SOBRE O AFETO(2)./CURSO./NOSTALGIA.

05, MAIO, 2022.

SOBRE O AFETO(2)

Esta razão de permanência, precisa escapar do dia, do atual; preciso reconhecer-me para além deste ato recente, disto que esvanece completamente no amanhecer. Nesta forma específica, habita meu desespero em esperar o amanhã para lhe ter, ver, sentir; toda espera é agonia, pelo sistema vigente de dissipações contínuas, diárias.

A causa é óbvia, está ali em um canto específico, construído e erguido por formulações infantes, inefáveis. Meu trejeito é um perpétuo renascer, todos os dias compõem infinitos delírios subjetivos. Há aí meu rejeitar de ser físico, ser corpo, há aí a agonia contida no rememorar distante do dia anterior.

 Meu ego é sórdido, multifacetado; sem desejo algum de ser. Transfiguro-me em algo, mas não há ato por detrás de nenhum movimento transfigurado, multifacetado, não há desejo de ser, só sou. E minha maior desgraça é sempre tentar reviver ao ponto de chorar, quando lhe tento alcançar os dedos miúdos, minúsculos da memória, e vê-la derreter como inacessível; feito o dia anterior que está na distância de cem vidas.

Desespero simples, de tua forma esvanecer em todo traço que me alveja. Pertenço invadido constantemente de cê, ao ponto inescapável, pelo ato simbólico de não lhe tanger na minha consciência; há um descontrole líquido, que bebo ensandecido, pelo mirabolante sentir único, habitado aí; nesta negação sistemática, onde cê surge e transporta e esvanece quando tento tocá-la.

Está neste ato, minha agonia, pelo nítido aspecto de amanhã ser um completo novo eu; e meu medo, horror é de que agora, neste afeto puro, amanhã já não seja. Espectros deste movimento, fazem-me querer derreter aí dentro, na tua pele, no teu olho, em você.

Devo encontrar-me num gesto, ser algo que não se dissolve, esvanece. Achar razões de permanência, que não te envolva. Pois o absurdo fantástico, de um eu que existia além do agora, do hoje, estava lá, do teu lado. Meu gesto talvez seja idêntico ao passado de mim, voltar a ser só.

6, OUTUBRO, 2021.

CURSO.

Há dias que tenho estado estático
Diante do mórbido detalhe nítido
De que aquele ideal mirabolante
Caíra num abismo cósmico

As formulações perfeccionistas
Compondo mistificações de mim
Atuando entre as vozes 
Sendo uma metamorfose caótica

As transfigurações do meu rosto
Meus olhos que alcançavam utopias
Mordia a pele alheia com ódio
Afetado pelo ópio de estar vivo

As doses constantes de impulsos 
Deletérios, sempre inalcançáveis
Vendo da altura das janelas dos prédios
Que me engoliam, conduziam-me de novo

A uma nova ideia de queda, sempre um salto
O céu virava uma rotina desesperadora
O elevador um facínora
Diante das tonturas que rompiam o silêncio

A linguagem mais vai me afastando de mim
Em súplica nas noites infernais, vejo o disforme
Cenas hediondas arrodeando o quarto
Trazendo pro silêncio o eco de um eterno inferno

Talvez em um ato de defesa automática
Tenha silenciado os movimentos
Trancafiado minha língua até aqui
E cá, diante dos anos, me sinto um fantasma

Os rostos, o absurdo
O ápice de um ato
Ter diante de todas as ideias
Um desejo mórbido de desaparecer

Há algo além, existe uma outra forma de ser
Um ser prático, de movimento
Encarar a solidez decrépita destes anos
Com uma faca pequena, arrancar a cabeça

Assistir o rolar pelos degraus de todos os andares
Das vezes que surgia em lugares, despertava
Entre os símbolos que urgiam, rasgavam
Transformavam-me em um ser ausente de mim

Tenho medo de dar vida aos gritos que me cercam
As vertigens, os delírios cotidianos
Em um susto, havia um quarto vazio
Pro detestável, pro incômodo

Ser este detalhe, em silêncio
Diante do algoz, que me tens
Corta impiedosamente com os olhos
Atravessa minha carne e sinto as costelas comprimirem

Cuspo o sangue acumulado,
Repetindo um sonho rotineiro,
Repulsa pelo café, pelo ópio
As miligramas que roubaram tudo

A peste, a chaga
Traz em si uma certeza 
O fulgor inquieto
De ser, estar em decomposição

Os gastos, pequenos crimes capitais
Dentre lapsos, vertentes
Rangendo os dentes violentamente
Para não dizer, para ficar

Em alguma ode
Em algum caminho
Ouvi de algum, que ali ficaria
Permaneceria estático

Talvez o processo tenha sido uma utopia 
A catástrofe que resume-me a um nome
É hora de compor o horrendo
Manifestar a miséria que me devora

Respire o ar desta época inteira
Os anos como degraus para uma queda
E com chutes, gritos e lágrimas
Escapar da morte.

5, MAIO, 2020.

NOSTALGIA.

 o corpo alvejado pela luz amarelada que atravessa as grades da janela, 
 caio debruçado nos lençóis empoeirados, sórdidos de dias,
 leio a fala breve dos teus lábios vermelhos e descanso com a imagem,
 não miro no delírio sintomático dos psiquiatras, miro naquele entardecer 
 arrodeado do teu cheiro penetrante,
 da voz que derrete no meu ouvido despido.

estive descansando a alma deitado em agulhas, arames farpados
 rindo atoa das desgraças e vendo meu corpo manchado,
 pelo sangue, de uma culpa indigesta e pútrida,
 vontade de arrancar-me de mim.

 e surge, tão rompante
 tão devagar e crepitante,
 este trajeto, uma memória nostálgica
 do afeto, do carinho, do amor
 de amar,

 vou a ver, debaixo dos escombros
 das pestilentas criações
 do  copo lotado da desgraça
 dos corpos que projetava sempre traças 
 para repetir o ciclo de uma melancolia maldita

 volto ao teu som, ao teu trejeito
 o sol iluminou meu corpo hoje,
 me fez notar, que isto é algo raro
 penetra, calmamente e engloba
 dentro de si, todo eu

Deixe um comentário