SALVO.

09, MARÇO, 2026.

SALVO.

Detestável este início, esta vida; inteiramente nefasta. Ouve lamentos crus e bélicos, lamúrias arquitetônicas dos projetos decadentes e diminui-se. Seu trejeito mequetrefe, sua forma imprópria. Quais movimentações lhe salvariam, lhe tirariam daí onde habita inevitável e cósmico. Suspirar, chorar, tremer até derreter e virar algo enfim, algo disforme e continuado. Suas memórias escorregadias açoitam cada milímetro de pele, cada centímetro convulso; enquanto tenta adormecer flagelado por uma quimera simplória antiga, de uma vez que não soube o que fazer. Rejeitar a existência pura e simples, alívio algum encontra, alívio algum existe. Diabos infernais arranham seus músculos expostos, abrem os olhos fazem-no ver e enxergar até onde irá e cairá, até onde ir e existir, perecer. Tirar pouco a pouco a desgraça, redigitar, reconduzir e atentar desta vez a diferença; deixar ser outro, outra forma, outra coisa possível. Hoje despertaste convoluto, memórias incógnitas detestáveis e rarefeitas como algo translúcido alvejando olhos incautos; levanta reticente, lamenta este detalhe pueril esta causa esperançosa como se lhe habitasse alguma. Amanhã não quer estar, amanhã quer estar desfeito e esquecido, palavras corrosivas e poucas, minúsculas.

 Atirem em mim.Esqueça o primeiro ruído disforme deletério, ouça os milhares restantes. Ouça este novo administrado pela causa maior divina, ouça-o e refaça, obedeça e esteja preparado. Vão tentar tirá-lo daí, coloca-lo lá longe onde existe vida diferenciada, vida póstuma; esta atual já pode evaporar, desmanchar. Atirem. Ela chegou devagar, arrastando o vestido longo; seus olhos pretos enormes, lábios finos e alguns sinais nas bochechas, magricela. Sentou ao lado, de soslaio investigou quem ali era, quem ali estava. Não disse palavra alguma, nem o olhou fixamente. Ele tremia violentamente pelo caso, conhecia-a de outra época, lhe desejava ordinariamente; seu cosmo púrpuro latejava, imaginário açoitando as projeções, progressões, prognósticos, tudo era possível e não, nada. Atirem. Seu vestido preto, sua tatuagem escorregava do ombro ao braço, a franja escondendo magistralmente a testa. O mundo está aí para ser transformado, pisoteado, esgotado; nada há longe e não houve ser divino, não há metafísica, tudo está dado. Atirem em mim. Espreguiçou-se duas vezes, bebeu o vinho morno, acendeu um cigarro azulado e a ofereceu, sua reação mordiscou a córnea e uma granada explodiu nas suas costelas. Ela acendeu e tragou lentamente a fumaça descendo pelos lábios úmidos, bebia também aquele mesmo vinho quente. Atirem. Entreolharam-se enfim, riram melodicamente.

 Viver um projeto, assistir ruínas, ouvir decaídos. Existir entre detalhes moribundos, artefatos místicos, promessas horripilantes. Mude sua língua, mude seus dedos, mude todas as procissões, todas as suas fontes, todo o seu horror. Medo, do medo há existência possível, deste medo germinante oscilante e decadente, das aspirações degoladas, das esperanças guilhotinadas. O professor tirou a própria vida depois de uma era inteira miserável, lampejos sofisticados, leituras incessantes angelicais e abissais, passeou e contornou dois mundos possíveis e nenhum arrastou-o para fora, nenhum trouxera-o de volta a vida. A praça oscilava promessas, corpos distintos rastejavam pela calçada e observavam o plácido ir e vir dos automóveis. Árvores chacoalhavam galhinhos e folhas, corriam, crianças brincavam nos parques. Lá estava há uns trinta minutos disperso, lamentando alguma notícia recente e a solidão cinzenta dos seus últimos dias. Não havia projeto nem razão para estar ali, sequer caminhara ou correra, só fora e sentara. Pouco a pouco observava desatento o celular, esperava algo pulsante, algo como uma memória ruidosa cheia de espinhos cáusticos das quedas antigas, do adeus. Ninguém o brindaria hoje, nem amanhã. Insatisfeito levantou e correu até a exaustão, curvado apoiado nos joelhos chiantes vomitou. Seu corpo denunciara sua miséria, seu sedentarismo suicida.

 Há um mundo, há toda uma vida. Existir mais lhe é vil, mais lhe é torpe. Sua linguagem rejeita diferenças, seu mundo é maldito. Quem vira-o iniciático, testemunhaste a formação dúbia, flagelada. Ninguém tentaste conduzir, ninguém o trouxera até alguma luz miúda. A escuridão reinaste, vozes entrecortadas, labirintos. A infância roubada atravessada, esmagada. Deuses e deus. É tarde para despertar, tarde para não ser. Sangue e medo, repita mais duas vezes este sangue e este medo. Lá fora o mundo existe, lá fora todos vão e voltam, partem e se desfazem. Quem dera-lhe letra, quem dera-lhe mundo, mas um mundo distorcido. Existência solitária casmurra, degradante insólita e só. Hoje por pouco não inexistiu enfim, enfim viraste memória, tempo perdido, inefável sensação latejante. As costelas envolvem um abraço letárgico, âmago afunda nas águas turvas, geme e pergunta. A pergunta anterior ao próprio nome. Passo deste ano?

 Fora feito carne e osso. Falta linguagem, faltam palavras, termos. Criações oriundas da razão e não desta guilhotina ruidosa. Há certezas colossais dissipadas, formulações dantescas. Seu germe melindroso repagina e preenche cadernos inteiros com memórias, lembranças vis temperamentais; como se uma delas, ela, aquela em si lhe salvasse. Passeia então por entre as faces milagrosas enterradas. Todo ato fizera-o, todo ato transformara-o neste inferno inaudito, silencioso. O tempo rasga sua face e enfim tudo lhe é execrável. Falhaste, desculpa, eu rejeito sua proposta, sua forma, seu conteúdo. Rejeito a sua salvação.

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