INQUIETO (10).

19, FEVEREIRO, 2022.

INQUIETO (10).

Lapsos imagéticos arrastam-se pela sordidez destes dias, ecos de um desespero inicial gesticulado nos intervalos de silêncio entre um choro ao outro. Algo sistemático rompia a agonia, formatava um princípio perpétuo que habita o espírito, diante dos diabretes autônomos nas projeções caóticas, um pensamento antagônico ao outro; a robustez dos detalhes manchava paredes e fazia a visão pressupor alegorias mórbidas, vultos para que a linguagem não ousasse tirá-lo daquele estado. Ser nestes dias um choro contido pelo princípio, conter e continuar sendo contorcimento, um lamento de si a si.

Formas hesitantes e o desaparecer. Criar como um hábito egoísta, erguido pela solidez abstrata das quilométricas agonias habitadas no choro nascido da primeira memória. Epopeias mistificadas por alguns adultos, nas suposições teatrais em dias completamente medíocres. Seu olhar atento e transfigurado comovia-o, homens minúsculos ardiam sua pele; histórias conduziam futuros nebulosos, silenciava atualidades e o motivo de estar ali derretia corroendo seu sangue. Letargias oriundas de fracassos recentes, cada premissa arrancava pedaços, germinando imposições inquietas, arrastando-o para novos deslizes ainda que algo substanciasse retornos a estes lugares novos.

Autonomias distópicas movem sua alma desde uma primeira epifania, construída nas oscilações desesperadas; uma saudade inescrupulosa formulando ambientações fúnebres para todo desejo e afeto. Não habitava no âmago alheio, não tentava fazer de si um ato dentre tantas vontades que o consumiam; refletia devagar e hesitante entre retornos a casa quando muros de sombra arrodeavam seus passos e um feche de luz invadia a córnea, levando-o até onde devia. Encostado entre devaneios numa placa imunda, assistia as ondinhas do rio mordiscarem a beira; esperava algo, não tateava a razão de estar, mas logo perceberia que entre conflitos mórbidos e que no futuro chamariam por algum sintoma, estar ali resultaria no absurdo reconciliador. Ela o escutaria.

Vestígios comovem abstrações e resultam em ápices volumosos, gemidos e choro. Detestáveis são atos inconscientes, continuidades e repetições pífias; a lástima de ouvir novamente a mesma coisa. Desde uma primeira ferida tornada bolha que estourara e o ácido deixara feridas nítidas, pulsou um intuito moral, visto de longe pelos outros como algo exagerado, irreal; ali já rugia entre ecos labirintescos um ódio sistemático das repetições e a pior forma, sempre rasgante na sua alma que surgia como o ato de mentir, uma exposição maldita da má-fé. Um infante sentir esta desgraça, arquitetar entre pensamentos velozes e caóticos um sistema e em todas as exposições ser massacrado. Devia desde lá ter sido absoluto. Mas na mesma medida que dizer sempre necessitou-se de laudo, a eles sempre foi um tipo absurdo.

Um comentário sobre “INQUIETO (10).

  1. Avatar de Matheus Vieira Matheus Vieira

    O Choro de ser o que se é. Lágrimas que escorrem sem motivo, embora a fala seja capaz de encontrar vários. Ser ficção de si mesmo e, ao mesmo tempo, saber que a maior ficção é pensar que pode existir um si mesmo que não seja ficção. A procura desse si. A tentativa desesperada de fuga. O choro é só uma erupção do sorriso que é preciso oferecer aos dias normais.

    Abração, Lennon.
    Obrigado por compartilhar de minha solidão!!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário