EU E O NADA.
19, agosto, 2025.
A sós, sinto a traqueia comprimida. Meus sentidos elaboram constantes negativas furtivas insaciáveis; predominam constantes mórbidas, labirintos intransponíveis; há tanto lamento nas investigações, nas buscas por clemência, piso ameno caminho tranquilo. Todos os escapes são tétricos, retornos fustigantes ao dia infernal atordoado pela sequência d’ondas virulentas, projetando minha existência ao seu final púrpura intermitente. Morte alguma viria, sentido prático algum surgiria, lógicas mirabolantes escorregariam entre os dedos feito ondinhas minúsculas. A sós está tudo derretido, assemelho-me ao pretérito convoluto coagulado, tateio a pele com minha língua nesta nova queda. Todos os seres humanos me açoitam com mesmices, projetos, trajetos retilíneos mínimos avassaladores; invejo-os tal qual caído, descanso meu corpo amordaçado pelo princípio sintético; todas as saídas lacradas, visíveis nos horizontes intangíveis. Tamanho sacrifício é a permanência, estados corruptíveis degradantes, quimeras fustigantes distópicas; igualdade nenhuma, perpetualidade detestável. Vê a mim nódoa eterna dos caídos, arrastado pelos ares corpulentos viscosos, tentáculos buscam-me ante qualquer alívio.
Hoje acordei inquieto, sonhos tragáveis fumaças escorregadias. Meus dedos calmos manuseando propostas cósmicas dos diabretes insólitos; resquícios linguísticos das suas tentativas comunicativas, aleatórias, indigestas arremessando-me para lares opacos cinzentos, arrodeado por pestes e chagas milimétricas; tudo está lá amontoado nestas diagonais simétricas, todos os cômodos remontam práticas indissociáveis incomunicáveis, não há permissão para ditos, dizeres suplicantes. Silêncio maldito reluzente, você aproxima-se e pelas diferenças nítidas produz rebeldia automática, tenta alcançar minha pele derretida varrida para um dos outros cantos, tenta incansavelmente assemelhar-se, produzir lógicas e sentidos parecidos; tamanho é o riso histérico da lamúria colossal em meu espírito, os mundos colidem, opostos cósmicos; não há nada aí que coabite, resista e viva próxima a mim. Hoje é um dia idêntico, amanhã tal qual ontem e o agora será desfeito, reside nesta continuidade despencares ruidosos, quietude deplorável inconsciente; vê se puder, se quiser me liberte.
A diferença está exposta, expõe o infinito indissociável das condutas, deste precipício mágico. As letras movimentam-se inalcançáveis, toda permanência é sacrificante. Há pedaços de mim ao passo dos lentos caminhares, dos ires e vires, do devir; o tempo está pontilhado, longe um sol arde detrás das nuvens cinzentas e o caminho é novo. Meus pés machucados desistem, retorno enfim aos braços alheios espectrais. Surdinas, ruínas, moradas degradantes. Da onde vieram, para qual razão eufórica mantêm-se perto inaudíveis, sistemáticos entre planos mirabolantes arranhando rasgando todas as rotinas dispostas. Vou ao sábio poderoso, habitado por premissas concluídas, olhos calmos lagoas ensolaradas verdejantes; sua voz escorrega químicas plácidas, tangem minha desolação, por um instante breve moribundo malogrado e simples, por um espaço plástico do espaço ante mim e ele, sinto brevidades plenas, plenitude; há no seu tentar vagaroso magistral, uma tentativa celestial de ordenar-me, trazer-me para o mundo. A estática deste estado momentâneo esmaga rasga meus futuros melancólicos, por um instante milimétrico quimérico, estou disposto; os diabretes silenciados, as lamúrias robustas quietas; o sábio por alguns segundos tem-me nas mãos. Entretanto o nefasto colidir da existência a mim reage, amordaça, destrói; o sábio assim como toda palavra incrível criada, volta ao seu túmulo, ao tempo donde fora dita e lá permanece inalcançável nos meus futuros porvires. Estou só cá, onde o mundo é repelido continuamente.
Fumaça expelida entre seus laços visíveis desaparecendo lentamente ante os meus olhos. Acostumo-me a letargia proposta do trago, tabaco diluindo seus chicotes lacrimosos vislumbrantes; seu despencar, uma queda imposta imperativa, corpo entregue e esmiuçado, uma pressão coagulante colidindo; permaneço de pé ainda que esmagado pela decisão atordoante. Há mundos habitáveis distantes, substâncias galopantes inóspitas ao meu princípio, então agradeço solenemente aos requintes milagrosos desta queda da pressão. Volto feito infante delirante para outros dois tragos simples, na súplica daquele retorno vagaroso manhoso das pressões modificadas por alguns instantes místicos. Não há surpresa nenhuma, há talvez delírio único por razões químicas inesgotáveis e rejeitadas pelo ato; caio entregue a proposta ruidosa deste tabaco ante mim, volto-lhe clemente por outra queda miúda, uma aspiração de vida.
A sós permaneço. Há esperança alheia mitigante constante, há olhares espectrais atravessando meu pescoço e emanando purificações santificantes. A sós volto ao decaído dantesco das chacinas homéricas transformativas sistemáticas a cada passo dado. Não houve era distante em que a esfera amarga da vida fosse oposta, sequer diferente. O luar lambe cautelosamente minhas córneas expostas, miopia rói horizontes distantes confundindo-os. Há tamanho sacrifício nesta continuidade, a permanência mais próxima de um Sísifo reticente, cauto em sua obra infinita. O mundo humano robusto, factual ordenador, guilhotina viva aos meus pescoços; ouço o tinir da lâmina e o impacto cáustico metafísico de mais uma cabeça minha rolando pelo piso fétido encharcado, ensopado pelo meu próprio sangue. A sós, tamanha é esta vida execrável. Há espírito vivo em que meu dizer não seria destroçado, pisoteado pelos maquinários da vida humana prática; há homem que testemunharia este insólito inferno e não tentaria indispô-lo ou atordoa-lo como fraqueza pútrida? Deus fez-me semelhante a algo, a alguma coisa e a maldição está nestes dias infinitos abissais. Caído invejo todos os milímetros redutíveis a expressões simples; caído permaneço na labuta detestável das metamorfoses diárias a cada segundo existente. A você peço desculpas, a mim, não ouso nada.