares sobre mim, pendurada do teto com olhos negros opacos, cabelos longos serpenteavam pelo sopro espaçado do ventilador.Permanecia horrorizado por horas até desmaiar, apagar. A maestria em virar de lado, cobrir os olhos pressionados, virar e virar, consumido por todo aquele silêncio.

 A quem deveria ir a quem devo ir então. Ao santo qual ajoelhar-me enfim, satisfazer a premissa qualquer, reduzir as agonias semestrais, semanais, diárias; reduzir cautamente e perpetuar diferenças, idênticas ou aproximadas à desta mãe, daquele pai, do irmão; circunspecto tateio o chão empoeirado, sugado por ondas violentas e sopros repentinos. Vejo, ouço, sou da carne e osso parecido, quem ousa atormentar irrepreensível meus sentires, meus porvires, esse devir ruidoso inexorável. Minha carne jaz derretida, carapaça enfim visível, carapaça maldita. Toda a vida maior e esmagadora, morte alguma trisca o horizonte angelical, continuar existindo. Tamanha são as contradições, solidão perturbadora raquítica, semelhança nenhuma, proximidade alguma, ao santo qual dizer então o mar enevoada empurrado lentamente por Caronte e o nada. Nada, como todo o nada ruía ante os tentáculos daquelas madrugadas infernais.

 Vezes mais, feito o ruído cáustico daquele horizonte. A solidão burburinho, solidão cósmica detestável. Deplorável sentimento culposo, detalhes famigerados robustos e multifacetados caindo aos pedaços. Meus dias rememoram vagarosamente quais princípios ativos foram necessários para estarmos aqui hoje. Qual deles fizera-me ir e voltar, quais não mastigam a carne exposta e rejeitam minha pele hoje. Tão ruidoso o lamento, ser o mesmo, fazer o mesmo, tentar pouco a pouco parecer minimamente com os outros, qual detestável demônio fizera, transformara, esmagara a possibilidade de ser. Ser simples e calmo, deletério, mórbido, cauto, plácido, ser humano.

 Sexto andar, sexta queda. Ainda sinto gracejos, risos trazidos à tona como mágica, seu rosto fantasmagórico perpassa minha noite. Seus olhos alvejam costelas, perfura pulmão. O teto aberto e caio, substituindo anterior corpo, como troca peles. Metamorfose alguma traria consigo inseto, pisoteado certamente seria pelo pai. Fracassos exigem membros, tentativas. De tentar ser causei-me desgraças infindáveis, corpóreas, etéreas, metafísicas. Ouço suas vozes constantes entrelaçadas desorganizadas me seduzem, rasgam. Caído permaneço saltitando puxando palavras para perto, utilizando-as como um grito silencioso. Não há outro jeito, nem uma outra vida. Ninguém pode sentir ou compreender, de um lugar pulsante nada. Pulsa o nada absoluto.

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