FRESTAS.

04, MARÇO, 2026.

FRESTAS.

  Entre as frestas deste lamento ruidoso. Dos altíssimos precipícios, quedas rotineiras. Sair e voltar a qualquer parte. Ontem fizeste uma época inteira ausente, sua forma tentacular desmanchada e rasuras retilíneas mórbidas montadas. Não há resquício ou vontade, há medo, ácido cáustico ruindo o corpo; as vozes entrecortadas lamúrias iguais, chocam-se germinando princípios mortais. A morte avizinhada, complexa, insaciável. Impotência surge rompante e dos membros estendidos caídos arrancados, miséria e fome. Medo, somente pavor junto a prece e a sua oração mequetrefe milimétrica individualizada; suas vozes abutres para corpos estirados semimortos, suas salvações esporádicas em meio a uma nova desgraça. Impotência faz nome ante a fraqueza celestial deste miúdo grito disforme, assistindo e ouvindo, lendo, sentindo os fracassos elementares e a política pura. Qual nome ou forma continuaria existente, persistente e altivo ante tamanha destruição. Veja se quiser a quantidade metamórfica das vozes ululantes desfazendo-se da vida.

 Uma tarde qualquer, outro dia igual. Seus gestos obscenos traduziam-se, suas vontades repetidas repeliam-se. Vindo lentamente até a ponte observando ondinhas terminando preces na beira. Podia sentir a eletrostática da sua ultima decisão rasgando as primeiras úlceras abrindo novas frestas borbulhantes. Largar aquela ideia fizera de si mumificado, seus trejeitos esquecíveis, suas vozes pútridas. Podia ainda sentir a voz derretendo lentamente ao contato breve do seu tímpano, transfigurada a face alheia mais lhe parecia nefasta que humana. Ir requer desejo, vontade, força, volição, exige algo indigesto ao outro; partir e não voltar, sequer olhar pra trás uma última vez para assistir a aniquilação de toda uma história. Zarpar e cair nos braços alheios da melancolia, o luto vegetativo minguante. Luas maiores, sóis maiores, vidas anteriores desavisadas. Este último trajeto, esta última vida. Largos detalhes mínimos expurgados, ideais introduzidos violentamente pisoteados. No ato, neste ato puro o feito é extremo, inadiável e inevitável. Voltar somente em algum porvir, reencarnação introdutória, mas que o fim é idêntico. Repetido o processo, retornar infinitas vezes e sentir infinitas vezes a mesma destruição, a mesma vida. Os burburinhos tentaculares dos sonhos infernais melhores a qualquer certeza púrpura deste ato, deste infinito retornar; melhor inexistir que viver o mesmo traço e percebê-lo em ato, em movimento. Sentir um átimo qualquer de que isto é o mesmo de novo, de que voltaste; melhor perecer inexistir, descontinuar.

 A ponte chamava-o, lhe habitava uma ruína incandescente. Lá sentira, antes de correr, pedalar e assistir os milagres da lua. A noite um veludo sombrio envolvia sua córnea, nada existia além daquele instante milagroso. Seu peito chacoalhava e açoitava costelas, o pulmão ardia. Vez ou outra repetia o processo deletério deste estado quimérico. O rio firme entre correntezas plácidas. Saltar, vontade pura e genuína, cair e desfazer-se em ato; a incerteza lhe tirava daquele salto, a morte um convite provavelmente adiável ante a queda, seus instintos rasurados atiçariam, nadaria até a beira. Quaisquer atividades simples, quaisquer rotinas foram arremessadas em sua consciência vil, nenhuma permanecera. Sua face distante ocupava alguns segundos, modulava-se e misturada a outros depois de um minuto inteiro jazia irreconhecível; só restava o átimo instante raso e rarefeito. Nada lhe ocupava, nada lhe satisfazia para afastá-lo e mesmo assim voltava, desistia.

 O eco odioso daquela última estrofe. A pistola estava parada e guardada, distante, inalcançável. Podia sentir as vezes o gosto do metal, o cheiro da pólvora, da bala. Havia em si um desejo degenerativo constante, seu imaginário pútrido repaginava e redigia sintomas entrecortados nas miraculosas obras mortais. Sabia das destituições, instituições e os horrendos adendos póstumos do defunto. Quanta mágoa e ópio não vira nascer das manchetes, dos enterros que visitara, fizera parte; seu âmago aberto espaçado e choroso quando viste o primo decaído. Ainda assim com as constatações óbvias, científicas das imutáveis razões de permanência; via-se desfeito, descontinuado, enfim lastimado e morto. O mundo destruído, o mundo enfim apagado e invisível a si; as mazelas catastróficas horripilantes, massacres constantes. Havia sorte na distância dos misseis, das balas perdidas. Há sorte em tanto que traz a si o nada. Não existir, perecer, resignar. Liberdade ao existencialista requer sorte, requer poder, requer distanciamento possível. Sentado ao ouvir aquele grito permanente em todo dia nascente. A vida é importante até onde.

 Seus passos rápidos contínuos. Voltar a vida, a mesma vida. A certeza disto viera entre sonhos lampejantes, maldições místicas sussurradas. A mesma vida então, pensava aturdido pelo deplorável canto daquilo. Mordiscava os próprios dentes até abri-los. A mesma vida de novo, detestava a ideia certa, viera dos anjos altíssimos. Mesmo início e fim, sem a memória desta certeza, mas lapsos rasgados e desconexos entre dejavús. Mesmo lapso, mesmo amor, mesmo fato, e a velhice vertiginosa que lhe açoitava continuamente hoje. Agora, neste lado, nesta existência. O anjo descansava as costas largas, balbuciava palavras noutra língua; mirava-o como místico miraria um deus. Aquele estirado nas poeiras de semanas, envolto no opaco breu de seu recinto. O anjo assistia e lhe avisava que depois disto, disso, daquilo, viria novamente o mesmo, na mesma forma e a diferença impossível. Melhor então ser algo, ser manifesto puro cá, ou não ser nada. A diferença é opcional. A liberdade jaz até o último ato, até o fim desta existência, já que todas as outras serão iguais.

 Nada.

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