29, JANEIRO, 2022.
ABJETO.
As inconsistências destas reações levam a inebriantes vertigens; de repente me vejo antecedendo minúsculas desgraças disformes, cada uma mordisca a pele e deixa marca. Meu rosto modifica-se pela premissa simples de se detestar, a saída para qualquer motivação precoce é evidenciada como afronta ao modo operante do espírito. Observo-os estendendo suas mãozinhas deploráveis tentando puxar meu corpo para este outro ambiente possível que causa somente repulsa. Vejo a nitidez simples da perpetuação do ridículo, permissão explícita desta decadência fajuta.
O silêncio ecoava pelo cômodo como um tentáculo, tateava minha pele, introduzia premissas insolentes. A luz turva conduzia sombras pelo tremeluzir cínico da lua amarelada e preguiçosa que esticava seus dedinhos esguios pelas frestas da janela, ainda não obstante formas humanas de olhos amarelados e as vezes em um vermelho sangue, dependendo da torpeza do meu horror; gesticulavam em silêncio nas suas bocas vazias convites para conversas longas. Contorcia-me em resposta, virava com violência o pescoço e vendava os olhos com meus dedos ensopados de suor; sentia no oxigênio denso espalhado pela respiração ululante daquelas sombras um tipo de frustração liquida, tal qual a recusa de algo santificado. Depois de minutos em transe com o olhar fixo no chuviscar do breu que atravessava meus olhos, observava cada centímetro do quarto e engolia um choro áspero, pelo patético pavor e a agonia do suposto imaginário.
Os dias sempre arrastavam-se, sempre confundia as horas e dias, fins de semanas arrancavam pedaços da consciência na tentativa de situar qualquer momento específico. Os olhos claros absorviam os outros, sugava a voz que escorregava pelos lábios finos e grossos destes ao redor; recusava qualquer longo contato, ser percebido traria consigo o óbvio fato de estar ali. A nitidez robusta da dúvida primeira diante do absoluto e o nada nos dias infernais. O silêncio virava uma rotina induzida, elas aglomeravam-se ao redor das enfermidades contínuas e a dor lembrava-me algo como afeto, pelo carinho que surgia em cada queda efêmera. Vertigens febris levavam até uma clínica turva, preenchida por enfermeiras e médicos sem face, um bebê brincava com uma bola enorme que perdia a sua cor a cada agulhada que ele recebia; seu choro ecoava como uma sirene prestes a quebrar, ao lado uma mulher envolvia o ambiente com gritos de gralha, seu desespero formava dedos que envolviam as mãos dos médicos e a continuidade de saída e entrada deles, transformava o inevitável, um fato simples: morreria.
Sopros daquela liberdade vil mordiscava a pele das minhas pálpebras, não tinha pensamentos ou linguagem para despejar a peste daqueles dias solitários. Acostumava-me ao pífio e abjeto desbravar impregnado por abstrações introspectivas, espelhadas e ouvidas pelas sombras que aos poucos dei liberdade e confiança para relatar. Seus ouvidos lembravam algo como afeto puro, amor; e eu agradecia numa felicidade rara e escancarada. Aprendia uma evidência da forma, que a solidão não se tornaria escapável. As pessoas reduziam-se a um tipo de lógica necessária, cada centímetro que aprofundava notava o quão objetivo e prático os afetos iam virando; cada síntese construída por estes entraves empurrava-me para as sombras. A agonia era e é um aspecto inescapável, irredutível do labirinto deste existir.
28, JANEIRO, 2018.
CAUSA-SUA
posso ocupar-me da memória, projetar meu olhar pra detrás do tempo que desliza agonizante pela minha córnea, repelindo desastres; um dever simbólico, atormentando as causas pífias entre deslumbres delirantes, vegetando a ideia-metafísica deste amor robusto, embriagante, entorpecente! recusando as simples soluções metrificadas, retilíneas e ordinárias, sendo desespero calculado dentro do copo inesgotável de saudade sua. ainda que me despeça do cheiro, preencho-me do mesmo ou o encontro nas tardes quentes, entre mordiscadas secas, gestos duros no maxilar, encontro como quem busca uma desgraça para esquecer a própria, uma desgraça ilusória para ter-lhe dentro de um baú, com chave minha, duas lágrimas de causa tua.