ALGO SOBRE AFETO.

04, MAIO, 2022.

ALGO SOBRE AFETO.

 1. 
Fure minha pele feito traça, corroa,
 Reduza-me ao princípio ativo da vileza,
 Do torpe e o hediondo que me habita,
 Escancare os terríveis traços indizíveis, 
 Faça-me enfim, faça com que eu grite!

 Rasgue estas premissas, estes processos
 Os sistemas mórbidos contidos nas lamentações,
 Nos dias inseridos em detestáveis recomeços,
 A saudade justificada na completa ausência do afeto,
 Faça com que eu rompa minha voz em um último grito

 Vejo-os descansando, entre sonhos e outros,
 Alcances mirabolantes nas suas vidas ridículas,
 Sinto cada centímetro de olhar, furar minhas córneas
 E gemo em um tipo de asco puro, simbólico,
 Traduzo todas suas proximidades em repugnância

 Calculo dias, na certeza do ser obsoleto,
 Efêmero nas raízes purgatórias,
 Juízes mesquinhos destas atitudes indissolúveis
 Ouço os delírios métricos do meu passado recente,
 E os dias que são infinitos, inescapáveis

 Aquele invisível ruído mórbido, unhas naquelas janelas
 Sussurros e sombras transfigurando-se nas frestas de luz,
 Vermelhos olhos, e um suor viscoso acumulado,
 Reprimia o dito, acumulava, organizava
 Sem perceber as formas puras levando-me até lá;

 Lá, que se não me fosse, seria a ausência completa de mim
 Lá onde noto, todos os rostos e olhos desde infante
 Vozes, corpos, uma fisicalidade inexorável
 E o inefável fato, de tentar arrancar suas cabeças,
 Hoje em certeza, de arrancar a minha própria;

Guilhotinas, o hediondo
 Satisfaça-me, dê-me algo que não o óbvio,
 Faz arder algo, sou-lhe assim tão patético?
 Quer-me até que ponto, qual carne e parte daqui lhe seria,
 Lhe daria um tipo de paz, será o gozo?

Amar, eu não hesito em submergir, escorregar através do teu olho
 Derreter no contato,
 Delírio, a mim é sempre inevitável,
 Transitar entre lapsos irredutíveis, incríveis, 
 Na certeza infernal de que há de esvanecer;

 Ela me arrancou a parte,
 Tirou-me dos recantos inquietos das formas, deles,
 Podia dizê-la, ouvia-me como se de fato me visse;
 Sentia que lá seria, e como tudo que seria
 Arranquei a cabeça, e assisti meu futuro dissipar-se.


2.
  Olhar-me assim, dá-me medo
 Despido, reprimido, corroído.

 Vejo, existo para além deste dia?
 Cabe lá um eu que não este?

 Evoluir e ceder à prática,
 Dar sentido ao estar,

 Permanecer para além do ato de persistir,
 Dar tempo e alimento a uma causa,

 Que justifique-se, em si?
 Sem identidade, sem forma?

 Rachaduras nas partículas percebidas pelos olhos,
 Agulhas milimétricas,

 E o esquecer contínuo, destes amores,
 Minha memória tateia sua forma em desespero;

 Escorre, escorrega de mim todos os dias,
 Como algo improvável, inatingível, irreal;

 Esteve mesmo cá?
 Arranquei mesmo tua cabeça?

3.
 Ruidosos lamentos
 Destas ideias esquecidas
 Atos guardados, pelo medo;

 Estas saudades, criando feridas
 Estourando bolhas na pele,
 Gotejando meu sangue nefasto;

 Redutível como algo que escapa,
 Um gosto amargo na língua,
 Um eco inexprimível.

4.
 Volte, se quiser,
 Não lhe pedi que ficasse,
 Sabia que iria,
 Todos sempre vão.

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